[Morte] José Roberto Pereira

Tardiamente, comunico o falecimento do editor, escritor e jornalista José Roberto Pereira, conhecido nos sete cantos (mentira) da internerd pelos pseudônimos BK (Black Knight, em alusão a um personagem antigo de videogame), JRP, Lord Seth, Pederneira, Negroponte e afins. Mineiro de Divinolândia, paulistano de adoção, casado com a desenhista Márcia Harumi Saito e pai de duas crianças e um jovem. Este camarada empenhou-se em vida para deixar sua marca no que tange à crítica dos quadrinhos nacionais e relações no mercado editorial, mais especificamente englobando o tratamento a mangás e animes aqui no Brasil.

José Roberto usufruía de tempo extenso na internerd, bem mais que a maioria das pessoas, aumentando sua participação na Rede conforme a banalização da mesma. Ex-fiel do Espiritismo Umbandista, há mais de dez anos utilizava seu acesso para desancar de seus antigos líderes religiosos (revelando coisas na Umbanda como orgias sexuais “sagradas” promovidas pelos mesmos líderes com suas fiéis) até lendários editores brasileiros locupletando-se à base de falcatruas e carências de terceiros. Nos anos 90 fez fama com a revista Animax, a única revista informativa na época dedicada somente ao anime e mangá, juntamente com seu ex-parceiro Sérgio Peixoto Silva, um otaku de meia-idade que até os tempos atuais tenta ganhar a vida pelos meios “animísticos”. Após o término da amizade e parceria, José Roberto passou a ser uma espécie de nemesis de Peixoto, sempre criticando-o em seu podcast, por muitas vezes rebaixando-o ao status duma ameba… mas José não era tão diferente assim do agredido…

… não mesmo, José também não valia o prato que comia, e sabia disso. Sua fama derivava mais por suas palavras ferinas disseminadas na internerd do que por qualquer outro motivo. De início, ele já cativara dezenas de leitores na Animax, em que dava vazão à sua verborragia com toques precisos, afim de “colocar o leitor para pensar”, pondo emocionalmente a publicação numa balança textual bem distinta: se deste lado tínhamos o pulsante, o resoluto e falastrão Zé Roberto, do outro tínhamos o pausado, calmo e protocolar Peixoto. Não é preciso ser um gênio para entender que naqueles tempos a veia emocional da Animax tinha a abordagem incomum do Zé Roberto como base de sustentação. Quando ele saiu, acho que no níumero 20, manteve-se Peixoto, entrou Orlando Tosetto Jr. no lugar de Zé Roberto e uns demais integrantes novos à equipe, Fábio Makoto Akita e a desenhista Érica Awano, que posteriormente teve fama relativa com o quadrinho inspirado em estilo mangá “Holy Avenger”, despido de um roteiro original, de cenários e de bom desenvolvimento de personagens. Orlando dava aos textos uma atmosfera até mais protocolar que os de Peixoto. E a revista perdeu muito em qualidade e originalidade com isso. Lá atrás a Animax (sucessora da Japan Fury, quase com a mesma equipe) surgiu num momento oportuno, em que a única revista informativa relacionada à cultura pop, quadrinhos, desenhos e mangás (“revista Herói”) do Brasil reinava absoluta… exatamente por não ter ninguém para competir com ela.

Claro que o advento da internerd foi um desbunde para José Roberto. Devido à sua língua descontrolada (neste caso, seus dedos descontrolados) andou sumariamente expulso de tudo quanto era fórum de discussão, comunidade e grupo de qualquer espécie. Dizia aos quatro ventos, em tom jactancioso, que aproveitara o sucesso da Animax para transar com algumas fãs (o fandom de mangá e anime no Brasil tem tantas meninas quanto meninos, é uma quantia bem expressiva), enquanto isto crescia sua má fama. No seu rastro interneteiro, inevitavelmente uns otakus viram nele aquele tipo de homem que fala o que der na telha sem medo de ser responsabilizado, uma espécie de “porta-voz” disposto a matraquear mundo afora o que eles não tinham coragem de dizer. Alguns simplesmente se atraíram pela “hipnotização” de seus discursos inflamados. Sabiam dos erros dele, nem sempre concordavam com o sujeito, mas continuavam o assistindo, de perto ou de longe. Entretanto, havia os que endossavam todas (ou quase todas) a atitudes da auto-proclamada “Preta Velha”. Em suma, uma corja de fracassados em vida, eu incluso.

Então, o castigo veio: não a cavalo, mas por meio da Justiça. José Roberto sofreu alguns processos por Injúria, Calúnia, Difamação e não sei mais o que. Correndo por fora, teve seus blog apagados por muitas vezes. Seus algozes na Justiça foram pais-de-santo, desenhistas amapaenses fracassados paus-moles e um casal lendário no fandom de anime e mangá brasileiro, igualmente fracassado, cujo indivíduo masculino cria coisas do tipo “Casamento do Nada com o Vazio” em suas histórias. Porra, este roteirista imbecil que criou esta coisa mereceu, e foi até bem pouco. Já José pagou com prestações de serviços à comunidade, algo assim, para após alardear em seu podcast com a inacreditável soberba: “Estou me sentindo MUITO FELIZ”. Eis um homem que não cai por nada deste mundo! Eis aqui a salvação de todos os nossos prob… do quadrinho nacional! E como previsto, não salvou.

O quadrinho nacional continua uma merda. Praticamente todas as “criações” advindas são chupadas dum original estrangeiro, com autores tão orgulhosos quanto José Roberto, seu maior crítico. As “criações” de brasileiros desenhistas no estilo mangá não fogem do lugar-comum, como o próprio José disse, desenhos maravilhosos, mas um fiapo de história, sedimentados na máxima estúpida de que desenho é mais importante que roteiro, quando devia ser o oposto. José Roberto tinha bastante tempo livre, deixando o que podia ser feito de bom de lado, criando seus próprios quadrinhos, viabilizando a publicação destes, entre outras coisas do tipo (mas lembro de ter visto e lido uma folha pronta de seus “Elementais” e quase vomitei com tanto clichê jogado na minha cara), para permanecer disseminando seu veneno pela internerd… até ter mais um de seus piripaques e ser despachado para o hospital, onde faleceu por câncer no pâncreas, no dia nove de fevereiro. No mesmo mês em que morreram a cantora Whitney Houston e o cantor brega Wando. Que honra, huh?

Não pode-se dizer que José Roberto Pereira desperdiçou sua vida. Até pode ser, mas não de todo. Afinal, ele enveredou na Literatura Fantástica criando dois livros: Mundos sem Sol (Editora ComArte, da Universidade de São Paulo) e Mil Nomes – O Guardião do Infinito (Editora Ícone). Disse ele que ao menos o Mil Nomes vendeu bem. “Vendeu 70% da tiragem!” Já o antecessor foi defenestrado pelo próprio autor, que nestes dois exemplos simplesmente passou por cima de toda qualidade que insistia em ensinar para outrem. Mas José Roberto fora um exemplo vivo de contradições. Até mesmo a liberdade de expressão ele apregoava mais em seu favor que dos outros. A palavra final era sua, entenderam?

O senhor José Roberto tinha o seu jeito de ser “feliz” e parte dessa felicidade era exatamente desnudar essa porcaria que é o quadrinho nacional e o backstage da indústria de mangá e anime no Brasil. Anarquista convicto, ele fazia questão de se esgueirar em qualquer canto bem povoado, bem massivo da internerd para aprontar das suas. Odiava pessoas, vida social, saía de casa à contragosto. Talvez até podia ser tremendamente amargo e estar trajando uma máscara para escondê-la por anos a fio. Mas, pensem uma coisa: se o seu fandom era composto basicamente por otakus retardados, e muitos deles desprovidos de opinião própria, é porque só mesmo este tipo de gente para engolir o que ele dizia. Novamente digo, “eu incluso“. Enfim, em parte pela consciência de se achar um tanto diferente eu não me juntei (propriamente dizendo) com estes caras.

Por fim, devo agradecê-lo pelos anos de entretenimento à frente do podcast Mundo Obscuro. Há uma playlist com quase todas as suas edições de podcast. Os assuntos são os mesmos: Sérgio Peixoto, quadrinho nacional, roteiro, umbanda, editoras. Reconheço que ele sabe muito sobre editoras e suas falcatruas, e para mim foi uma espécie de professor, bem entendido do assunto até que me provem o contrário. Download pelo 4Shared.

Voltando aos livros, ele estava concluindo o seu terceiro, Morganna, sobre uma elfa torturadora no tempo da Ditadura Militar. O Mundos sem Sol falava sobre um detetive vampiro em uma Tóquio futurista pairando no meio do vazio (hehe!) e Mil Nomes, sobre um menino recém-falecido que atinge um status de semi-deus no “Supramundo”, sendo apajeado por duas garotas gostosinhas… ou seja, idéias ruins, por mais que disse o contrário. No frigir dos ovos, mostrou-se tão escasso de boas e funcionais idéias quanto os seus “rivais” dos quadrinhos nacionais. Era farinha do mesmo saco, mesmo num verniz diferente.

Sinceramente, espero que a alma, ou o espírito, ou qualquer coisa que seja do José Roberto esteja em um lugar melhor. Isso é, se ele realmente estiver morto, pois já disseram aí que é mentira, que ele partiu para o sítio de sua mulher, etc. Que seja, sendo quem é, eu não me surpreenderia com isso, hehehehe!

Seu (último) blog: http://jrdobem.wordpress.com

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5 comentários sobre “[Morte] José Roberto Pereira

  1. Anônimo disse:

    Esse cara era (ou ainda é) um grande safardana. Falava mal de tudo e de todos, no entanto apresentava um trabalho fraco,medíocre e totalmente chupinhado. Não duvido que esteja vivo e se escondendo dos processos que estavam em curso na Justiça.
    Apareça Rato Podre!

  2. David disse:

    As idéias dos livros também eram por demais datadas. Difícil alguém engolir as premissas de “Mundos sem Sol” e “Mil Nomes”. Difícil crer que o Mil Nomes vendeu 70% da tiragem.

    Esta semana eu até comprarei Mundos sem Sol, mais por curiosidade pela pela tosqueira apresentada.

  3. Anônimo disse:

    Alguém se deu ao trabalho de fazer uma pequena resenha do Cu sem Sol e
    tem esse trecho que é ótimo:
    “Nada contra isso, nem contra as naves movidas a almas (que até agora eu acreditava ter sido uma idéia original). Meu problema é com a mistureba, é com jogar isso tudo em uma obra só. É como tentar carregar 4 pessoas em uma moto, você pode até conseguir, mas não tem como prestar.”
    Dizem que o BK está escondido na casa do Mestre Emir Ribeiro esperando a poeira baixar…

  4. Gerson B disse:

    Eu o conheci como BK no MBB. Do trabalho dele só conheci um anuncio de um grupo de estudantes de um colégio onde 3 menins mágicas namoravam o mesmo cara. Acho que o título era Elementais. Uma figura.

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