[O Homem de Lata] Cenário (parte 1)

Uma parcela significativa de meu primeiro romance, “O Homem de Lata“, tem como reais a maior parte dos seus cenários, o que não significa que necessariamente os acontecimentos do livro também sejam reais ou até mesmo que o protagonista e mais alguns personagens sejam inspirados (respectivamente) em mim e em algumas pessoas que passaram (ou passam) na minha vida. Às vezes nos deparamos com alguém que ostenta uma carga de vida um tanto singular, ao menos mais incomum que a maioria das pessoas. Isso também não quer dizer que estas mesmas vidas singulares sejam obviamente menos sem graça que a dos outros, podemos nos deparar com um sujeito de rotina chata (para a opinião alheia), mas que para ele é as mil maravilhas. Uma vida morosa, para algumas pessoas, pode ser até bem legal que uma vida repleta de aventuras, passagens por cantos paradisíacos ou nem tanto, além de contatos diretos com pessoas marcantes. Particularmente eu tenho muita coisa para contar, fiz muitas viagens, conheço meu estado natal como a palma de minha mão, conheço outros estados, conheço outros… é isso, é quase unânime que alguém com uma história de vida longe da rotina de trabalho-faculdade-casa ou até mesmo escola-casa tem mais coisas para contar. E aproveitei esta “vantagem” inserindo minha experiência de vida em alguns de meus personagens e em 100% dos cenários. Bom, para ambientar uma história numa tal cidade e numa certa região você precisa conhecê-la, certo? Como iria ambientar seus personagens em Tóquio se você não conhece Tóquio? É preciso dosar seu nível de empolgação e gosto por algo que não conhece. Eu ambientei “O Homem de Lata” em locais que conheço bem. Nada mais sensato que isso para dar início a um romance.

Como disse em postagens anteriores (disse?) o protagonista Josef Lopilato (sim, o nome está… estranho) empreende uma jornada ferroviária até São Paulo com o intuito de divulgar seu filme, o independente “O Ventre”, sucesso na capital de seu estado, Rio de Janeiro. Como qualquer cineasta iniciante deseja dinheiro e sucesso, especialmente para prosseguir tranquilo em sua vida rural, no bairro de Engenho Grande, município de Araruama, há 108 quilômetros da capital. Mora numa pequena propriedade com sua filha e sobrevive criando insetos para fins gastronônicos, cuidando de tudo e mandando para restaurantes do exterior. Até que ele precisa parar a produção – e sua vidinha rural – para o que bem sabemos.

A primeira “foto” acima é da Lagoa de Araruama tirada da estrada de Praia Seca, parte sul do município. Esta estrada começa na divisa de Araruama com o município de Saquarema, no trevo da rodovia RJ-106, e ruma até Arraial do Cabo, uma tranquila cidade próxima à sua cidade-parente, Cabo Frio, esta a mais famosa da Região dos Lagos, aquela região. Já passei na Praia Seca, quando criança meus olhos ardiam em contato com a água extremamente salinizada da lagoa.

Esta é a Rodovia Amaral Peixoto (RJ – 106) próximo à entrada de Engenho Grande. Não longe da lagoa. À direita é o ponto de ônibus para as localidades de Bacaxá (Saquarema), Niterói e Rio de Janeiro. Desde os anos 1960 não temos mais trem, que inclusive chegou à região tardiamente (alcançou Cabo Frio, a maior cidade) em 1934, quando nós já tínhamos trens cortando os diversos estados do Brasil. O declínio ferroviário brasileiro iniciou-se no fim da primeira metade do século 20, reforçado inclusive pela ânsia governamental em estimular o avanço das rodovias, até hoje péssimas. Simplesmente jogaram os trens de lado. Em muitas partes do estado temos trilhos enferrujados e abandonados, já na Região dos Lagos, todo o trajeto da antiga Estrada de Ferro Maricá (Ramal de Cabo Frio) fora erradicado. Lamentável.
Entrada do Engenho Grande. Josef e sua filha Mara moram no fim da rua das Goiabeiras, no fim desta estrada (como vocês vêm, pavimentada até um ponto). Poucos bares, poucas lojas, muito brejo, pernilongos e quietude. Com a repressão policial cada vez mais complicando o “trabalho” criminoso (tá, confesso que muitos deles contribuem com este trabalho, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro é uma das mais corruptas do mundo!), alguns bandidos foram para a Região dos Lagos, outrora um local tranquilo, sobrevivendo do Turismo, e gradativamente suas ruas e estradas de chão não ostentavam a paz de sempre. Por isso mesmo, numa noite, fui parado por uma viatura pick up S10 exatamente no lado esquerdo desta entrada. Um tanto hilário você ter a boca de um fuzil apontado para a testa e insistir na declaração de que não estava fazendo nada de uma forma semelhante a um fingimento. Isso é, até diante da morte eu não sou tão convincente nas súplicas (se bem que não supliquei nada). E eu realmente não fazia nada além de esperar alguém.
O outro lado do cruzamento da Amaral Peixoto com a estrada do Engenho Grande. A estrada vai em direção à Lagoa de Araruama. Josef não gosta de praia, mas gosta da Lagoa, Mara também. Mara, uma lourinha de olhos castanho-escuros, tem medo dos ventos da praia da Figueira (Arraial do Cabo) e das conchas no solo duma praia de Cabo Frio, que com o toque dos seus pezinhos pareciam ossos. O povo residente deste lado de Araruama geralmente é baixa-renda, não obstante a concentração de condomínios na área em direção ao Centro. Muitas pessoas trabalham nos centros urbanos mais próximos do local (Rio de Janeiro, Niterói, Cabo Frio, Bacaxá) e a área é sempre visada por quem vem de fora até nos finais de semana.

Rodovia Amaral Peixoto, outro lado do cruzamento com a estrada do Engenho Grande em direção a Araruama (centro), Cabo Frio, Macaé e etc. Não pus a foto da exata casa de Josef porque o carro do Google não adentrou às estradas de terra (haha). Ele mora lá dentro, num sítio íntimo com a mata. Para a sorte de Josef sua casa não fora arrebentada (com as próprias mãos), neste canto longe dos grandes centros urbanos ele conseguia desfrutar da paz, mas sem perder total contato com os negócios da capital. Até porque, como cineasta ele não poderia isolar-se da forma que sempre quis. Mara também gritava por pessoas e contatos, embora morasse com ele, fosse sua filha, a menina não tinha a obrigação de compartilhar as “neuras” do querido papai, e ele estava cônscio de que devia fazer esta separação.

O bairro do Engenho Grande é a casa de Josef e Mara Lopilato, protagonistas d'”O Homem de Lata”. A seguir, outros cenários, é claro, haha.
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