Mais colégio interno:

Depois de eu sair do CRIAM eu queria tentar levar uma vida boa com meu pai e a família dele.Era eu, ele, a minha madrasta, minha irmã Dayane e meu irmão de criação, Bruno.Desde pequeno nunca gostei dessa de soltar pipa, jogar bolinha de gude, essas coisas.Eu nunca tive uma empatia sobre estas brincadeiras de criança, sempre fui quieto, era meio “criativo”nas minhas brincadeiras.De vez em quando eu me reunia perto do rio-vala que tinha na Cidade de Deus.Era tão imbecil que comia os arrozes e os alimentos que o pessoal não usava, brincava de cozinhá-los, junto com meus colegas.Não tinha preocupação com o tráfico, afinal, eu era uma criança.Mas comparando com aquele tempo, o de hoje está bem pior.De vez em quando gosto de ficar falando coisas óbvias, vamos parar com isso.

Eu gostava muito do CRIAM, de Cabo Frio, de toda a Região dos Lagos.E foi um pouco duro pra mim sair daquele lugar.Me divertia naquele abrigo.Cabo Frio era o lugar que eu tinha chegado mais longe, o 1ºlonge do Rio.Até hoje me lembro de uma música que me lembra a Região dos Lagos, algumas do Jon Secada(cantor sumidão)e tudo mais.

Não demorou para que eu tivesse o desejo de sair fora de casa novamente.Nunca fui muito tolerante a apanhar dentro de casa, ficar quieto enquanto injustiças eram cometidas.Meu pai enchia a cara, descontava todas as suas raivas e frustrações em cima de mim e dos outros dois.E ele ficando puto me dava muito medo.Quebrava as coisas que tinha pela frente, ainda me lembro da mão pesada dele.Ele nem era tão musculoso assim, mas era.
Um dia eu tinha fugido pra casa do meu tio, na Rocinha.Irmão dele.Ele tinha me encontrado num ponto final de ônibus de um bairro da Zona Sul(ele era cobrador)daí, me levou pra casa dele.Um dia depois, meu pai apareceu lá, com a roupa de empregado do condomínio Terrazas(o qual ele trabalhava).Ele me falou porque fez isso e tal, eu não respondi, já tinha percebido no rosto dele que ele iria me dar porrada ali mesmo.Sorte minha que o meu tio chegou.Voltei pra casa.De noite, ele me acordou e me deu uma surra, o filho da mãe.

Daí, mais um dia eu fugi de casa.Ao invés de ir pra casa da minha mãe na Rocinha, eu saí pra me aventurar no mundo, novamente.Consegui pegar uma carona até Niterói, onde eu fiquei uns dias na rua.Daí, o juizado me pegou e me encaminhou a uma instituição chamada FEEM(que me esqueci o que significa a sigla), que fica no bairro de Barreto.

A FEEM era bem diferente do CRIAM.Eles eram mais rígidos, não deixavam ninguém sair, raramente faziam passeios com a garotada, e os meninos eram bem mais brigões.Eu queria fugir de lá, mas não conseguia.Os muros eram altos demais.Os moleques adoravam fazer brincadeiras de mal gosto, como, colocar palitos de fósforo entre os dedos dos pés dos outros e depois acender, jogar água nos outros(algumas vezes, urina) e mexer no armário dos mesmos.O banheiro era uma zona.Uma das únicas vezes em que saí do alojamento foi para o hospital e numa festa que teve, em que apareceu uma Xuxa cover(esta era vesga)e suas Paquitas.Sempre pensei em fugir daquele lugar.Daí, tive que colaborar e falar onde morava.Meu pai apareceu novamente pra me pegar(dessa vez minha mãe não tinha ligado).Fiquei uns 6 meses nesse abrigo.Nunca consegui fugir dele.Nesta FEEM eu tinha brigado com alguns moleques, de vez em quando levavava a pior:

Nem depois desse tempo eu desisti de fugir de casa.Novamente eu me embrenhei na Região dos Lagos, várias vezes retornando a Cabo Frio a fim de voltar para o abrigo.Eu ficava um pouco lá e me mandavam de volta novamente.Daí, eu passei a ficar nos abrigos do Rio.Fora isso eu tinha ido para Petrópolis.Fiquei na rodoviária esperando arrumar uma grana e ir para outro lugar, mas não consegui.Neste dia eu tentei furtar uma manga de uma quitanda do Centro daquela cidade, mas eu fui pego.Porém, não aconteceu nada comigo.Voltei para a rodoviária e um moço com aparência oriental me ajudou.Ele era dono de um bar de lá.Ele me deu o que comer e beber, e me encaminhou para um abrigo que tinha lá em Petrópolis.

Nem consegui ficar muito tempo nesse abrigo devido as impicâncias de outros usuários.Eu chorava muito, fui embora na chuva e ainda me lembro dos outros gritando para eu retornar.O ambiente daquele local era bem escuro, como se fosse uma casa abandonada.Fiquei um bom tempo dos fim dos anos 80 andando de cidade em cidade, depois retornando pro Rio, etc e tal…Um dia eu voltei pra casa do meu pai, mas eu quis voltar pra minha mãe, estava difícil viver com ele.Claro que em nenhuma família a coisa é tão fácil assim, só se for superficialmente.

Ele me levou até a Rocinha, até a casa da minha mãe, no Morro da Roupa Suja, um dos locais da favela.Não tinha ninguém lá e a porta estava aberta.Ouvi ruídos de ratos.Na última vez que eu tinha ficado lá até este dia tinha ratos andando pelos cantos.Eles não emitiam um ruído estranho de mulher gemendo baixinho, como eu ouvi um dia.Eram só ruídos das patas deles, passando.

Mostrei a ele onde ficava a casa do Silvano, namorado da minha mãe, ele também não estava lá.Meu pai voltou comigo pra casa dele.Ele foi muito paciente, até.

Um outro dia eu tinha saído de casa e ido até um Juizado de Menores, porque fui encaminhado.Eles me levaram até o CRIAM de Santa Cruz, um bairro do Rio.Eles me disseram que iriam me deixar lá, mas não deixaram.Falaram que eu teria que pegar minhas coisas na casa do meu pai, na Cidade de Deus.Eu achei desnecessário.Fomos de Kombi até lá.Na entrada da favela, todo mundo ficou me olhando.Daí, só a minha madrasta estava lá.Eu nem queria entrar em casa, mas me disseram pra entrar.Em 2 minutos, a porta se fechou e os caras foram embora.Ou seja: ficaram pensando que era bem melhor que eu estivesse com meus familiares, mesmo.Fiquei tenso pra caramba, pq pensei que eles tinham me enganado, mas eles agiram desse jeito pensando no meu bem estar.Quando que eles fariam diferente?Quando que eles só iriam lá apenas pra pegar minhas coisas?Hhahahahahha!

De noite, meu pai chegou do trabalho.Fiquei temeroso, pensando que ele iria me meter a porrada, mas não fez isso, apenas conversou comigo.Daí eu fiquei lá, até fugir de casa novamente.

E estas fugas foram frequentes em demasia, no fim dos anos 80/início dos 90.

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2 comentários sobre “Mais colégio interno:

  1. Fernanda disse:

    Não existe na vida de qualquer pessoa, nada mais importante do que um bom relacionamento familiar, além de carinho,atenção e respeito para a formação de caráter.Ainda bem que existe exceções, que apesar de não ter tido todo esse cuidado familiar se torna uma pessoa boa…

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