Quando eu saí da cidade de Aparecida/SP para o Rio de Janeiro (minha terra natal e de onde eu acabei saindo, tentando ir para São Paulo), a rodovia Presidente Dutra estava com um pequeno congestionamento.As pessoas de outros veículos perto da gente estavam curiosas lendo os dizeres “Conselho Tutelar da infância e da juventude”e outras coisitas más escritas na kombi em que eu estava, o que me aborrecia.Tinha pensado que eu deveria ter saído daquela cidade e não deveria me prostrar ao atendimento dos conselheiros.Minha temporada naquela cidade foi de um desagrado total, a ponto de ser ameaçado de morte no albergue onde passava as noites.
Até tentei fazer amigos naquele lugar (principalmente com a filha da conselheira, que me lembro, tinha cabelos castanhos com mechas louras), mas fracassei.Ficava andando pela Basílica sem fazer porra nenhuma, também.Um dia, eu peguei um gato que estava circulando na porta do conselho e fiquei uns minutos com ele…andei, andei e parei na basílica, enquanto estava andando com ele, o nissei desgraçado olhando pra mim)…ah…até em Aparecida têm nisseis.Deixei o gato lá e fui embora.

Voltando ao meu retorno para o Rio, fui encaminhado ao Conselho Tutelar da Zona Sul, situado na Região Administrativa do bairro Laranjeiras.Enquanto o pessoal decidia para que me abrigo levar, um homem corpulento, de bigodão e aparência de excecutivo me convidou para ir ao Cemasi do Leblon, bairro da Zona Sul do Rio.Eu disse que não.Ele me disse: “não sabe o que está perdendo”.Anos depois, este mesmo homem seria meu chefe e uma espécie de segundo pai pra mim (hoje, é complicadíssimo encontrá-lo), senhor Ricardo.
As conselheiras decidiram me levar para o Cemasi de Laranjeiras, que fica embaixo de um viaduto (mas embora isso, lá dentro tem uma aparência legal, huhehehe).Concordei em ir.Chegando lá, vi o mesmo moleque que me deu uma surra em 1995, na República das Crianças.Naqueles tempos, eu nem sabia brigar direito, tinha uma atitude passiva, que hoje, lembrando, me dá profunda vergonha.Obviamente, eu não gostava dele e pedi pra ir embora no dia seguinte, mas não disse o motivo.Apenas disse que “não gostei” e pronto.

Voltei ao conselho tutelar, e numa das conversas, uma das conselheiras me irritou tanto (não me lembro o motivo) que eu acabei chutando uma das pernas dela.Fu repreendido pela diretora do Cemasi de Laranjeiras e ameaçou me processar.Pedi desculpas.

Me levaram para o Cemasi Nelson Carneiro, do bairro Ramos, que fica no subúrbio do Rio.
O lugar era pequeno, com uma pequena varanda, que servia como campo de futebol e basquete.À direita dessa varanda, tinha um espaço que servia como sala de aula, para ajudar no reforço escolar dos internos que estudavam.O telhado era bem baixo, tinham pés de carambola e manga, e dava para fugir facilmente (o lugar ficava bem próximo à Região Administrativa de Ramos, praticamente no mesmo lugar).Lembro-me que o quarto era bem pequeno, por isso, o abrigo recebia poucos menores, a planta do abrigo era bem retangular.Esta vez que tinha passado lá, como sempre consegui colegas (Marcos, chamado de Julio), mas eu sempre fiquei na minha.Apesar de conseguir colegas, nunca fui extrovertido.Lembro-me que antes de ir para aí, eu tinha comparecido do Cemasi Ayrton Senna para pegar uma vestimenta peculiar, que eu vestia em meus momentos de loucura: um uniforme de super-herói.Eu era bem mais ridículo naquela época do que hoje, gostava muito de histórias em quadrinhos, e queria muito me vestir de um super-herói.Na época que eu estava no Ayrton Senna, ficava uma boa parte do tempo na costuraria, fazendo amizade com a costureira e pedindo para ela fazer um uniforme para mim.E ela fez, feito de lençol azul (tecido fino, óbvio) e encrementando com alguns tecidos mais grossos, para fazer a estrela de 5 pontas no meio do peito e os “braçeceletes”.E ainda tinha a capa verde, mas essa acabou sumindo.

Naquela época, eu tinha uma idiotice impressionante, que claro, as pessoas pensavam que eu era maluco.”Maluco” era o apelido que eu mais adquiria na minha estada em abrigos.Pelo meu modo sombrio, pela minha vontade de me matar (às vezes, falava de brincadeira, outras, encarava meus problemas de vida tão sério que para “acabar com tudo”, queria me matar.Um dos internos mais fortes que eu disse: “quer morrer?Prepara a cara que eu vou dar uns socos nela!”, e eu fiquei com medo).Eu sempre dizia que iria me matar, mas nunca tentava, porque não tinha coragem.No Nelson Carneiro, eu vesti o uniforme, subi no telhado e ameaçei me matar.Nem preciso dizer que os internos acharam que eu era maluco, mesmo.Até hoje, não sei porque cargas d’água fazia isso.Creio que era vontade de aparecer.Em várias estadas em abrigos, me acompanharam para exame psicológico, psiquiátrico e o escambau.Nunca deu em nada.Desisti da Fonoaudiologia, do psicólogo e de muitas coisas, só fui perdendo oportunidades.E da escola, também.Não adiantava nada eu começar os estudos se sempre evadia dos abrigos e perdia o ano letivo com isso.

No Nelson Carneiro, as coisas não mudaram muito.Me matriculei na escola municipal

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