Casa da minha avó

A casa da minha avó ficava em um pequeno sítio, na divisa de Araruama com Saquarema chamada Engenho Grande.Até hoje, guardo (em sua maioria) boas lembranças do local.Lá que eu passava as férias, o Natal e Ano Novo, quando meu pai estava vivo (na verdade, sempre quis que eu ele ficasse lá na Cidade de Deus, mesmo, ao invés de encher o saco lá na minha vó também, heheheh).

Daí, a minha tia Emília foi comigo e depois retornou ao Rio.Fazia um tempo que eu não ficava com a minha avó, achava que lá era melhor que o abrigo, melhor que qualquer lugar do Rio.Lá tinha a serenidade que aquela capital não tinha, iria arrumar menos brigas, e menos estresse.

O “companheiro” dela chamado Zé ainda estava frequentando a casa, ajudando ela na capina e entre outras coisas.A casa era pequena, tinha 2 quartos, 1 banheiro, cozinha, sala de estar e varanda.Eu assistia muita tv (aliás, não tinha muita coisa pra fazer lá), e ficava rondando no mato, corria do cachorro da vizinha e…assistia tv.
Eu já começava a discutir com a minha avó.Ela fazia pouco caso de mim, eu, idem e ameaçava me bater com o cabo de vassoura quando eu não chamava ela de “senhora” e sim de “você”.Naquele ano tinha eleições e quando o deputado Miro Teixeira falava na tv, eu mandava ele calar a boca.Minha avó (no quarto) pensava que eu estava falando dela e me xingava, mesmo ela não falando nada.

Meus primos Luis Carlos e Carlinhos moravam lá no Engenho Grande, também, mas do outro lado, perto da Lagoa de Araruama.A mãe deles era mulher do meu tio José Carlos, irmão do meu pai.Na primeira vez que eu fui na casa deles, fiquei meio tímido, filei um bom almoço (peixe frito, salada de alface e arroz e feijão, pelo que me lembro).Ela era evangélica (da “Deus é Amor”) e um dia fui lhe falar sobre o que aconteceria com a alma do meu pai, já que ele morreu.

– Ele gostava de pagode, bebia…então, provavelmente o seu pai foi pro Inferno – disse ela, num tom triste.

Daí, de vez em quando eu ia na casa dela jogar no videogame do meu primo Carlinhos.Sonic 2.Quando eu perdia, xingava, me aborrecia muito.A minha tia reclamava do meu vocabulário, eu a respondia mal.E ela acabou perdendo a confiança em mim, pouco a pouco.Fiquei uns dias dormindo lá e só discutia com ela, mesmo ela estando certa.

A minha avó começou a me tratar mal.Um dia, ela me deu uma surra na frente do Zé.Relembrando hoje, as porradas que ela dava eram fraquíssimas, o mal é que eu não percebia isso, antigamente.Num dia, ela tinha feito pirão e peixe assado para o almoço.Ela me deu a cabeça do peixe para comer.Eu já odeio pirão, quanto mais cabeça de peixe, não importa se estiver assada, frita ou o caralho à quatro.Ela viu que eu não comi, e pegou os papéis do dicionário da Língua Portuguesa que eu lia e rasgou.Ela não sabia que era da minha tia e eu ri da atitude dela.Quando ela me obrigou novamente a comer, eu comi um pouco e disse “ah, é bom, hein?” com uma cara forçadamente alegre, para convencê-la a não me perturbar mais com aquilo.Daí, eu corri pra casa da minha tia e falei de outras coisas que ela fez comigo, como me xingar e me bater.Na minha família, sempre é dessa forma, eles te recepcionam bem nos primeiros dias, mas quando começa a estagnar te tratam mal.Aliás, acho que isso ocorre em qualquer família, a paciência é que varia.

Um dia, eu fui embora, até avisei para a minha avó.Andei a pé até um pouco mais do Centro de Araruama.Depois de chegar na localidade da Praia do Barbudo, e desandei a chorar, me lembrando de uma música bem triste (era uma música romântica da Bela e a Fera, aquele longa da Disney).Chorei pra caramba, andando pelo acostamento da estrada.Chorei de arrependimento e de tristeza.Raramente acontece isso, até hoje.Voltei pra casa.

Na outra vez que eu fui, eu andei a pé de Engenho Grande até o município de Iguaba Grande, que ficava há uns 15 ou 20 km da casa da minha avó.Saí de lá pela manhã, cheguei em Iguaba com os pés doendo MUITO, na base de 7 da noite.Consegui arrumar a passagem e voltar pra casa.

Da outra vez (a última), eu tinha ido de vez, fui até Cabo Frio (não fui à pé).Eu me lembro que tinha ficado no CRIAM, mas me disseram que só abrigavam menores, desde o começo da década de 90 (e isso valia para todos os CRIAMs).Fui diretamente a um abrigo que tinha antes de chegar no Centro, eu já tinha permanecido lá, antes.Depois de tanto insistir, fui acolhido ao abrigo.

As implicâncias começaram.O menino lá pensou que eu tinha chamado ele de “viado”, antes, mas não tinha chamado.O outro amiguinho dele ficou batendo na minha perna, torcendo pra que eu me emputecesse e que eu brigasse.Acabei pedindo “desculpas” por uma coisa que eu não fiz.Eu era cagão na época, quase nunca encarava os outros.A educadora que me elogiou dizendo que eu tinha “olhos grandes”, me deu uma bronca e a outra disse que “não se comovia”com a minha história.Como se eu me importasse pra isso.

Daí, eu nem queria sair de Cabo Frio, nem voltar pro Rio, nem ir pra casa da minha avó.Acabei falando que eu tinha pais adotivos em Nova Friburgo com os nomes de Hermes Barolli e Letícia Quinto.Estes são dois dubladores paulistanos, irmãos.Eu gostava de “Cavaleiros do Zodíaco” (um desenho japonês que passava na Manchete) e estes eram os nomes dos dois personagens principais.Não dei o (falso) endereço.Daí, eu fui de carro para Friburgo, nem havia pensado no que fazer quando chegássemos.Fomos eu, o motorista (claro) e um educador, que o nome era Vanderlei, eu acho.

Daí, na altura de São Pedro da Aldeia, o motorista reclama que está sentindo um “quente” na perna devido alguma coisa perto da mesma que estava queimando.Eu não entendo porra nenhuma de carro, fiquei preocupado de não poder seguir viagem.E ele ficava enfatizando essa “quentura” toda hora, como se fosse pra chamar minha atenção.O Vanderlei só ficava olhando e comentando.Resolveram de me deixar em um abrigo da antiga FEEM em Araruama, no bairro do Outeiro.Eu já tinha ficado lá, antes, me lembro de ter fugido nos primeiros dias de permanência.Daí, eles disseram que iriam voltar a Cabo Frio verificar o carro.Até perdi um jornal regional pra ler, eles me disseram que iriam me trazer, que iriam retornar no mesmo dia.

O abrigo era grande, tinha um alojamento grande, tinha uma quadra de futebol, outro alojamento onde funcionava secretaria e direção, outro pra refeitório, etc.O pessoal de lá era meio violento, tinha doente mental no meio, e gente que não tinha nada a perder.Tudo adolescente.Daí, fiquei aflito, porque eles tavam demorando muito.Acabei dormindo lá.

Dia seguinte, conversei com uma educadora sobre isso.Ela me disse que eles tinham me enganado.Viram que eu estava mentindo, me deixaram na FEEM e deram no pé.

Eu mereci isso.

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