Era fim de 1996 e a situação de morar com a minha tia estava insuportável.

Não pelo fato de eu não aturar coisas que quase qualquer um pode fazer, como carregar entulho enquanto o primo mais novo, Thiago, ficava sem fazer nada e tirando onda e meu primo mais velho, Cleilton, dizendo que era “exploração” da minha tia fazer aquilo com a gente…enquanto isso, o carro de carregar entulho passava do nosso lado.

A minha tia começou a se tornar mais agressiva, mas era assim sempre em nossa família, e novamente eu digo: 1º, eles te acolhem e são todo sorrisos e te tratam bem.2º, depois, quando começam a se acostumar com sua presença, te tratam mal, gritam e o caralho à quatro.Eu não era um cagão a ponto de chorar por qualquer coisa, mas eu odiava ser tratado dessa forma.

Nos fins de semana, eu e meus primos ficávamos jogando fliperama (mas a máquina era por minuto) próximo ao CIEP.Depois da decepção do meu início de amizade com a Ticiane, eu deixei de falar com o pessoal lá de cima, pouco a pouco.

Um dia, eu disse que iria embora da casa da minha tia.Ela me disse que eu não poderia ir embora, eu disse que iria porque já estava de saco cheio.Daí, começou a gritar comigo, etc e tal, e a minha prima Daniele vendo.Não me lembro o por quê, mas eu começei a chorar.Daí, minha tia se aborreceu e: “cala a boca, senão eu piso no seu pescoço!Tá me dando nos nervos, essa porra!”.E a Daniele olhando pra minha cara e rindo.Depois, eu subi para o quarto, fiquei olhando pra minha cara de choro, pensando que aquele momento era a gota d’água.

No dia 30 de dezembro, eu tinha pego as minhas coisas e ido embora, a minha tia não estava em casa.Peguei o trem e fui para o município de Japeri.De lá, fiz uma baldeação para Paracambi.Lá, conversei com umas mulheres sobre a minha situação.Eu simplesmente menti falando que eu morava na cidade de Barra Mansa (interior do Rio, na região do Vale do Paraíba)Era noite, então eu precisava arrumar um modo de me distanciar cada vez mais do Rio de Janeiro.Elas ficavam falando que se eu mentisse, iria acontecer algo de ruim comigo, falaram que tinham “bola de cristal” e etc.Como elas não poderiam me levar para a casa delas, me deram um dinheiro para comer, e para pagar a passagem do ônibus da viação Normandy, que passaria por ali ao amanhecer.Daí, fiquei dormindo na praça.Lembro-me que o filme “O Máskara” passava na Globo, pela 1ªvez.

De manhã cedo, peguei o ônibus, e foi uma viagem “longa” até Barra Mansa.Passamos por Piraí, Barra do Piraí, Volta Redonda e chegamos na rodoviária de Barra Mansa.Eu disse ao motorista se chegamos, e ele: “Cê não tá de mentira, não, né?”.Não.^^

Eu não tinha passagem para ir adiante e eu começei a abordar as pessoas na rua, tentando contar uma história inventada para eu arrumar dinheiro.Claro, todo mundo me ignorou, ainda mais que eu sou gago.Quando eu penso que falei “Ó, vou te contar a minha história” e a mulher falou “já ouvi muita história por hoje”, eu caio na risada.Consegui arrumar uma grana com alguém e peguei um ônibus para Resende, indo para o Estado de São Paulo.De lá, foi o mesmo esquema…daí, consegui pegar um ônibus para Itatiaia.

Itatiaia é uma cidadezinha, em que a atração mais famosa é o Parque Nacional de Itatiaia, que tem o Pico das Agulhas Negras, fazendo divisa com o Estado de Minas Gerais.

Eu nunca fui de andar maltrapilho pela rua, talvez, quando criança.Mas na minha pré-adolescência e adolescência, só andava arrumado.Era com uma bolsa ou mochila, blusa de manga curta e calça jeans.Tênis ou sapato.De vez em quando, ia de boné, mas hoje em dia, não uso mais.

Em Itatiaia, eu tinha arrumado uma carona de carro, eles iam pro Estado de São Paulo, para a cidade de Aparecida (tem gente que insiste em chamar de “Aparecida do Norte”).Eu estava com fome, com sede e cansado de vagar por ali.E fui.Foi a primeira vez que eu tinha saído do Estado do Rio.

Queluz, Lorena, Guaratinguetá…chegamos em Aparecida, Vale do Paraíba do Estado de São Paulo.Dia 31 de dezembro.Eu nem pensava em Ano Novo, ou alguma coisa assim.E nem me importava com a Basílica, eu nunca fui católico, na verdade.Mas era um local bonito.Desnecessário dizer que a cidade de Aparecida só era conhecida por causa da Basílica, dããã.Fiquei andando pra lá e pra cá.Chegou a noite, todo mundo começou a se recolher pros seus lares, outros ficavam festejando em outros lugares, esperando a chegada do ano novo.E outros na igreja.Eu fiquei perto da guarita próximo à Basílica, não tinha nada que eu podia fazer.E nem estava arrumando carona para ir à São Paulo.Começei a contar a minha situação pro guarda, falei que estava na rua e ele me levou para dormir…na delegacia.

Feliz 1997.

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