[As Revelações Picantes dos Grandes Chefs]


Danny Skinner é um jovem escocês na primeira metade da casa dos 20 anos de idade, trabalha em uma espécie de secretaria sanitária em Edimburgo, capital da Escócia, é beberrão, mulherengo e vive para perturbar os outros (e para esmurrar também, já que ele faz parte dos hooligans do time local Hibernian, os Hibs), não necessariamente nessa ordem. O trabalho de Skinner consiste em fazer inspeções em restaurantes, incluindo os famosos, para ver se a ordem se mantém nos locais. Ele tem uma mãe cabelereira, Beverly, que a todo o custo esconde dele a identidade de seu sumido pai, e na maioria das vezes em que este assunto é tocado na presença dela a mulher, uma reconchuda que antes da concepção do rebento era conhecida como a Garota do Cabelo Verde (e atualmente é chamada por Skinner de Velha Garota) e que se envolveu com diversos caras em uma só noite, entre eles um roqueiro famoso. Bem normal um sujeito querer encontrar o seu pai, até que ele recebe um novo colega de trabalho, o nerd Brian Kibby. Kibby é nada mais que o maldito Dr.Jekyl enquanto Skinner é Mr.Hyde: Kibby é pacato, alimenta amores platônicos, é fã de Star Trek e trenzinhos de brinquedo, tem uma mãe superprotetora e uma irmã. Previsivelmente Skinner estranha-se com Kibby, em especial, quando vêem que a coexistência deles é alimentada por uma veia invisível que não só consiste em trabalhar juntos. A coisa é bem, mas bem mais complexa que isso. Fora isto Skinner tem de lidar com um cozinheiro muito famoso, Alan De Fretais, que publicou um livro chamado “As Revelações Picantes dos Grandes Chefs”, que explodiu em vendas. Mas os bajuladores de suas artimanhas sobre um fogão agiriam da mesma forma quando soubessem que as entranhas de seu restaurante são um verdadeiro lixo?

“As Revelações Picantes dos Grandes Chefs” é o sexto romance de Irvine Welsh, autor mais conhecido pelo romance “Trainspotting”, que alguns poucos anos depois virou filme de sucesso nas mãos de Danny Boyle, com Ewan McGregor no papel do protagonista Mark Renton. Welsh, em quase todos os seus livros, tem uma premissa marginal, enfocando os problemas sociais da Escócia, mais especificamente Edimburgo e seus conjuntos habitacionais, muito sexo, drogas e situações bizarras. De vez em quando ele instala uma veia de fantasia, como em alguns dos contos do livro “The Acid House”, que virou filme nos anos 90, ou até mesmo no tão aguardado (por mim) romance “Filth”, que junto com “Glue” fora um fracasso de crítica. Aqui no Brasil poucos romances de Welsh foram publicados, e em Portugal isso toma sentido oposto, até “Filth” e “Glue” foram publicados lá. Daí você vai lá comprar e vê que a versão portuguesa de “Filth”, publicada pela Quetzal Editores, é muito mais cara que a versão espanhola, pela Anagrama. Triste, não? Welsh é tremendamente ignorado pelas editoras daqui, até hoje. A carioca Rocco, a mesma editora brasileira de Harry Potter, publicou “Trainspotting”, a sequência “Pornô”, os contos “Se você gostou da escola, vai adorar trabalhar” e “As Revelações Picantes dos Grandes Chefs”. Só, e os que ficaram de fora têm uma premissa bem mais interessante.

Não obstante o enfoque na gastronomia, isto não chega a ser peça tão importante no romance. Parece mais servir de escada para contar o que Skinner pretende fazer de sua vida, para ver se Kibby finalmente vai perder a virgindade ou algo do tipo. O livro não se apega somente na narração em primeira pessoa, mas também na terceira, e isto ocorre constantemente, não prejudica o andamento. Isso é, só prejudica quem é fresco.

Skinner faz o típico protagonista machão dos romances do autor, este romance foi considerado a volta à velha e boa forma de Welsh, que lá fora teve (como eu já disse) “Filth” e “Cola” como fracassos. Seria uma ótima de pelo menos todos os romances do cara fossem publicados por aqui, mas sinceramente, o que falta? Eu devo ser muito ingênuo nestes tramites, vou procurar me informar mais, até porque, de certa forma estarei esbarrando nestes lances editorais, já que quero meu livro publicado. Nossas prateleiras carecem de autores “transgressores” como o Welsh, que além de escritor, é jornalista, diretor, roteirista e produtor… e ator, já que ele vive fazendo pontas em filmes, os chamados “cameo”. Mas daí eu olho para a janela e vejo que… estamos no Brasil! Eles quase nunca valorizam o que presta, certo? E isso também se aplica aos autores!

Ignore os magrões atrás do Welsh.

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