Surras em família:


Eu me lembro que presenciei diversas adversidades enquanto tive uma família.A coisa principal,que obviamente,fazia eu fugir de casa era a violência doméstica.
Não era algo pra levar alguém pro hospital,eu sei que em muitas famílias este problema é uma constante,o que uma família como a minha,em que até hoje ninguém passou do 1ºgrau poderia ter.Se bem que o meu pai morreu em 28/02/1996 em consequência das enchentes que tiveram na favela da Cidade de Deus,onde eu morava(e naquele tempo eu já queria fugir de casa de novo,pelas desavenças que tinha com meu pai.Mas eu o amava).Ele foi tentar ajudar a pegar os corpos que estavam submersos nas lagoas e tinha um ferimento na perna.Quando ele tinha acabado de tirar mais um corpo,tinha uma sanguessuga na perna dele.Alguns dias depois de vários salvamentos constataram que ele tinha leptospirose,após queixas de dores agudas nas juntas e cansaço.
Lá na casa dele,era eu,minhas irmãs,meu irmão adotivo,meu pai e minha madrasta.Meu pai é que comandava aquela porra lá.Minha madrasta instintivamente não gostava de mim e da minha irmã do meio,Daiane,que tinha uma pele mais escura que a minha,puxando minha mãe biológica.Atualmente ela foi mais tolerável com minha irmã,mas batia nela por ocasionais desobediências.Ela saía pro baile funk e retornava no raiar do dia.Vi que a minha mãe tinha um certo prazer em bater nela.Era de cinto,de vara,de tamanco…encrementado pelos xingamentos racistas.E se eu presenciei isso diversas vezes,imagine quando eu não estava lá?Essa minha atual mãe já tinha um comportamento que beirava á indiferença.Seu tom de voz era baixo,aparentava ter uma calma tremenda.E até hoje é assim.Me lembro que minha irmã,após tanta porrada,teve a coerência de ir embora e morar com uma amiga.Ela suportou muito mais do que eu.
Quando meu pai tava vivo ele me batia e eu fugia de casa,diversas vezes.E eu não ficava na cidade do Rio,ia pra outros municípios do estado.Principalmente para a Região dos Lagos,onde eu adorava.Fiquei num abrigo chamado Criam(não me lembro o que significava a sigla),onde atualmente é um abrigo somente para menores infratores.Ele me buscou lá,me buscou num abrigo em Niterói chamado Feem(também não me lembro da sigla),onde era praticamente impossível de fugir.Eu odiava a Feem.Os menores eram arruaceiros demais,brigavam por qualquer besteira.Naquele tempo eu não sabia brigar,mas encarava.Quase sempre levava a pior nas brigas.Uma um moleque apertou meu saco até eu gemer e implorar perdão.Outra que levei um soco no nariz que saiu sangue de imediato.Uma que,num campinho do abrigo,eu pulei em cima do moleque enquanto ele tava amarrando os sapatos,de brincadeira.Horas depois ele me meteu a porrada no banheiro.
E hoje eu nem consigo mais ficar incomodado por causa do meu passado.
A casa do meu pai era horrível,a estante tosca em forma de casinha sustentava a televisão.Ele me proibia de ver filmes com sugestões eróticas,me dizia pra “virar de bruço e dormir”.Dormir no meio da tarde.Estúpido.
Bebia e fazia merda.Um dia ele,chapado,me bateu tanto que pegou a espingarda que estava sempre apoiada em cima dum lugar lá e apontou pra mim.E porquê ele tinha espingarda e deixava ela exposta?Ele foi um filho da puta,mas eu o perdôo.E ele quase nunca me bateu de mão fechada,só aberta.

Já fugi pra casa da minha mãe,onde a casa e o modo de vida era bem mais precário.Como disse antes,a casa era de madeira,tinha um porão que ninguém gostava de ficar por muito tempo.Fazíamos as necessidades líquidas num baldinho que ficava perto das janelas e as sólidas no vaso sanitário que permanecia no porão.E eu nunca gostei daquele porão imundo,cheio de aranhas e entulhos.
Minha mãe biológica,que morava na Rocinha bebia e usava drogas.Ela é do tempo em que chamavam cocaína de “brizola”,fim dos anos 80.Hoje eu não me lembro se ela está viva ou não.Vivia tendo problemas com sua menstruação(sei lá se era realmente,mas eu sentia um forte cheiro no ar.Os lençóis sujos estavam molhados por um líquido vermelho e fedido).O que proliferava na casa dela eram ratos e baratas.Até hoje me lembro de uma verdadeira legião de baratas andando numa extremidade entre o teto e a parede.E só eram aquelas grandonas,roliças,que não vejo há muitos anos.Sei lá se no Brasil elas foram extintas.Duvido muito.
Um dia eu tinha comido siri cozido na casa do meu avô,que morava perto da minha mãe.E eu tava realmente com tesão de comer siri,adorava.Daí,o siri tinha acabado.Eu fiquei de pirraça dizendo:”eu quero sirriiii”,fiz manha.Minha mãe ficou puta e me chamou.Trancou a porta.Me disse pra comer um panelão de arroz e outro de feijão.Eles dois estavam na minha frente.Já tinha percebido sua cara raivosa.Comi um pouco,não aguentei mais.Ela me dei uma cintada na cara,em cheio.Comi,já chorando.Não aguentei mais,ela me deu outra que o melado desceu.E me obrigou a comer mais.Eu chorei pra caralho.Daí,ela me disse pra dormir e falou que pela manhã eu iria comer 6 pães e muito café,para aprender a parar de ser guloso.

Meu pai se separou da minha mãe biológica em meados dos anos 80.Eles saíam na porrada MESMO.Um dia eu me lembro,uma coisa que me entristeço até hoje,eles gritando comigo,quando eu queria tomar Yakult(você sabe o que é).
– Filho não toma,porque tá com veneno-um falou.
– Toma sim,filho,toma!-outro.
E isso se repetiu quando na rua,eles compraram aquele biscoito Presuntinho da Piraquê(um com embalagem branca cheios de representações dos próprios biscoitos).Eu nem abri a porra da embalagem,eles saíram no tapa.E rasgaram o pacote.
Uma outra vez,meu pai quebrou o aparelho de som e a televisão.Ele sempre resolvia as coisas no braço,mesmo.Era rústico,burro.Um dia fui perguntar uma coisa pra ele,o sujeito ficou incomodado,falando pra não fazer “perguntas difícieis”.
Depois da separação,alguns anos depois,minha mãe transou com muitos caras,não por um curto espaço de tempo,mas era como,bimestralmente.
Ela já ficou com um traficante conhecido como “crek-crek”.
Um dia meu pai me levou pra ficar na casa dela na Rocinha.Ela tava na cama com um cara lá.Conversas depois,ele foi embora,o cara disse:”-eu poderia ter dado um soco na cara dele”.Não sei pq ele disse isso.Depois transaram.
Uma vez ela me disse pra comprar cerveja,dessa vez com um cara parecido com o Lobão.Depois disso,dormi e quando acordei,eles tavam transando.
“N”situações parecidas.E ela era cheinha.Agora,pelo que me lembro,ela ficou demasiadamente magra,com cabelos brancos e seeeempre banguela.Raramente cuidava bem do próprio corpo.Preferia pintar o cabelo da xana de louro do que tomar banho.E ainda tinha o problema da menstruação,como disse.Cozinhava,deixava o frango com as partes internas cruas e sangrando.Só mostrava seu desleixo com as coisas.
Até hoje só manifesta meu desejo de ir á Rocinha e matá-la.Mas obviamente não farei isso.Estou com a ficha limpíssima na polícia,e pretendo continuar assim até morrer.Só vai ficar no desejo.

Drogas=bebida=surras.

Apesar de ter sofrido pra caralho,eu nunca violentarei minha filha.Eu até poderia bater,mas não a ponto de aplicar-lhe surras.Eu não bebo,não fumo e nunca usei drogas,mas pelo que sofri,poderia ter usado.Poderia ter entrado pro tráfico,poderia ter sido preso e morrido.

Depois reclamam porque eu me sinto superior à muitas pessoas,que nem sabem o porquê estão vivas.

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2 comentários sobre “Surras em família:

  1. Fells disse:

    Isso tudo é muito dificil e tal, mas de forma alguma te dá direito de se sentir superior a ninguém, diz vc que não tem vicios.. eu acredito que quem não tem vicios também tem poucas virtudes…não sei das saus virtudes e pá, mas esse negocio de superioridade não é legal

  2. marita disse:

    vc deve ter algum direito de se sentir superior, depende do contexto. o melhor a se fazer é ser humilde (na humildade, vc conhece essa expressão usada aqui) e ajudar no que for possível com as suas experiências, só não menospreze. é feio demaaais.quanto ao livro, uam coisa a te dizer: disciplina. é muito difícil começar a escrever e terminá-lo, principalmente. haja saco.

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