Tuntun

Em 1993, eu havia participado da festa de Natal do abrigo, e tinha me dado bem na escola, apesar de não ter conseguido namorar a Fernanda e ter feito poucos amigos, nesse quase um ano que eu estudei lá.Minha ira estava quase “no ponto” (tanto que, uma vez eu fiquei puto e rasguei minha camisa de escola.E fui pro abrigo de metrô escondendo meu peitoral com a pasta), e eu comecei a desperdiçar oportunidades que poderiam ser essenciais pra mim (como o fato de eu fazer fonoaudiologia e deixar de lado, em apenas 2 semanas, sem motivos).

Daí, na festa de Natal do abrigo eu tinha ganho uma agenda eletrônica, rosa (putz) e todo mundo ficou de olho.Isso se deveu ao fato de eu ter sido considerado “o mais inteligente da casa”, por vários meses.Desenhava muito (começei a fazer minhas histórias em quadrinhos).Quanto as coisas do coração, nunca conseguia ninguém, nem nas brincadeiras de salada mista ou algo parecido.Inventava piadas sem graça sobre o Arnold Schwarzenegger (que coisa…), improvisava numa porrada de coisas.

Na festa, oŢviamente que tava todo mundo arrumadinho, reunido, aquela gentileza totalmente falsa, abraços, beijocas, etc.Sempre fiquei na minha.Daí, próximo ao portão do abrigo, quem chega…minha mãe biológica.

Carmen Lúcia, na época tinha uns 30 e tantos anos.Já falei muito dela, aqui.Morava na favela da Rocinha, dava a buceta para um monte de traficantes, não estudava, não trabalhava, nem sabia escrever direito (trocava os “erres” pelos “eles” na hora de escrever).Mas eu gostava dela.Não vou dizer que eu a amava porque na época eu nem sabia o que era isso.
“ah, mas você gostava muito dela” – alguém poderia me dizer.Mais ou menos.

Daí, ela chorou muito quando me viu.Me abraçou, eu não chorei junto.Daí, ela me falou que estava com saudades, blá, blá, blá.Conversou com a assistente social (Teca), e à noite, eu já estava preparado para ir para a casa dela.Fazia um tempo.Tomamos o 409 (Saens Peña – Jardim Botânico) , depois ela pegou mais um ônibus para a Rocinha.Morro da Roupa Suja, claro.Não tinha mudado quase nada, há meses que eu não tinha passado por lá.Naquela época, o gênero musical que fazia sucesso era o pagode, com grupos como Raça Negra, etc.Esse era o que mais fazia sucesso.

Quando eu tinha pensado que ela mudou seu jeito, era a mesma coisa.Não estudava, não trabalhava nem nada.Bebia sua cachaça e cheirava seu pó.E também tinha a filha dela com o Silvano (que foi embora), Samanta.Era parecida demais com ela.Mas ela pensava que a Samanta parecia comigo, mas eu não me achava parecido com nenhuma das duas.Eu era parecido com o meu pai, mas ele era MUITO mais claro do que eu, e tinha cabelos encaracolados.Samanta era quieta demais, mas aprontava.Carmen Lúcia ficava muito tempo fora de casa, fazendo não sei o quê, Samanta ou ficava com as colegas dela, ou em casa.Num dia, eu estava puto demais com essa menina, fazendo manha o tempo todo.Ainda tinha aquele esquema de defecar no balde, desde o fim dos anos 80 tinha isso, minha mãe não tinha mudado em porra nenhuma, ela estacionou.Coloquei Samanta para cagar e alguns segundos depois ela tinha caído no porão, uns 3 metros abaixo.

Obviamente, chorou muito.Galo na cabeça.Eu socorri a menina, a limpei e rezei pra que a minha mãe não descobrisse o que aconteceu e me desse porrada.Quando ela chegou, percebeu logo o galo na cabeça da Samanta.Falei que ela simplesmente caiu no porão quando ela foi cagar.Sermões (merecidos, claro).Pensei que ela iria me dar uma surra, mas não naquele dia.Aliás, ela nunca mais me deu uma surra, desde idos de 1990/91.

A minha mãe sempre grita pra caramba quando reclama com alguém, mas depois fala mais calmo.De vez em quando eu “amoleço” assim, também.

Eu não gostava da Samanta e não gostava do modo de vida da minha mãe.Ela não fazia nada pra melhorar a própria situação.Sempre um biscate aqui e ali.Vendia ferro de passar pra pagar sua cachaça e trazer mais comida pra casa.Ela sempre incluía umas garrafas de Caninha da Roça nas compras.A geladeira, velha, nunca funcionava.Os alimentos estragavam e os pães ficavam duros.Um dia, eu só comi pão duro.Era difícil partir pra passar manteiga.A vizinhança era a mesma.Nunca me ajudaram.Meu avô ainda estava morando lá perto, com sua casa cheia de teias de aranha, rádio sempre ligada na AM e cheiro onipresente de fumo de rolo.
Eu nunca tive tendência nenhuma para ir pro mundo das drogas e tráfico.Nunca me aliciaram pra trabalhar nisso.A Rocinha crescia cada vez mais, tava enchendo de nordestinos.Acho que a pessoa deveria pensar e se organizar, antes de vir pra cidade grande arrumar trabalho e morar em favela (nada contra, só acho que quem é mais inteligente, se dá mais bem.Eu era e não usei a minha inteligência em benefício próprio).

No aniversário da minha mãe, dia 30 de dezembro, eu tinha ficado inexplicavelmente emburrado.Eu não cumprimentei os amigos dela, fiz o maior papelão.Daí, quando estávamos andando num beco, ela me parou e me desceu a porrada.Não foi exatamente uma surra, vários tapas na minha cara.Obviamente que se magoou comigo, pq eu não me comportei direito perante aos amigos dela, falou que era o aniversário dela, então eu deveria colaborar.

Sim, ela tinha razão, mas não era necessário me bater, era só pedir.

Depois disso, ela não deixou de me bater na frente dos outros e de levar homens pra casa.Me mandava ficar do lado de fora enquanto ela transava com o cara.Numa vez que ela fez isso, desleixou-se até na hora da comida.A coxa de frango estava assada por fora, mas por dentro estava cheia de sangue.

Fiquei lá fora e tentei ver na fresta debaixo da porta.Ela me viu.


Desgraçada.

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