Buerarema: Parte 1

Hum…

Brasil perdeu a Copa.
Eu não vou discutir sobre isso no meu blog.
Perdeu merecidamente….putz, eu tinha dito que não iria discutir.
Tá, calei.

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No ano de 97 foi minha primeira incursão à estados do Nordeste do país.Desde pequeno eu fiquei na rua, fugi de casa “n”vezes pelo motivo mais clichê possível em relação à vida em família(como por exemplo, eu apanhar dentro de casa pela mãe ou pai, daí…).Não poderia dizer que eu era covarde e não lutava, impossível quando se é pequeno e não ter “voz”pra discutir com os pais.Eu respondia à aquilo tudo fugindo de casa, com medo de apanhar, de tomar surras como a do meu pai, em que ele apontou a espingarda dele pra mim, completamente enbriagado.
Agora é passado, mas vou relembrar uma passagem da minha vida na Bahia, em 97, quando estive na cidadezinha de Buerarema.

Eu passei um bom tempo indo de cidade em cidade.Tinha passado pelo Espírito Santo, ficado num abrigo em Vitória dando nome errado(Marcos), para não descobrirem de onde eu era e não quererem me levar pro Rio, pois isso já aconteceu diversas vezes.E eu ficava puto por ter que voltar ao Rio novamente, não gostava daqui, não queria rever desafetos, enfim…fui.Quando saí do Espírito Santo e fui à Bahia, eu cheguei na cidade de Ilhéus, sul do estado, à noite.Fui intimidado pelo policial da rodoviária, que queria saber onde eu morava.Chorei.Naquele tempo eu era emotivo demais, beeem diferente de hoje em dia.Disse tudo, aos prantos.Pensei que ele iria fazer alguma coisa, não fez nada.Andei pela cidade à noite, e dormi na rua.De dia, arrumei um abrigo, onde fiquei uns dias.Experimentei um refrigerante chamado Tubaína, de sabor bem diferente dos refrigerantes da Região Sudeste(e daí?).Pelo que me lembro era 50 centavos.Hhehehe.Enquanto fiquei neste abrigo, queria ir à Salvador, conversei aos conselheiros tutelares se poderiam me mandar pra lá.Mentia dizendo que era de lá, mas não fazia um esforcinho no sotaque.Demoraram e eu já estava de picuinha com os outros abrigados.Saí e fui pra cidade vizinha, Itabuna.Pior.Fiquei num abrigo cristão, onde a distribuição de alimentos era rigorosamente controlada.Os moleques eram abusados, gostavam de implicar com qualquer pessoa.Eu fui alvo disto.Disse: “se eu não fosse crente, eu te meteria a porrada”.Eu nunca fui evangélico de verdade.Até hoje eu luto por isso.Um dos pastores tinha um prazer doentio de surrar seus filhos, ele demorava muito pra acabar de bater no filho dele.Daí, todo mundo era obrigado a orar, agradecer a Deus pelo alimento, todo mundo com roupas sujas, quase que em trapos.O quarto era grande, mas com as telhas aparecendo, algo meio que parecido com um estábulo.Quando era pra pegar galinhas para fazer a refeição, eu pegava-as pelo rabo(hahahha).Tinha medo de ser arranhado ou bicado.O pessoal orava e eu ficava em cima da árvore de jambo(uma fruta nativa).Certo dia fui duramente repreendido, um dos pastores que mal ficava lá tinha me dado cintadas pelo meu comportamento.Eu queria brigar com os que implicavam comigo.”Eu sou pacifista!”, disse, nestas palavras.Eu nem sei se darei surras em minha filha se ela pisar na bola comigo.Fica difícil.Eu tentei ir embora uma vez.O abrigo ficava próximo a uma estrada que levava à rodovia em direção à Salvador.Passava por uma porrada de cidades.Um dia eu fui e parei no posto da Polícia Rodoviária Federal.Erro.O cara me levou de volta pro abrigo.
Fiquei mais um tempo, depois fui embora de vez.Naquele tempo eu não tinha a malícia, nem a esperteza que tenho hoje.Tivesse o amadurecimento que tenho hoje, talvez já teria concluído o 1ºgrau, mas eu sou um cuzão, então…
Fui para outro abrigo.Mantinha um diário, naqueles tempos.E ficava feliz quando eu ia de um estado pra outro.Os adolescentes do abrigo onde fiquei(por 1 dia, apenas)tentaram ver ler meu diário, e leram.Uma menina e um menino, gay.Fui embora para outra cidade.
Depois de uma viagem de ônibus de 30 minutos, cheguei à cidadezinha de Buerarema.Era cidadezinha, mesmo.Pequena demais.E eu gostava de cidades pequenas, dá aquela sensação de “aconchego do lar”.Cheguei à noite, tentando arrumar carona para descer mais o estado.Fiquei num posto.Não tinha conseguido.Conversei com um funcionário do posto, que ficava falando do fenômeno “Chupacabras”o tempo todo.
– Ah, o cara no programa do Gugu falou que tem 2 chupacabras no cativeiro, e ele disse que iria mostrar!
Ele não deixou que eu tentasse arrumar carona lá.Dormi na rua, em Buerarema.
De manhã fui rapidamente no Juizado de Menores da cidade.Não tinha chegado ninguém.Um cara, da base de uns 40 e tantos anos, corpulento e pálido, disse que me levaria em “um lugar”.Fui com ele.No meu caminho, uma delegacia de polícia.Fiquei tenso e tentei sair fora, mas ele me pegou no braço e disse:”tem medo de polícia, porra?”
Pra falar a verdade, odeio eles.
Entramos, disse de onde vinha.Um funcionário da delegacia, mudo, surdo e desaforado, estava de implicância.Daí, fui levado ao Juizado novamente.Falei com a promotora, uma mulher de cabelos negros, curtos, mais ou menos 40 e tantos anos.Ela disse que: já que a cidade não dispunha de abrigos ou algo do tipo, preferiram me levar à cadeia!Eu relutei em ir e chorei, muito.Ela falou que não tinha outro jeito.
Naquela época eu era bem mais inocente, bem mais medroso e estúpido do que sou hoje.Não sabia dos meus direitos, por isso não lutava por eles.Era bem mais dependende do que hoje.Eu nunca tinha ido pra cadeia antes, e imaginava que eu iria passar horrores lá dentro.
Chegamos, o presídio era beeeeeem pequeno.Todo mundo da rua me olhando.Ainda não sei o porque as pessoas são curiosas, o porque que gostam de saber da vida alheia.Nunca fariam algo mais do que comentar o fato e sobre a pessoa, e nada mais.Elas são previsíveis, limitadas.
Não fui algemado nem nada, mas fui pra cadeia.
Sorte que só tinha eu na cela.A promotora me disse que eu ficaria lá por uns dias até resolver o que fazer comigo.Tinha chorado demais.Me trancaram.Era uma cela pequenininha,pintada de azul, cama de concreto, vaso idem e o chuveiro só era um canozinho de PVC curvado para baixo.Os outros presos me pareciam legais.Independente deles estarem na prisão, tinham um comportamento de gente normal, pelo menos os presos de Buerarema.Eram apenas 4 celas, em cada lado do único pátio que tinha lá.Acima do pátio, o céu.Eu não enlouqueci nem me tornei mais violento, fiquei na minha, como se ficasse de castigo.E compus uma música em homenagem a um personagem de desenho.E eu fazia barulhos esquisitos, não sei porque fazia.Dormi muito.Nas outras celas, tinha um estuprador gente fina(ele disse que estuprou uma surda/muda, mas ela conseguiu denunciar ele do mesmo jeito), ladrões mais jovens que eu que viviam esformeados(arrotavam e simulavam vômito na hora do almoço, só de zoação)e um assassino que me contou ter passado 5 natais lá dentro.E dá-lhe relatos de sexo(“o cara comeu o cu da mulher na cela, gozou na bunda dela”e etc.)e outras coisas que não me esqueço até hoje.
Hhahaha.Pelo menos a cadeia de Buerarema não era igual a das grandes cidades.Tive essa sorte.
Uns dias depois recebi a visita da promotora e equipe.Ela tinha me dito que eu seria transferido para um abrigo de idosos, há 300 metros dali.Melhor.

Nessa época eu nem pensei em processá-la.

Continua.

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7 comentários sobre “Buerarema: Parte 1

  1. Kasdrael (Tami) disse:

    Poxa, é meio foda comentar em algo assim, sabe. Non faço a menor idéia do q é passar por td isso e ainda continuar vivendo.Todos têm seus problemas, fato. Mas alguns são chocantes demais para serem verdade. Melhor pensar q foi mera ilusão a amargar a dor de lembranças como essas.Espero q vc non tenha guardado rancor demais depois de td isso (é difícil, eu sei), afinal… é como certas pessoas acreditam: Deus escreve certo por linhas tortas. Caso vc non acredite nEle: pra td existe um motivo.Fiquei assustada com sua história e é uma pena q tenha passado por td isso sozinho.

  2. penny disse:

    e parece que não será possível.sobre crianças que apanham dos pais. eu tenho horror a pai que bate nos filhos. educar através do medo pra mim não tem a menor validade. e sinto-me agoniada ao ouvir choro de criança apanhando. me da uma dor tão foda. vontade de espancar quem está batendo até matar.

  3. babi disse:

    nuss.. deve ter sido barra enfrenta issu tudu..enfrenta e superar, suponho..mais q bom q vc conseguiu e tah aki hj pra conta as suas histórias e tentar q os outros naum façam o msm q fizeraum com vc..bxuu..

  4. Bruna disse:

    Interessante.Odeio pessoas q batem em idefesos.Odeio homens mal comidos q só pq num tem a capacidade de conseguir mulher vai tentar estuprar uma! Aff o cumulo isso!X****

  5. Fernanda disse:

    Aqui no Brasil prisão não é lugar onde a pessoa é enviada como castigo, e sim para ser castigada e maltratada,vc teve sorte mesmo de não ter sofrido com a crise crônica do sistema penitenciário…rs

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