Casa da minha avó

A casa da minha avó ficava em um pequeno sítio, na divisa de Araruama com Saquarema chamada Engenho Grande.Até hoje, guardo (em sua maioria) boas lembranças do local.Lá que eu passava as férias, o Natal e Ano Novo, quando meu pai estava vivo (na verdade, sempre quis que eu ele ficasse lá na Cidade de Deus, mesmo, ao invés de encher o saco lá na minha vó também, heheheh).

Daí, a minha tia Emília foi comigo e depois retornou ao Rio.Fazia um tempo que eu não ficava com a minha avó, achava que lá era melhor que o abrigo, melhor que qualquer lugar do Rio.Lá tinha a serenidade que aquela capital não tinha, iria arrumar menos brigas, e menos estresse.

O “companheiro” dela chamado Zé ainda estava frequentando a casa, ajudando ela na capina e entre outras coisas.A casa era pequena, tinha 2 quartos, 1 banheiro, cozinha, sala de estar e varanda.Eu assistia muita tv (aliás, não tinha muita coisa pra fazer lá), e ficava rondando no mato, corria do cachorro da vizinha e…assistia tv.
Eu já começava a discutir com a minha avó.Ela fazia pouco caso de mim, eu, idem e ameaçava me bater com o cabo de vassoura quando eu não chamava ela de “senhora” e sim de “você”.Naquele ano tinha eleições e quando o deputado Miro Teixeira falava na tv, eu mandava ele calar a boca.Minha avó (no quarto) pensava que eu estava falando dela e me xingava, mesmo ela não falando nada.

Meus primos Luis Carlos e Carlinhos moravam lá no Engenho Grande, também, mas do outro lado, perto da Lagoa de Araruama.A mãe deles era mulher do meu tio José Carlos, irmão do meu pai.Na primeira vez que eu fui na casa deles, fiquei meio tímido, filei um bom almoço (peixe frito, salada de alface e arroz e feijão, pelo que me lembro).Ela era evangélica (da “Deus é Amor”) e um dia fui lhe falar sobre o que aconteceria com a alma do meu pai, já que ele morreu.

– Ele gostava de pagode, bebia…então, provavelmente o seu pai foi pro Inferno – disse ela, num tom triste.

Daí, de vez em quando eu ia na casa dela jogar no videogame do meu primo Carlinhos.Sonic 2.Quando eu perdia, xingava, me aborrecia muito.A minha tia reclamava do meu vocabulário, eu a respondia mal.E ela acabou perdendo a confiança em mim, pouco a pouco.Fiquei uns dias dormindo lá e só discutia com ela, mesmo ela estando certa.

A minha avó começou a me tratar mal.Um dia, ela me deu uma surra na frente do Zé.Relembrando hoje, as porradas que ela dava eram fraquíssimas, o mal é que eu não percebia isso, antigamente.Num dia, ela tinha feito pirão e peixe assado para o almoço.Ela me deu a cabeça do peixe para comer.Eu já odeio pirão, quanto mais cabeça de peixe, não importa se estiver assada, frita ou o caralho à quatro.Ela viu que eu não comi, e pegou os papéis do dicionário da Língua Portuguesa que eu lia e rasgou.Ela não sabia que era da minha tia e eu ri da atitude dela.Quando ela me obrigou novamente a comer, eu comi um pouco e disse “ah, é bom, hein?” com uma cara forçadamente alegre, para convencê-la a não me perturbar mais com aquilo.Daí, eu corri pra casa da minha tia e falei de outras coisas que ela fez comigo, como me xingar e me bater.Na minha família, sempre é dessa forma, eles te recepcionam bem nos primeiros dias, mas quando começa a estagnar te tratam mal.Aliás, acho que isso ocorre em qualquer família, a paciência é que varia.

Um dia, eu fui embora, até avisei para a minha avó.Andei a pé até um pouco mais do Centro de Araruama.Depois de chegar na localidade da Praia do Barbudo, e desandei a chorar, me lembrando de uma música bem triste (era uma música romântica da Bela e a Fera, aquele longa da Disney).Chorei pra caramba, andando pelo acostamento da estrada.Chorei de arrependimento e de tristeza.Raramente acontece isso, até hoje.Voltei pra casa.

Na outra vez que eu fui, eu andei a pé de Engenho Grande até o município de Iguaba Grande, que ficava há uns 15 ou 20 km da casa da minha avó.Saí de lá pela manhã, cheguei em Iguaba com os pés doendo MUITO, na base de 7 da noite.Consegui arrumar a passagem e voltar pra casa.

Da outra vez (a última), eu tinha ido de vez, fui até Cabo Frio (não fui à pé).Eu me lembro que tinha ficado no CRIAM, mas me disseram que só abrigavam menores, desde o começo da década de 90 (e isso valia para todos os CRIAMs).Fui diretamente a um abrigo que tinha antes de chegar no Centro, eu já tinha permanecido lá, antes.Depois de tanto insistir, fui acolhido ao abrigo.

As implicâncias começaram.O menino lá pensou que eu tinha chamado ele de “viado”, antes, mas não tinha chamado.O outro amiguinho dele ficou batendo na minha perna, torcendo pra que eu me emputecesse e que eu brigasse.Acabei pedindo “desculpas” por uma coisa que eu não fiz.Eu era cagão na época, quase nunca encarava os outros.A educadora que me elogiou dizendo que eu tinha “olhos grandes”, me deu uma bronca e a outra disse que “não se comovia”com a minha história.Como se eu me importasse pra isso.

Daí, eu nem queria sair de Cabo Frio, nem voltar pro Rio, nem ir pra casa da minha avó.Acabei falando que eu tinha pais adotivos em Nova Friburgo com os nomes de Hermes Barolli e Letícia Quinto.Estes são dois dubladores paulistanos, irmãos.Eu gostava de “Cavaleiros do Zodíaco” (um desenho japonês que passava na Manchete) e estes eram os nomes dos dois personagens principais.Não dei o (falso) endereço.Daí, eu fui de carro para Friburgo, nem havia pensado no que fazer quando chegássemos.Fomos eu, o motorista (claro) e um educador, que o nome era Vanderlei, eu acho.

Daí, na altura de São Pedro da Aldeia, o motorista reclama que está sentindo um “quente” na perna devido alguma coisa perto da mesma que estava queimando.Eu não entendo porra nenhuma de carro, fiquei preocupado de não poder seguir viagem.E ele ficava enfatizando essa “quentura” toda hora, como se fosse pra chamar minha atenção.O Vanderlei só ficava olhando e comentando.Resolveram de me deixar em um abrigo da antiga FEEM em Araruama, no bairro do Outeiro.Eu já tinha ficado lá, antes, me lembro de ter fugido nos primeiros dias de permanência.Daí, eles disseram que iriam voltar a Cabo Frio verificar o carro.Até perdi um jornal regional pra ler, eles me disseram que iriam me trazer, que iriam retornar no mesmo dia.

O abrigo era grande, tinha um alojamento grande, tinha uma quadra de futebol, outro alojamento onde funcionava secretaria e direção, outro pra refeitório, etc.O pessoal de lá era meio violento, tinha doente mental no meio, e gente que não tinha nada a perder.Tudo adolescente.Daí, fiquei aflito, porque eles tavam demorando muito.Acabei dormindo lá.

Dia seguinte, conversei com uma educadora sobre isso.Ela me disse que eles tinham me enganado.Viram que eu estava mentindo, me deixaram na FEEM e deram no pé.

Eu mereci isso.

A minha tia (irmã de meu pai) chamada Emília tinha conseguido entrar em contato comigo, depois da morte do meu pai.Como eu previa, a minha outra tia (irmã dela e do meu pai) chamada Eliane sumiu.Até hoje, eu não sei onde ela mora.Daí, ela resolveu que eu ficasse na casa dela, já estava na segunda metade do ano.Eu topei, e tudo mais, e ela vivia me incitando para que eu saísse daquele abrigo e que eu morasse com ela.

– …tem o Tiaguinho, o Cleilton…

Estes eram os meus primos.O Cleilton era mais velho que ele, e ainda tinha a minha outra prima chamada Daniele, a mais velha (e com uma personalidade bem parecida com a da minha tia).A minha tia era uma pessoa explosiva, que fala o que pensa e que se bobear, discute com você ganhando no grito…mas ela era inteligente (sinceramente, a maioria do pessoal da minha família não era muito bom nesse sentido).Então, eu acabei indo visitar.

Tinha ido antes, com a minha mãe.Minha tia morava na favela da Palmeirinha, em Honório Gurgel, então dominada pela organização criminosa Comando Vermelho, mas a favela era bem pacífica, se comparando com Cidade de Deus, Rocinha e outras demais.Morador de “comunidade” costuma ser passivo até o talo, o bom é que a minha tia não era assim.Tinha um espírito bem mais batalhador que a maioria do pessoal.
Antigamente ela morava com a família em um apartamento no Méier (bairro da Zona Norte do Rio), mas a situação financeira começou a decair e inevitavelmente tiveram que se mudar.Eu sempre achei a idéia de viver em apartamento meio tola, pior em condomínio.O problema do apartamento é que fica difícil de você se comunicar com outra pessoa ao lado (só se for pra discutir, hehehe).Quanto ao condomínio, a pessoa prefere viver num local que ela acha “distante do mundo ruim”, como se fosse uma fortaleza, ou algo parecido.E dá mais esta impressão nestes mega-condomínios que estão sendo criados no bairro da Barra da Tijuca (classe média-alta).O próprio bairro já não tem esquinas.Eu NUNCA conseguiria viver num local como aquele, em que todo mundo vive enclausurado…

Daí, eu revi meus primos (a última vez que tinha visto eles foi na casa da minha avó, em Araruama, 1990/91), minha madrasta Elizabeth apareceu por lá (junto com meu irmão de criação Bruno e a minhas irmãs Daiane e Bianca), e eu comecei a frequentar a casa por 2, 3 vezes.

Minha situação no CEMASI Ayrton Senna não estava boa (tinha evadido e voltado), estava brigando com alguns internos, pedido educadora de 31 anos em namoro e tomado um “não” (claaro), me apaixonado por outra mais velha (embora ela tenha tido um namorado – que era motorista – e eu não ia com a cara dele, justamente por ele ter me mandado “à merda”, um dia) e rejeitando uma menina “feia” que poderia ter sido minha namorada.
Eu tinha gostado de uma das duas irmãs que vieram do Espírito Santo, a mais nova.Ficamos naquele chove não molha por um bom tempo, ela sabia que eu gostava dela, mas ninguém tomava a porra da iniciativa.O outro moleque que implicava comigo dizia que eu era “papa-anjo”, porque ela tinha 10 anos e eu tinha 13.O caso ficou mal-resolvido quando ela foi embora.

No meio do ano, eu tive que ir morar com a minha avó em Araruama.

Era só o começo da merda.

Naquele tempo, a música que fazia mais sucesso era “Garota Nacional”, do Skank.Eu achava que indo para a casa da minha avó, a vida seria mais fácil (gostava do ambiente roçeiro de Araruama), e ainda tinha a TV Lagos (subsidiária da Rede Globo na Região dos Lagos) que eu adorava, também.

Daí, eu saí do abrigo e fui com a minha tia até Araruama, na casa da minha vó.Boa recepção e tal (bem diferente de 1990, onde minha tia estava passando mal e vomitando logo na chegada).Minha tia foi embora.

Ida ao programa da Xuxa:

Eu tinha começado a entrar em contato com alguns de meus parentes.

Depois que meu pai morreu, eu só quis ficar no abrigo até melhorar minha situação.Digo, não tinha nada planejado a não ser terminar os estudos.Mas eu só formava inimigos, lá dentro.Desde os educadores aos internos.As discussões, implicâncias e brigas estavam ficando insuportáveis, mas eu não fugia.Fins de semana eram horríveis: Eu ficava ou no quarto dormindo ou andava pela área (enorme) do abrigo, pegando mangas, ou utilizando a minha criatividade para praticar “aventuras” (andava pela colina, adentrava ao mato), para escapar do ócio.Nos domingos, era pior.E eu subia mais no telhado do que nunca, quando souberam, eu fui proibido de participar de vários passeios.

“Quem sobe em cima do telhado é bichinha”, o “tio” Genilson falou para mim.Ok.

Neste ano, o pessoal tinha recebido um convite para ir ao Programa Xuxa Park, no Jardim Botânico, no Rio.Eu gostava da Xuxa (não muito), tinha boas lembranças dela no final da década de 80 (com o Xou da Xuxa) e quando o programa dela retornou à Globo (em 94), eu esperava por um revival perfeito.E me ferrei, pois as coisas, embora ainda voltadas para o ramo infanfil, estivessem mais amadurecidas.Tá, esse não foi o termo apropriado.:P

Além do pessoal do abrigo, tinham outros menores que iam para lá fazer cursos (padaria, bijuteria, etc.), mas eles acabaram não indo.Não me lembro se quem arrumou o passeio foi a Sra. Márcia Julião, provavelmente sim.Um ônibus, o pessoal zoando (como de praxe).Dessa vez eu não tinha aprontado, mas acho que todo mundo iria do mesmo jeito.

Chegando na Rua Lineu de Paula Machado (Jardim Botânico), chegamos ao Teatro Fênix, com uma fila enorme, dando voltas.Nós éramos os únicos vindos de um abrigo, os outros eram nada mais do que adolescentes classe média-alta da Zona Sul/Norte, maioria morena clara/branca, esbanjando futilidade.Com a zoação do pessoal do abrigo , os demais adolescentes mauricinhos e patricinhas fizeram cara de nojo, repulsa.Que previsíveis.Mas a maioria dos que estavam zoando nem se importavam com o que pensariam sobre eles.Eu só observava.
Entramos no portão e ficamos na extremidade da pequena arquibancada, à esquerda.Da arquibancada dava para ver o palco, claro, que parecia bem pequeno.Um dos educadores que tinham ido conosco era um altão, branco, cara de americano (inclusive eu até tinha perguntado isso para ele, eu queria saber de muita coisa, naquele tempo).Daí, chegou a Xuxa, as Paquitas (era umas das últimas formações das paquitas, chamadas na época de “New Generation”) e algumas crianças permaneciam lá no palco, brincando e nas pequenas bancadas que tinham em frente aos brinquedos, para acomodar os que disputariam nos times formados (“acomodar” porra nenhuma, os participantes da brincadeira e os torcedores ficavam em pé a maior parte do tempo).Chamaram algumas crianças e pré-adolescentes para permanecer perto dessas bancadas, torcendo com o pessoal.Eu fui, mas já era bem alto para pensarem que eu era um pré-adolescente (e tinha uns 13 anos na época).Eu fui tocar no ombro da Xuxa, e o segurança me repreendeu, dizendo que ela sofria de pequenas dores no local.Fiquei junto do pessoal, lá embaixo.

Daí, eu estava “apaixonado” por uma das Paquitas, chamada Diane Dantas (que até hoje tem fama de que era “enjoada e chata” na época de Paquita).Sempre percebi que ela era uma das preferidas da Xuxa.Nos especiais de Natal e em algumas apresentações das Paquitas, ela sempre tomava a frente.Eu estava com um boné vermelho, pedi vários autógrafos.Quando eu pedi para a Diane autografar novamente, recebi uma bronca dela falando que não assinaria de novo.Uma das outras paquitas louras chamada Giselle (que eu sempre imaginei ser doce e delicada) me atendeu.E o que eu pensava sobre ela, tinha se confirmado, ou então ela estava fingindo.Eu também imaginava que a minha também preferia Diane fosse como a Giselle, mas as coisas não são assim, exatamente como a gente pensa.Não foi nem um caso de frustração, apenas “baqueou” os meus sentimentos…uh, que coisa mais triste.Hhehehe…

Me lembro que eu sempre tive um amor platônico por pelo menos duas das Paquitas, de 1995/ a 1996.Como disse, eu gostava da Diane.Uma que me interessava era a Vanessa, uma morena de cabelos cacheados e Andrezza (também chamada de “Chaveirinho”), moradora de Duque de Caxias, e que tinha lindos olhos claros, mas fazia uma espécie de parte cômica do grupo.Tinha a Karen, que mais ou menos eu imaginava que seria chata (uma baixinha que tinha cabelos negros longos e franja).Eu tinha pedido algo para esta última:

– Karen, me dá um beijo?
– Não.
– Mas é no rosto.

O programa estava rolando.Sempre havia um erro, então começavam a rodar a cena de novo.Quando a Xuxa falava “esse é o nosso sábado”, todo mundo comentava, porque aquele dia era quinta-feira.Foda-se.Uma das coisas mais ridículas que eu fiz naquela época foi pedir os outros para serem minhas amigas.Coisa patética, que só refletia a minha carência (era apenas o começo).Haviam algumas pré-adolescentes bem bonitas.E como a minha gagueira atrapalhava, umas nem ligavam ou pensavam merdas a meu respeito.Eu tocava na cintura das meninas (ou nos ombros) e perguntava: “oi, podemos ser amigos?” e na maioria das vezes eu era ignorado.Uma das meninas, lourinha, comentou com a outra que eu viria a ser gay.Fui em direção dela, a xinguei e a ameacei.Ela não olhou diretamente para mim, mas estava ouvindo.Não falou nada.Alguns minutos depois, uma menina tinha ouvido e começado a se entrosar comigo, chamada Mariana.Ela morava na Zona Sul e estudava em uma escola particular chamada Fundação Osório (que existe até hoje).Eu nem participei das brincadeiras (até ficaria meio complicado de participar, pois o público e os telespectadores poderiam pensar:”ele não é meio grandinho para participar?”.Só fiquei conversando com ela e brincando.Ela não riu da minha gagueira (na verdade, de 100 pessoas, somente 15 riem), e conversamos quase até o fim.Quando o programa tinha terminado, os educadores chamaram o pessoal para ir embora, e eu quis beijar a Mariana, como uma despedida (mas queria me encontrar com ela novamente).Ela ficou querendo saber o que eu queria dar a ela, e eu fiquei embromando por uns 3 minutos.Daí, eu dei o meu BONÉ autografado para ela.Patético.Ela agradeceu e nos despedimos lá fora, quando ela estava na fila dos alunos da Fundação Osório.Mas quando eu me despedi dela, ela não deu muita importância.Já pode-se imaginar que ela não sentia a mesma coisa que eu.Claro que não.
O pessoal lanchou e fomos embora.Eu, com meu amor platônico por algumas paquitas totalmente desfeito, e a sensação de que eu deveria ter mais coragem quanto à beijar alguém…mas eu só tinha 13 anos, o que pode ser bobo demais de minha parte, já que existem gente que inauguram sua vida sexual aos 11, 12…

Eu me lembrei do nome da escola da Mariana (Fundação Osório) e do nome dela, hehehe.Daí, eu fui bobo o suficiente para ir na PRAÇA GENERAL OSÓRIO, ao invés da Fundação Osório, que era o nome da instituição.É a mesma coisa de ir na Rua General Polidoro querendo ir ao Colégio Municipal General Polidoro, com este estando em outro endereço, óbvio.A Praça General Osório fica no bairro de Ipanema, na Zona Sul do Rio.Fui lá à toa.Alguns dias depois, soube que a Fundação Osório fica no bairro de Rio Comprido, Zona Norte do Rio (próximo a Tijuca, Estácio e Praça da Bandeira).
Fui lá e acabei me ferrando, porque a única coisa que eu tinha da Mariana para achá-la era…o seu primeiro nome.

Mariana.


Nem sei porque coloquei essa imagem.

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Depois de desistir de estudar na Humberto de Souza Mello, eu cheguei a estudar em uma outra escola pública chamada João Goulart, no Andaraí (um bairro próximo a Vila Isabel), que não era melhor nem pior que a escola anterior…pelo menos, lá não teria menina que reparava em mim e no que eu “uso nos olhos”, hehehe.Enfim, foi bom, a minha personalidade meio que ajudou, porque eu não sou extrovertido, só quando eu chego na Fundação Leão XIII e faço palhaçadas, reclamo dos filmes que o pessoal vê, etc.Mas isso são outros quinhentos.

Eu sempre ia para a escola junto com dois amigos meus, eles também moravam no Cemasi e um deles tinha uma relação bem mais ou menos comigo, o que tinha estreado na escola, junto comigo, um lourinho, que me esqueci o nome.O outro era o William (que depois souberam que na verdade, ele se chama Hernam). O lourinho era um tipo meio covarde, quando iríamos brigar, uns meses atrás, ele dava uma porrada e fugia.Mas nunca brigamos pra valer, mesmo.Melhor.Nós dois não éramos de briga.Detestávamos.E eu, até hoje.Sentávamos perto um do outro na sala e os outros ficavam perguntando se eu era irmão dele, mesmo tendo a diferença de cor (eu sou mulato e ele era bem mais claro que eu).Seu maior problema era a mentira compulsiva.Mentia muito, MUITO mesmo.E era um exímio fofoqueiro.Fofocava do educador Alcebíades, que tinha trejeitos gays (e o imitava) e falava mal das outras pessoas.Eu tinha gostado de uma menina, branquinha, cabelos negros, na altura do ombro.Comecei a fazer amizades com ela.Ela não era fútil, era uma pessoa comum, aos meus olhos.Daí, começaram as mentiras deste mesmo moleque sobre ela, principalmente quando eu saí da escola.Em uma das minhas primeiras saídas, eu e o Hernam fomos abordados por 2 alunos, cara de mal-encarados, marginais.Queriam nos roubar.Eu não tinha nada, além da minha camisa do Flamengo.Ele não ficou com ela.O Hernam chorou rapidamente, covardão, também (heheheh).Depois, fomos embora.

Isso não ocorreu uma segunda vez, mas não falamos nada a ninguém, não sei por quê.Eu fiquei uns 2 meses nesta escola.No resultado da prova, quando saía a nota do meu nome dita pela professora, todo mundo dirigia seus olhares a mim.Ninguém implicava comigo, e eu tentava chegar perto da menina que eu gostava o mais rápido possível.Quando eu fui embora da escola, o lourinho ainda estava lá, e praticamente todos os dias ele voltava com uma fofoca nova para todo mundo saber.Além de sempre imitar o Alcebíades, quando eu perguntava da menina para ele, ele disse que ela estava transando com todos os meninos da sala.Eu era tão, mas tão tapado que acreditava.Quando na segunda vez, ele disse: “ela agora está andando assim, ó”, imitando um andar de pernas exageradamente abertas, deixei de acreditar.E nunca mais soube dela, depois disso.

No abrigo, tinha um professor de futebol, nós tínhamos feito um time, fomos à Olaria (bairro do Rio) jogar com o time de mesmo nome.Não preciso dizer que perdemos, até porque o Olaria, quer queira, quer não, iria bater um timeco frouxo como o nosso.Quem jogou mais foi Leandro Gomes, o irmão mais velho da família Gomes, que sempre jogou futebol melhor que a maioria.Eu nem joguei, porque não fiz exercício (andar rodeando a quadra, polichinelos, flexões), tive vergonha.Eu nunca gostei de torcer, só gostei de jogar…quase sempre era goleiro, mas não queria ficar nesse estigma.

Num dia em que eu bati num moleque menor que eu, o professor de futebol ficou puto comigo e falou para eu retornar pro alojamento.Quando eu estava indo para a cama, uma galera, que estava jogando futebol comigo, tinham se juntado para me dar uma surra (inclusive quem implicava comigo e se aproveitou do momento para descarregar tudo).Eu comecei a chorar, chorei pra caralho.Eles ficaram com pena e desistiram.

Após a morte do meu pai, eu retornei à Casa da Colina, recém chamada de Cemasi Ayrton Senna (nada a ver com o Instituto Ayrton Senna, em Sampa).

Me lembro de ter chegado lá pelo menos 4 dias após da reunião familiar, depois do falecimento.A minha mãe ficou falando que eu queria ir embora porque meu pai morreu, mas ela não sabia que eu pensei em ir embora bem antes daquilo acontecer.

Depois eu fui para o abrigo e avisei ao coordenador chamado Genílson e me aceitaram novamente.

O pessoal da antiga República das Crianças não estava mais lá.Os educadores tinham sido mudados, até os funcionários da limpeza, de antes.Mas os internos de antes ainda estavam lá, principalmente os irmãos Gomes e mais alguns moleques que insistiam em pagar mico.Ainda tinha Kombi para a escola e entraram mais moleques novos, porém, eles eram mais agressivos.Me lembro numa em que quase tomei porrada de um mais velho por um motivo estúpido, nem me lembro direito.Tinha um educador que implicava MUITO com os internos, especialmente comigo.Me colocava apelidos e nem trabalhava direito, apenas tirava os dias de trabalho para zoar.Eu odiava esse cara, mas não tive a sensatez de denunciá-lo.Se bem que entre os educadores, sempre era assim: o moleque estava implicando com os outros, chamando pra brigar, etc.Quando a vítima falava com o educador, ele não fazia nada.Dizia que a vítima estava dando trela ou que iria passar.Quando o “algoz” chamava a vítima de “viadinho” ou qualquer outro apelido, ele dizia: “mas você É viadinho?Se você não é, deixa ele fala, ué.Você não é, mesmo”…como se isso fosse ser um belo paliativo para todo mundo…idiotas.

Naquela época eu não sabia brigar direito, virava alvo de implicâncias por muitas vezes.Esse mesmo moleque que queria brigar comigo se tornou meu “colega” quando viu meus quadrinhos…mesmo assim implicava muito comigo.

Naquele tempo eu tinha saído da Vivendo e Aprendendo, após um período atribulado em 1994, que depois ficou bem mais ou menos em 1995.Queria a todo custo voltar para aquela escola.Tinha formado amizades, gostado de algumas pessoas.Acho que por causa da saída do pessoal da Antiga República das Crianças, eu não pude renovar a minha matrícula, e isso me deixou triste pra caralho.

Nos fins de semana, no abrigo, eu ficava em cima do telhado (o abrigo era amplo.Tinha mais ou menos uns 600 metros de expansão.Dava para ver o morro da Mangueira, e os bairros vizinhos, e do outro lado, o Morro dos Macacos e a continuação da colina, abaixo deste).Já fui punido por isto.No abrigo rolavam brigas, direto e muita gente ficava sem sair, por causa disso.O apelido “formigão”, que recebi em 92/93 foi ressucitado e me aborrecia muito com esse pessoal.Fora isso, eu tinha gostado de duas meninas, bem mais novas que eu.

A primeira era do Espírito Santo, tinha uns 9 anos.Eu tinha 13.Ela era lourinha, cabelos curtos estilo Chanel.Não me lembro o nome.Num dia em que estávamos fazendo um passeio de ônibus pela Floresta da Tijuca, eu tinha começado a gostar dela.Um menino mais novo que eu queria “fazer a corte” (hahaha), mas deixou ela comigo.Eu era tímido demais, mas tinha de fazer alguma coisa, senão a relação (que era apenas coleguismo) não andava.E claro, as contas não param!^^Peguei na mão dela como se fosse sem querer, nem a olhava no rosto, para não parecer que fiz de propósito.A abraçei, e os outros internos ficavam olhando e falavam: “David arrumou pra hoje, hein?”.Não falava nada, apenas olhava para ela e para o vazio, e ela tinha se simpatizado comigo.Quando paramos no Aterro do Flamengo, a vi vagando, com sua saia quase saindo (e dava pra aparecer a calcinha).Fábio Gomes me alertou.Avisei a ela.

Voltando ao abrigo, a confusão.As outras meninas tinham sabido que eu estava a fim dela, e ela (talvez) idem.Fui tirar satisfações e permaneci na porta da casa 6, que era um dos 6 alojamentos que comportavam os internos.A casa 6 era exclusivamente para as meninas.Ela tava passando e me viu sentado lá.Aliás, passou muitas vezes, claro que por minha causa.Daí, começei a discutir com as meninas por causa disso, e os meninos ficavam incentivando a briga, e o que aconteceu foi que ela começou a me esquecer, ficou com a cabeça entuchada de merda dita pelas meninas…

Depois disso, eu estava andando no balanço e ela ficou dizendo que “alguém” era isso e aquilo, claro que tava falando comigo.Depois disso, ela e o maninho voltaram para o Espírito Santo.E óbvio, fiquei com saudade.

Eu começei a estudar na escola municipal Humberto de Souza Mello, também em Vila Isabel.A minha convivência com os alunos e professores era bem marromenos.Vivia numa sala em que uma menina sempre reparava em mim e perguntava “o que eu usava nos olhos”.Mentia falando que tinha ido pros Estados Unidos (pra justificar as minhas faltas), pra uma menina.Ela me fazia uma pergunta em inglês, pronto.Me desmascarou.Eu gostava de uma menina nerd, lindinha, cabelos longos castanhos e óculos.Num dos recreios, a mesma menina que reparava nos meus olhos disse que tal menina estava afim de mim.Não era a que eu gostava, mas uma mezzo gordinha, que vendo com os olhos de hoje, digo que não era nada mal se eu tentasse engatar um romance com ela.Seria bom para OS DOIS.

“Eu não quero namorar ela, não”, eu disse.

“É, é?Quem disse que você é bonito?”, a fofoqueira disse.

Nem havia falado nada sobre a beleza da menina.Até hoje me arrependo das escolhas que fiz.A minha atração do dia era ir na sala da Direção e ficar olhando o bundão da diretora adjunta, uma jovem, cabelos cacheados louros, uma gra-ci-nha.E quando eu falo “bundão”, era bundão MESMO.Me lembro disso até hoje.A minha única dor de cabeça nesse colégio era a professora de matemática que falava com os outros de modo agressivo.Eu não sabia uma conta, ela gritava.

Depois disso, eu fui para outra escola, a João Goulart, mas falarei disso depois.