Em 1995, o abrigo que eu estava tinha que ser mudado para outro local.Quer dizer, as pessoas, todo mundo.Daí, fomos para o bairro de Vila Isabel, e ficamos em um abrigo situado numa colina.Em cima, dava pra ver o Morro dos Macacos, e do outro lado dava para ver a Mangueira, famosa favela carioca.Pelo que eu me lembro a supervisora do abrigo, na época (Tereza, chamada de Teca) ficou meio triste porque tinha que deixar de trabalhar com crianças.Eu tinha uns 12 anos, acho.E lá ainda estavam os irmãos Gomes (Fábio, Leandro e Tiago, + a Daniele, que era a irmã mais nova deles), mesmo recebendo visitas dos pais.Antes do ano novo de 94/95, me lembro que nas compras que a educadora Cláudia e os meninos fizeram na Saara (centro comercial do Centro do Rio, bastante famoso e cheio de gente), fui abordado por algumas mulheres.Elas conheciam meu pai.Daí, iriam falar com ele, pegaram o endereço do abrigo que eu estou, e tal…faz muito tempo que eu não via meu pai, então fiquei meio ansioso…

Minha rotina não tinha mudado quando mudei pra “Casa da Colina”.Lá tinha Kombi que levava a gente para o colégio e tudo mais.As implicâncias nunca acabavam, não adiantava.Os educadores procuravam o erro em mim ou falavam assim:”não dá trela pra ele, oras”.De vez em quando, isso saía em briga.

Depois de um tempo, um homem que eu já tinha visto, moreno-claro, bigode, corpanzil e cabelos negros ondulados tinha aparecido lá pra me procurar: era meu pai.Alcides Bezerra.Eu tava perto de onde ele chegou e pediu informação.Nos encontramos 2 segundos depois disso.Daí, falei sobre o que eu fiz desde a última vez que nos vimos, falamos sobre a minha mãe e tudo mais.Me arrumei pra ir na casa dele, na Cidade de Deus.Daí , fomos.

Pegamos o trem para ir até Madureira, e de lá pegamos outro ônibus (era desnecessário, porque tinha um ônibus direto, mas meu pai não sabia).Chegando lá, soube que ele não mora mais na “Triagem”, que era o horrível lugar onde estivemos.Odiava MUITO a Triagem.Perto do valão que passa pela favela, local sem graça, cheiro de porco e lixo.Horrível, mesmo.Lá eu apanhei muito do meu pai, tenho más lembranças.Ele morava em um conjunto habitacional chamado de “Rocinha 2” (ou “Karatê”), bem mais limpo e mais aberto.Não era um labirinto, como lá na Triagem.

A casa do meu pai era bem melhor que a de antes, mas tinha um portão de madeira meio tosco.Fomos recepcionados pela minha “madrasta”, que parece que tinha acordado.Eu esperava que ela estivesse menos malvada que antes.Daí, meu pai lembrou que não almoçou e falou pra mim que “almoçou suor e muita dificuldade”, ou algo do tipo, porque se esforçou pra chegar na Casa da Colina me ver.Vi minha irmã do meio, Daiane, meu irmão adotivo, Bruno (era filho da minha madrasta) e minha irmãzinha, Bianca, que pelo que me lembro, nasceu em 93…acho.

Daí, é aquela coisa que sempre acontece na minha família: de início, quando eu volto pra eles, tudo é legal e sem violência.Passa algumas semanas, a paciência termina, briga-se mais, discute-se mais e eu entrava na porrada.Isso era com a minha avó em Araruama, com a minha mãe na Rocinha e com meu pai na Cidade de Deus.Passou um mês e já começamos a discutir.Meu pai bebia pra caralho, e nós é que tínhamos de aturar a mudança de comportamento dele.Num dia, quando não soube mexer na tv, ele foi consertar, em meio a xingamentos dele (e que todos nós ficávamos com medo dele surtar e descer o braço na gente).Em outro, quando perdi a paciência com a Bianca e bati (de leve) nela, meu pai me bateu e eu fiz um escândalo totalmente vergonhoso.Fiquei jurando que eu nunca mais iria bater nela, chorei muito, etc…eu nem deveria estar naquela situação de medo extremo, porque já apanhei muito do meu pai, então eu deveria estar acostumado.Eu fiquei com muito medo naquele dia.Foi uma das coisas mais PATÉTICAS que eu já fiz na vida, ter aquela expressão, voz e sentimento de medo.Medo de levar uma surra.Eu lembro disso com tanto desprezo que se eu fosse outra pessoa, me mataria, sério, mesmo.

” não precisa jurar que não vai mais bater nela, não” – disse o meu pai.

Eu saía com ele e com meu irmão pescar na Lagoa de Marapendi, no bairro da Barra da Tijuca.Um dia, deixei um peixe nadando preso num barbante, ele morreu.Em outro dia que fomos, peguei uns órgãos do peixe e deixei em um copo descartável, nem me lembro o que eu iria fazer com ele.Mas me lembro que, quando eu morava na República das Crianças, fazia “experiências” com diversas coisas.Depois de uns minutos, os órgãos do peixe apodreceram, óbvio, e meu pai me mandou jogar fora.A vida lá na casa dele era diferente, pra mim.Não me sentia acostumado a morar lá, todo dia de manhã varríamos o quintal (uma coisa que eu detestava fazer), meu pai saía pra trabalhar no condomínio Terrazas (na Barra), um lugar que eu achava extremamente sem graça e que em 1991, eu tinha uma bicicleta, onde andava sempre pelos blocos.Eu estudava no condomínio Barra Mares, na escola municipal Golda Meir.Isso foi na época em que moramos na Triagem, a parte mais suja da Cidade de Deus.
Passei a ir um pouco no trabalho do meu pai, e sempre achava aquele local sem graça.Claro que a bicicleta não estava mais lá.

Num dia, meu pai me levou no Barramares, ele iria comprar o almoço.O cara tava bêbado e quando andávamos de bicicleta, ele caía direto.Quase fomos atropelados por um carro.Eu odiava aquela situação toda, fazendo a gente passar vergonha, xingando pra caralho, etc.Num dia, eu quase chorei quando fui falar com ele sobre os problemas com a bebida.E o meu choro era desnecessário.Nem com isso, ele deixou a bebida.Eu era frouxo demais naqueles tempos, também.

A relação entre mim e a minha nova-velha família estava se desgastando.Eu já estava pensando em fugir de casa.Arrumei um estudo em um CIEP próximo a favela.No primeiro dia, eu já cheguei zoando tudo (embora eu não seja desse jeito) e comecei a ser implicado por outros alunos.Daí num dia aconteceu uma chuvarada na favela que resultou numa enchente em quase toda a área.Veio muita água pra varanda de casa e minha madrasta vivia reclamando que eu era inútil, que não fazia nada pra ajudar, e quando eu ajudava, ela ainda ficava falando que eu era lerdo.Além de mim, dos meus irmãos, pai e madrasta estiveram lá, estava umas conhecidas do meu pai, que eu tinha péssimas lembranças : eram preguiçosas e gostavam de gastar o shampoo dos outros, hehehe.Não ajudaram em nada.

Dia seguinte, meu pai tinha saído cedo de casa.Foi ajudar alguns moradores a retirar uns corpos de outros no rio, que transbordou.Lembro-me que fui até o local e lá estava ele, pegando os corpos e colocando no chão seco.4 homens e uma mulher.Eu nunca tinha visto mortos assim, tão na cara.Ele ainda teria ficado quase a tarde inteira, lá.Depois, fomos convocados para tomar vacina, no posto de saúde improvisado numa escolinha, onde a Bianca estudava.Quando foi a minha vez, meu pai se prontificou de abaixar as minhas calças e o médico aplicou.Foi uma vergonha, até porque tinham meninas observando.Claro que ele também tomou, mas alguns dias depois, se queixou de dores nas juntas.
Ele começou a faltar o trabalho e ir ao hospital, porque as dores ficaram muito fortes.Eu ia para a escola e pensava sobre o assunto.Daí, ele não voltava pra casa, ficava no hospital.Quando a minha madastra disse que ele morreu, quase tive um treco, mas era brincadeira.

Alguns dias depois, a brincadeira virou coisa séria: Alcides Bezerra tinha morrido de Leptospirose (também conhecida como “Doença do Rato”).Chorei pra caralho, claro.Meu irmão adotivo, Bruno, também (embora ele tenha se achado afastado demais do meu pai, que começou a ser chamado de “Alcides” escondido dele, ao invés de “pai”).

“Teu pai morreu.”

Depois disso, eu nem sabia o que fazer, além do fato de eu querer ir embora da Cidade de Deus.Minha tia Eliane (irmã do meu pai), foi lá, minha tia Emília, tio José Carlos e Manuel, todos irmãos do meu pai.Após as conversas habituais, nunca mais vi Eliane…e nem me lembrava onde ela morava (sei que era no município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense).

Daí, eu decidi pra minha madrasta que eu iria embora e voltaria para a Casa da Colina, em Vila Isabel.
É, eu estava acostumado àquela vida de abrigos, mesmo.O fato da morte do meu pai só reforçou a idéia de que eu queria ir embora.

Ele morreu em fevereiro de 1996.

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