Voltando à retrospectiva…

Eu tinha permanecido numa delegacia, na cidade de Aparecida, Estado de São Paulo, onde passei o ano novo, comi alguma coisa e dormi num colchão no chão duma salinha que tinha próximo as celas, que estavam aparentemente vazias (pelo menos a maioria).Eu tinha aparecido lá porque estava andando próximo à Basílica e tinha conversado com um dos guardas sobre a minha situação, daí, ele me deixou naquele lugar, para no dia seguinte, resolver minha situação.
Eu estava querendo ir à São Paulo, era minha pequena obsessão, mas não estava arrumando mais carona nem dinheiro para sair de lá.Do nada, um dos policiais, um mais velho (aparentando 60 anos, já com os cabelos grisalhos) veio em minha direção me xingando e falando besteira, nem entendi nada, ele deve ter pensado que eu era um dos presos.Depois de uns minutos, ele mudou totalmente seu tratamento, continuei sem entender nada.
O funcionário do Conselho Tutelar chamado Fernando Dias me tirou de lá e me levou ao local onde ele trabalhava, no centro de Aparecida.Por uns minutos, ele ficou se vangloriando de que eu era o “1ºcaso dele de 1997”.Não tinha só ele de conselheiro, tinham outras mulheres, que não me lembro o nome.Daí, eu almoçei no “Marmitex” (o que no Rio chamam de “Quentinha”), ficava o dia inteiro no Conselho e comecei a dormir em um albergue que tinha na praça do centro de Aparecida.Quem tomava conta e recebia o pessoal do albergue era um homem obeso e no outro dia era um mais magro e mais velho, de bigode.Nós entrávamos, tomávamos sopa, e nos deitávamos em colchões no chão.E fiquei fazendo isso por algumas semanas, que pareciam meses.
Quando eu enchi o saco e ameaçei ir embora, nem se importaram, mas não fui.Nos fins de semana, o Conselho Tutelar permanecia fechado e eu não tinha nada pra fazer, a não ser andar por aí, sem comer e começei a frequentar uma biblioteca pela manhã.Lia os quadrinhos da Turma da Mônica dos anos 70 e fora isso, ficava num ócio total.Não fiz amizade com as pessoas, por isso, nem conseguia ficar na casa de alguém no fim de semana, nem conseguia me alimentar direito.A sopa do albergue não era nada, todo mundo sabe que sopa não enche.
Os dias passaram, e a minha relação com o pessoal do albergue estava ficando ruim.Em um dia, em que estava aborrecido, peguei o travesseiro com força, o funcionário lá do albergue, se aborreceu comigo e me sacudiu.
Em outro dia, era quase 10 horas (quando o albergue fecha), eu estava quase dormindo, quando vi novos internos, que passaram a me questionar de onde eu vinha…falei que era do Rio.Um deles, jovem, me disse que o Rio é um péssimo lugar pra ficar, que eu não deveria voltar pra lá, etc.Nem tive pensamento pra ir embora do albergue naquela hora, não pensei que iria acontecer alguma merda, e também, eu estava com sono.
“10 horas, tô fechando”, o cara zelador do albergue disse.
Algumas horas depois, eu fui acordado pelo mesmo cara carioca.Me disse que eu deveria fingir que era NAMORADO dele, antes que o outro sujeito viesse matar a nós dois.Não entendi nada, o cara lá ficou me ameaçando, falando que iria me matar se eu não ficasse junto do outro.Daí, fomos ao banheiro.Enquanto o cara jovem disse que se eu não o masturbasse, o outro sujeito me mataria, e ele realmente estava espiando.Eu não tinha culpa de nada, era um chorão, acho que tinha uns 13 anos, ainda, nem poderia simplesmente fugir dali (porque tava trancado, e eu torcia pro zelador lá acordar e perceber isso) nem dar porrada nos dois caras.Daí, eu masturbei o cara, e ele tava falando na mulher dele.O outro estava me vigiando, de lá de fora.Quando o jovem saiu, o mais velho, (que supostamente me mataria) estava querendo que eu tomasse banho.
“toma banho, aí”, disse ele.Eu estava temendo que ele fizesse algo, só molhei a cabeça.Só masturbei o cara porque pensei que o mais velho iria me matar.E nem sabia o motivo que ele queria me matar.Eu nunca tive e não tenho tendências homossexuais.Ainda bem que não me pediram pra ter relações homossexuais com ninguém, pois aí, eu não faria, mesmo, e morreria.
O cara que eu fiquei masturbando ficou me chamando de “meu viado” umas 3 vezes, e eu não pude fazer porra nenhuma, estava numa situação de impotência naquele dia.E eu queria sair dali, dar porrada dos caras, e não pude.
O mais velho ficou me perguntando se eu era gay.Eu perguntei (muito relutantemente) que sim.
“tu gosta de um pau, né?”…eu fiz positivo com o polegar.Humilhante.
Depois disso, o mais novo me pediu pra que dormisse atrás de mim.Eu não quis.”mas, você está de calça”.Nem encostamos direito, felizmente.Daí, ele disse que se não dormíssemos juntos, o outro se encarregaria de mim e me mataria.Daí, dormimos.

De manhã cedo, eu acordei primeiro que ele, um dos internos viu que ele estava atrás de mim, eu levantei rapidamente, peguei minhas coisas e saí fora….nem tomei café.
Depois daquela, nunca mais entrei no albergue.

Essa foi uma das situações mais humilhantes que sofri na vida.Tive que bater punheta prum cara, sofrendo com supostas ameaças de morte sem motivo algum, e ainda deixar que um HOMEM dormisse atrás de mim…

Há alguns dias depois, eu fui com o Fernando Dias para o Rio em uma Kombi, escrito bem grande, em letras garrafais, que era um Conselho Tutelar, etc. e tal, e todo mundo ficava olhando, no congestionamento que tinha na Via Dutra.


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