[A Guimba – Uma Estratégia de Saída]

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Will Self é um dos escritores britânicos mais controversos da atualidade. O cara é criativo, tem umas histórias originais (difícil ter algo parecido e ao mesmo tempo bem escrito, deixando apenas de ser uma punheta qualquer feita pelo autor) e escreve bem. Atualmente colabora para alguns jornais da Inglaterra, é pai de família, e, apesar disso sua escrita é criticada pelo extremo bizarrismo que coloca em seus livros. Para mim isso não tem problema algum, acabei de dizer que o maluco escreve bem e até sabe desenvolver seus trabalhos, o problema é que algumas pessoas não ligam a partir do teor de suas histórias. Como em “Cock & Bull”, por exemplo, em que tem duas pessoas com “enfermidades” toscas: um homem tem nada mais que uma vagina na batata da perna e a mulher tem um pênis exatamente naquele lugar indicado. E agem como se nada tivesse acontecido (pelo menos foi o que eu li por aí, ainda estou folheando este livro!)… é claro que nem mesmo o sujeito mais pudico podia passar incólume com uma premissa delas, dedos apontados, exclamações e tudo mais, isto realmente acontece… mas, e daí se o sujeito consegue contar uma boa história? É isto que o Will Self consegue fazer.

“A Guimba (The Butt), publicado pela Alfaguara (selo da editora Objetiva) é uma sátira detalhada das regras draconianas anti-fumo que se alastram pelo mundo todo, prejudicando o lazer dos fumantes. Tá certo, fumante fede e tem mais é que se foder com maestria, e Self brincou com esta condição ao escrever este livro singular. Inspirado em uma viagem de Self à Austrália, onde ele se impressionou com as normas impostas pelo governo em relação ao cigarro, o romance conta o sofrimento de Tom Brodzinski, pai de família que viaja para um país tropical e de forte cultura tribal (uma Austrália mesclada com Iraque, pois as semelhanças são cristalinas), país este que impõe restrições severas a fumantes, embora não em toda a sua extensão territorial. Brodzinski, fumante inveterado e que está ciente destas regras, acaba se prejudicando pateticamente ao, na sacada de seu hotel, deixar cair as cinzas de seu cigarro na cabeça de um outro caucasiano (que no livro são chamados de “anglos”), um gordo velho que espairecia deitado e sendo acariciado por sua esposa. O “algoz”, a partir disso, é denunciado, tratado como um criminoso perigoso e julgado, especificamente porque sua infração fora feita por um nativo. Sim, um nativo. Apesar da sua brancura o velho anglo casou-se com uma nativa, uma mulata de seios dançantes chamada Atalaya Intwennyfortee, e Brodzinski consegue perceber o tamanho da merda em que se meteu. Logo, um advogado louco aparece para defendê-lo e, para amenizar a punição, ele precisa rodar aquele país árido e perigoso afim de pagar uma indenização à tribo de Atalaya e seu marido, pegando a estrada ao lado de um anglo metido a engraçadinho que Brodzinski pensa ser pedófilo. Daí, muita areia, guimbas, moscas, penteados discóides e quartos fedidos permeam o livro.

Self não tem uma escrita totalmente informal, chula, nada impressionante, pelo menos nessa tradução. Mesmo se tivesse não conseguia prejudicar o seu livro, que, apesar do desfecho anticlímax, dando ao protagonista um final que ninguém esperava, é um bom romance como um todo. Simplesmente Self se esmerou (mas nem tanto) em bolar uma cultura para o seu cenário “terra de ninguém”, nomes das tribos e clãs (Intwennyfortee, Aval, Inssessiti, Tugganarong e afins), além dos acontecimentos vividos por Brodzinski, e por vezes achei que a viagem do mesmo cortando o país, que nunca tem seu nome citado, fosse nada mais que uma básica encheção de linguiça. Algumas coisas saem confusas, como a transformação de caráter de alguns personagens, o autor quase perde a mão nos capítulos finais, mas é um bom livro, no fim das contas. Um bom livro, mas esquecível.
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