Semana retrasada consegui me instalar num abrigo em Mesquita, pequeno e novo município da Baixada Fluminense. Sempre quis morar por ali, mas não dessa forma. De semana retrasada pra cá pouco fiz em comparação aos dias em que estava morando no abrigo em São Cristóvão. Esse hiato todo foi feito pra pensar um pouco. As oportunidades de emprego fixo seriam mais complicadas, já que nem todos os empregadores cariocas iriam disponibilizar passagem para ir e voltar de Mesquita pro Rio. Agora é bola pra frente (não curto metáforas futebolísticas, tsc) e tentar reaver a vida. Até arrumei minha transferência de colégio e não sei o que farei em relação à fonoaudióloga, que ficava há uns 20 metros do abrigo em São Cristóvão. Agora fica há quase 50 kms.

O abrigo é bem menor do que eu estava (que era literalmente embaixo dum viaduto, próximo a estação de trem), como se fosse um bando de quitinetes. Tem mais homens que mulheres e as poucas que têm lá ou são velhas ou são doentes mentais. Tenho o maior respeito com idosos, mas as velhas residentes naquele local falam muito, fofocam demais e são safadas. Tratam o local com desdém, mas não saem de lá. Tá faltando porrada na cara.

Temos que dividir aquela “borboleta” (a rosca que usa pra ligar o chuveiro) porque as que tinham foram roubadas. Cada um tem sua caneca e você não pode depender deles em relação a roupas (já que vivem de doações e geralmente só vem roupas “ruins”). A prefeitura sabe das deficiências e prometeu que após as eleições iria dar um jeito.

Sinceramente não tenho a menor vontade de retomar os estudos. Tudo por conta da matemática, claro. Só faltam apenas 3 disciplinas para terminar, mas são justamente as mais difíceis. Minha madrinha é uma das que apostam no meu sucesso mas não adianta aprender algo se chega lá pra fazer a prova e me esqueço.

Terei de ver isso, pois não posso terminar o ano na mesma merda que 2007.

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Desligamento

Aconteceu uma coisa tosca hoje. Era para eu ficar tenso, mas acabei me sentindo tranquilo. Ok, nem tanto.
Eu moro num abrigo no bairro carioca de São Cristóvão, como já disse umas trocentas vezes. Quem acredita, acredita, quem não acredita, não acredita, nem perco meu tempo insistindo em convencer alguém. Acontece que hoje, às 10 da manhã tive de pegar meus panos de bunda e sair fora do estabelecimento. Motivo? Explicarei agora:

Para o sujeito permanecer na instituição ele tem de fazer algumas coisas, como arrumar trabalho, estudar ou mesmo fazer um curso. Só não pode ficar parado lá, estão mais do que certos. Porém, não adianta a pessoa insistir em fazer uma coisa sendo que você está fazendo outra semelhante e até melhor do que a proposta da outra. Na hora do café fui informado de que teria de conversar com minha assistente social (Luciene). Existem umas 5 assistentes sociais para um monte de gente. Minha relação com esta mulher estava ficando insustentável: discutíamos, ela abandonava a conversa antes mesmo de eu terminar a frase (se bem que eu já fiz isso antes) e decretava que a palavra dela era a última e ponto. Próximo a ela, um educador de prontidão, já que fui tachado de usuário-problema por algumas pessoas. A questão é que eu tenho personalidade forte, se algo tiver errado eu reclamo, se tiver alguma injustiça eu faço questão de protestar e muita gente prefere ficar na sua postura passiva, sem falar ou fazer nada. Nego não tá acostumado a pessoas que não sejam como eles.

Naquela manhã eu fui falar com ela. Estava aflito com uma maldita carta duma bela mulher que custava a chegar no abrigo, esta mesma mulher tinha me dito que mandara a mesma na semana retrasada, provavelmente foi extraviada. Falei pra assistente social que por enquanto as coisas estavam bem: eu tava fazendo fono, cursos, já estava querendo fazer um curso profissionalizante na FAETEC e mais um de artes marciais (na verdade dois, que são karatê e kung fu), eu não tava parado. Daí, ela tocou na questão da neurologia, de eu tinha ido sozinho até o posto de saúde mas a médica tinha dito que só iria me atender se eu tivesse um ofício, etc. Eu já não queria ir realmente, ela sabia disso, e falou que da próxima eu iria com um educador, devidamente vestido com a camisa laranja da prefeitura. Falei que não gostava de homens andando do meu lado, e reforçei dizendo que já estava fazendo fono e que se alguém deveria me indicar a fazer neuro seria a fonoaudióloga, não a assistente social. Disse que não tinha jeito, eu teria que ir. Reiterei dizendo que não. Daí, veio a chantagem: falou que até segunda-feira eu tinha que dizer o que eu faria da minha vida, que estava no abrigo desde janeiro e que lá não era local apenas pra comer e dormir. Porra, eu disse que estou fazendo algumas coisas, tô me movendo, não sou um vagabundo e ela me assemelhou a esse tipo de gente. Reforçei dizendo que a prefeitura só dispõe de DOIS ABRIGOS para maiores de idade. Antes, tinha uns 5. Agora só tem o que eu estava (em São Cristóvão, mais próximo do Centro, ao lado da estação de trem, dos bairros onde faço minhas coisas e das vias expressas mais usadas do Rio) e o de Realengo (Zona Oeste carioca, muito distante de onde tenho meus afazeres). Se eu fosse pra Realengo seria foda de estudar, de fazer curso e de ir à fono. Aí, a puta disse que “dois abrigos já tá é demais”. Porra, mas como “é demais” pruma cidade enorme como essa, que recebe trocentos migrantes (nordestinos em sua maioria) e tem uma expressiva população de rua? Já merecia levar uma porrada no gogó só por deixar de falar besteira e de ser egoísta. Daí, ela decretou o fim do nosso papo falando que segunda eu deveria dar meu parecer sobre arrumar um local novo pra ficar e me deixou falando sozinho, indo pra sala da diretora (que não tava lá no dia). Fui até lá e disse que o que ela estava fazendo comigo era chantagem. Ela respondeu que não era e disse que o papo tinha terminado. Educadores atentos. Aborrecido, dei um soco na porta e saí.

“Você está desligado, pode pegar suas coisas”, me disse. Tranquilo. Fui até um dos 3 dormitórios, deixei 90% das minhas coisas lá e só peguei a mochila com um livro, garrafinha d’água, currículos, meus documentos e anotações. O educador veio me dizer se já peguei tudo. “Vou deixar aí, vou tentar voltar”, respondi e saí fora.

Fui até a central de recepção (onde os moradores de rua precisam ir se quiserem arrumar abrigo) e relatei a situação. A assistente social de lá disse que eu terei de ir à Ouvidoria da prefeitura denunciar…na segunda-feira. E hoje é sábado, dia em que os órgãos estão fechados.
E hoje vai ficar foda de resolver alguma coisa, além da preocupação de arrumar um local pra dormir.

“Ah, você não tem parentes ou local pra pernoitar até segunda?”, você poderia me perguntar.
Não me dou bem com a minha mãe (estou fora de “casa” desde 2005 e provável que fique assim por mais 7 anos), minha tia mora numa favela dominada por milícias, meu pai bateu as botas em 1996 e tenho um bando de tios de paradeiro desconhecido. Meu melhor amigo ainda vive com os pais, mesmo eu frequentando sua casa desde 99 seus pais são altamente conservadores, não posso aparecer lá a qualquer hora e dormir mesmo se ele quiser. Não fosse pelos pais a gente já moraria junto há anos (lá ele). Há anos atrás quando tava na rua ligava pro meu amigo e relatava a situação até que cogitei ficar lá por uns tempos. O pai dele ouviu e disse logo NÃO! O que eu posso é passar essa noite e a outra próximo a uma barraquinha de cachorro quente dum colega meu em Benfica, tem televisão e etc. Mas o mal é onde tomar banho. E aqui já está calor pra cacete.

Uma das coisas que a assistente social fez questão de ignorar ao me mandar embora foram as advertências: Você pode assinar um total de 3 advertências, claro, se você fizer merda. Após estas três aí sim você poderia ser desligado. Eu tava lá desde janeiro e não tinha assinado nenhuma. Creio que um simples soco na porta não daria direito a assistente social me tirar de lá, e terei de reiterar isto para o pessoal da Ouvidoria segunda-feira.

Provavelmente eu irei voltar a morar no abrigo. Pior que a diretora não está sabendo disto, também. Possível que ela não iria concordar em me dar apenas uma advertência, e eu assinaria numa boa.

Mas, o que estaria me impedindo de arrumar minhas coisas e ir embora do Abrigo Cemasi Plínio Marcos numa boa? Estudos. Eu faço um supletivo, faltando apenas 3 matérias para terminar. Como são as mais difíceis levei bomba rapidamente, mas é só terminá-las que será mais um objetivo a ser conquistado. E creio que termine só em dezembro. Sair do abrigo na situação que estou AGORA só complicaria as coisas. Ou seja, mais um motivo pra ficar lá.

Segunda-feira eu resolvo este imbróglio, o fim de semana me deixa totalmente impotente pra tomar alguma atitude.