Acertos

Todo mundo sabe do meu descontentamento com o livro “O Homem de Lata”, algo mais pessoal que comercial. Claro que houve aquela alegria sincera ao receber o corpo do livro, quase 400 páginas e tal… mas parou por aí. Então tão tardou para que eu pensasse: “Bom, terei de fazer uma nova versão. Será a versão que vale”, e tomei como obrigação. Mas não farei agora porque tem um monte de coisa pra fazer.

Cada vez mais trabalho em busca do refinamento. Primeiro porque eu pretendo vender estas bagaças. Segundo para adquirir também a satisfação pessoal, entendam que tanto eu me satisfazer com minha obra quanto o leitor significaria a perfeição, sacou? E eu já devia ter entendido isso – e levado a sério – na concepção do primeiro livro, quando eu tinha um tempinho de descanso quando eu me esfalfava procurando emprego. Como a nova versão do “Homem de Lata” foi pro fim da fila, tô trabalhando no romance “Nirvana”, que é aquele negócio que eu citei, do ex-jogador e ex-presidiário sair da Escócia pra vir ao Brasil dar uma relaxada. O que ele quer é atingir o “Nirvana”, e ele não é o único. Passei meses trabalhando no que seria a versão definitiva – e única – e no final… achei TUDO uma merda. Quer dizer, tô refinando pra ficar tudo “nos trinques”, decente e legível. Já falei inúmeras vezes que tenho falhas como qualquer (arremedo de) escritor, certo? Então. Faz quase um mês que tento fazer algo decente, mas não tá rolando. Vou postar uma prova do que seria a introdução, explicitando o ponto onde o personagem chegará do primeiro capítulo até lá.

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EMMA imaginava muitas coisas. Só não imaginava que eu chegaria a este ponto. 

          Por uma vez eu passei dos limites, porém, tanto Emma quanto seus parentes e meus conhecidos do outro lado do Atlântico tinham a convicção de que eu não tropeçaria mais uma vez. Não me surpreende, visto que, apesar de passar a sensação de segurança todo o tempo – mais para a Mídia que para eles propriamente dizendo – não havia qualquer chance de ser um santo, alguém totalmente sob controle. Ao menos faço questão de arcar com as consequências de meus atos. Veio a cadeia, a libertação, e achei-me na obrigação de passar por uma mudança de ares, até eu achar necessário voltar ao dia a dia que perdi. Já estava mais que habituado aos costumes escoceses, até me naturalizei e notei meu português atrofiar a cada mês. Então, vim para cá e não tardou para que eu bancasse o “bad boy” mais uma vez, não para os outros, mas para mim. 

          Cinco anos desde a minha vinda até esta hora da noite, eu me esgueirava feito um animal ferido pelas ruas da Zona Sul de São Paulo, meio surdo, só confiando nos meus olhos. Eu corria, parava e me escondia, pena que não podia ouvir as sirenes da Polícia, mas entendia que meus colegas agiam da mesma forma, eles só não tiveram os tímpanos inutilizados, além das feridas de estilhaços da explosão novinhas em folha. “Quem rolou de bucha, rolou!”, eu disse, quando o alarme soou e todos saíram em disparada. Tinha um babaca, o Negão – só o chamávamos assim – que tropeçou justo quando nos precipitávamos para a porta giratória, ele deve ter sido o último,  e inseguro como era, provável que dedaria os demais para os canas, ou como os paulistanos de periferia dizem, “gambés”. Todos saíram prum lado, a aliança se desfez, pois lá dentro do supermercado dividimos a porcaria do dinheiro. Ainda tínhamos de avaliar os prejuízos das notas manchadas com aquela tinta colorida. Certo que, se Emma imaginasse tudo isto, finalmente me largaria de mão. 

          Há a sorte de não ter sido pego… ainda. Eu não conhecia aquele bairro da Zona Sul, tampouco os pontos de ônibus num raio de 2 quilômetros do supermercado. Estávamos bem no extremo da região, onde só tem mato e em nada se assemelha às áreas tipicamente urbanas dessa capital. Aqui é um dos cantos onde desovam corpos, mais próximo do litoral paulista que do Centro, não é de se admirar que um paulistano médio, morador do Centro, Zona Oeste, Norte, Leste ou até mesmo da própria Zona Sul – lembrando que a ZS é a mais extensa da cidade – nunca dera as caras por aqui, e eu já estava de saída. Fitei o relógio: 2 da matina. Não havia ônibus para o Rio de Janeiro, teria de arrumar um canto para dormir. O mesmo destes dias. Eu só precisava chegar ao Centro, já caminhava esgueirado às casas, tentando bancar o normal, sem tremer, tentando tirar minha mão direita das costelas, que foram ferradas. É chegada a hora daquele flashback em que seu cérebro cita os bons momentos. Até o BUM te atingir as costas, a nuca, braço e costelas porque você não correu mais rápido para se esconder. A desgraça da “família de dois”, sendo que tal família deixou de existir. Qualquer mulher se apaixona por um mau-caráter ou um completo babaca. Só Emma e Natália se apaixonariam por alguém como eu. Eu não posso desmaiar, não posso, meus amigos…

          Após sangrar bastante e tontear, cheguei a um ponto de ônibus. Como a maioria, representava-se apenas por uma maldita estaca colorida fincada na terra e de ponta para cima. Quanta preguiça, prefeitura! Se eu estivesse 100% saudável diria que aquele breu amedrontador da área queria me engolir, os sons dos grilos se encarregavam de me manter na terra. Carrodepolícianão,carrodepolícianão, eu murmurava, antes de cair a ficha da certeza de que não arrumaria nada naquele ponto, devia andar mais um pouco. Podia me ferir mais ainda caso voltasse ao mato, mas antes disso que ser preso. Logo, voltei. 

          Emma, Natália, Natália, Emma, pensava nas duas enquanto pulava muros e cercas, fugia de cães, depois voltava para o asfalto, me encolhia quando via luzes vermelhas e azuis, zunindo há metros de mim e sumindo. Nessa hora eu já não ligava para os comparsas. Cada um por si, né? Compraram dinamite com pavio curto – hehe – e quase morri ou quase fui preso. Minha última loucura, não apenas porque queria partir bem pro outro mundo. Qual pai gostaria que seu filho ouvisse de alguém “seu pai foi um ladrão, um assassino, um crápula, vagabundo”? Já me enquadrava nas duas primeiras, e chega. Mas eu fazia tudo isto porque é difícil conseguir um emprego no Rio, além do que, ultimamente minha vida andava morosa demais. É preciso uma sacudidela, entendem? Tá, não até este ponto, eu exagerei. E como disse, minha última loucura. 

          Minhas roupas estavam em frangalhos, havia uma muda na mochila, eu sabia que daria algum problema na fuga. Não cheguei a contar o dinheiro, tudo o que fiz foi pegar, apressadíssimo, a maior quantidade de maços de dinheiro enquanto os outros faziam o mesmo. Só não brigamos porque ninguém tinha tempo pra isso. Um carro de polícia fazendo o sentido supermercado, enquanto outro voltava para o perímetro urbano de sabe-se lá onde. Na mochila também havia um pote de doce de leite e alguns pacotes de biscoitos – ou bolachas, como chamam aqui. Se está escrito “biscoito” na embalagem, por que cargas d’água o chamam de bolacha? Eis uma das indagações mais intrigantes da humanidade. 

          Após quase duas horas de caminhada cheguei ao perímetro urbano, ainda não fazia ideia de onde eu estava. Ah, sim… avenida Sadamu Inoue. Vila Marcelo. Pelo que constava no mapa, o supermercado situava-se em Jardim Nardini. Região de Parelheiros, extremo-sul da cidade de São Paulo. Montamos nosso QG no bairro da Luz, centro da cidade. Viemos de van e descemos exatamente ao lado do alvo, o supermercado Yoshida. Turcão explicava que o que não faltava na cidade eram supermercados fundados por japas, Gordo disse que parte destes orientais ainda mantém rios de dinheiro embaixo do colchão, e Maicon reclamou de termos saído de tão longe para roubar. Ora, quem liga pra Zona Sul?, disse o Gordo. Os problemas com a polícia seriam menores, só pelo fato do policiamento não ser tão intenso quanto os dos bairros mais visados pelos ricos, ou do Centro. Não é como o Brás, onde tem uma dupla de policiais a cada esquina. A tensão após a explosão apressou a separação inevitável. Eu não mais via minha equipe. 

          4 e pouca da manhã. Os trens e ônibus começariam a funcionar. Não podia passar tanto tempo parado. Consultei um pequeno mapa, e sabia que o bairro grande mais próximo seria o Grajaú, longe dali. Não achei uma garagem destes coletivos, tampouco um ônibus parado onde eu pudesse entrar pela janela, esquecendo-me de que em São Paulo, os ônibus coletivos têm apenas o lado de cima da janela como removível. Igrejas fechadas, comércio abrindo aos poucos. Eu parecia estar perdido, e foi impossível não pensar nos meus colegas. 

          Às 5 não fazia sinais do crepúsculo, quando saí de uma toca próxima a uma casa quando apareci num ponto de ônibus mais uma vez. Já tinha estancado o sangue, mas a dor continuava em minhas costelas, a nuca formigava, eu ainda não ouvia nada. Suavizei meu toque na mochila, não abandonava a tensão. Mais um ponto de ônibus sem abrigo, me pus próximo à estaca e esperei. Não se dava o luxo de ter sono. Limpava as mãos e, com o maior cuidado, pegava parte das notas de minha carteira. Quando o ônibus da linha 6099-10 (Divisa de Embu Guaçu-Terminal Grajaú) chegou eu paguei logo e me pus nos bancos de trás. Podia ter a polícia me esperando no terminal de Grajaú, portanto, pensei em descer alguns pontos antes. Não sabia se teria forças para isso, pois assim que me derramei no banco, o sono veio. Devia manter-me acordado…

Tive cuidado para não descer no terminal, soltei dois pontos antes dele, dei a volta e dois pontos depois esperei qualquer ônibus em direção norte. Demorando, decidi caminhar um pouco, foi quando cheguei ao Terminal Varginha, fiz o mesmo, passando dois pontos após o terminal, e de lá tomei um ônibus que não me lembro a linha até Santo Amaro. Meia hora. Amanhecia. Deixei-me passar um tempo no terminal, aliviado por ter saído do local do crime em definitivo. Comi uns dois cachorros quentes. Esperei o ônibus da linha 5111-10 (Terminal Santo Amaro – Terminal Parque Dom Pedro II). Me pus no banco de trás e abri a mochila, sabia que a viagem demoraria. O sangue endureceu em minhas costelas, minhas mãos estavam sujas, o livro que carregava estava empapado de sangue, não me dei o trabalho de verificar quanto dinheiro eu tinha, não me sentia seguro o suficiente. Troquei somente as blusas, a preta esconderia a mancha de sangue.

          Uma hora depois acordei, deparando-me com o ônibus lotado, passávamos no Centro. Fui um dos últimos a sair, o Parque Dom Pedro II situava-se na parte baixa do Centro, às margens do rio Tamanduateí. Consegui sair ainda mais amarrotado, sem contar o incômodo ao permanecer sentado durante todo o tempo. Não perdi tempo e procurei um hotel. Pernoite a R$ 20 até 12:00. Disse ao homem que era surdo, apresentou-me o cubículo, o banheiro e onde eu me banharia. Sozinho no quarto, rapidamente tirei os sapatos e meias, estas ensanguentadas, e não apenas elas: a blusa preta assemelhava-se a um pano de chão, e a calça colecionava diversas pocinhas do sangue, que com o tempo endurecera das costelas à cintura. Tomei banho, o ferimento ardeu, saiu mais sangue. Usei uma calça preta, pus as meias no fundo da mochila. Não tinha primeiros-socorros, sequer uma gaze. Tudo o que fiz em relação foi fazer uma tira com minha blusa preta suja e usar no ferimento para que, novamente, o sangue fosse estancado. Tirei as roupas de cama. Deitei-me de lado, cobri-me e dormi. 

          Emma disse que eu devia ser resgatado. O Brasil era uma terra de macacos, não prestava, 14% de analfabetos, milhões de miseráveis, entre outras coisas, a pessoa que mais detesta o Brasil. Nunca morou aqui, nos conhecemos em Edimburgo, bem distante do calor carioca. Não teve problemas em me aceitar, afinal com o tempo um aceitou o outro. Emma não suportaria a minha vida aqui, não encararia um roubo a supermercados pelos motivos mais óbvios possíveis. Suas mãos não estão sujas, talvez nunca se sujariam. Pude concluir pela milésima vez que eu estava bem encaminhado na Escócia, não obstante a prisão e libertação, eu podia viver tranquilo. Ela sempre achou que eu considerava tudo isto uma espécie de teste. Aceitando-o, atingi o status de louco. E mesmo assim Emma não desistiu de mim. Nem quando pus outra mulher do meu lado. Emma agia como se a garota não existisse para mim, e Natália me pressionava para fazer alguma coisa. Emma não falava comigo há meses, o que foi uma surpresa. Eu me mantinha alerta. 

          Emma estava certa. 
          Eu sou louco. 
          Só mesmo louco para cometer uma coisa destas. Emma pensava no meu bem, Natália nunca me conheceria caso eu não voltasse ao Brasil. Emma me queria nos braços mais uma vez, e sabendo que o meu retorno ao Brasil jogaria mais água no chope de sua expectativa em tê-la novamente. Parece que se resignou, ou eu estava enganado? Eu já não era mais dela há mais de 10 anos. Uma de minhas pouquíssimas referências, e mesmo assim, alguém que eu não gostaria de ter por perto mais uma vez. 

          Finalmente abri a mochila para avaliar a quanto peguei: a maior parte dos maços de dinheiro – em notas de 10 e 20 – foram “pintadas” pelo caixa eletrônico, comecei a me desesperar e procurar uma nota intacta em meio de todos aqueles maços. Contabilizava R$ 2530. Mais de R$ 1800 pintados de modo inaproveitável, e contando. Concluindo, R$ 490 intactos. Quanta grana a ser jogada fora. Eu não sabia como retirar as manchas, e naquela altura do campeonato não teria paciência em procurar. 

          Pavimentou o fracasso do roubo para mim. Ergui-me, soquei a parede por três vezes. 
          E não apenas o roubo fracassou, como eu, um fracassado completo, recolhia mais um fracasso. Pelo menos matei alguém, não é? Pelo menos se deram o trabalho de me prender. Pelo menos criei boa fama na cadeia, pelo meu futebol, fama, jogo de cintura e conversinha calma. Tudo o que podia fazer no momento seria voltar para casa, a aliança com os caras estava desfeita. Não me preocuparia com minha identificação, sendo que de início fiz o possível para que não identificassem o ex-jogador de futebol Robson Fernandes da Silva. Meu péssimo trabalho estava feito. 

          Deixei meu celular no Rio. Dormi bem, não toquei no machucado, custei a levantar, como se eu não dormisse há muito. Rememorei tudo o que houve, ouvia bem pouco, não faria muito esforço. Saiu do quarto e lavei o rosto. Não teríamos café da manhã, e eu pouco me importava. Logo, vesti-me, peguei minhas coisas e parti. Não tive tempo para passear pela cidade, caminhei até a Luz, sem sequer pensar em comparecer ao nosso QG. talvez os colegas de crime estivessem lá. Parte deles. Já não era problema meu. 

          Ao invés de tomar o metrô da Linha 1 até o Terminal Rodoviário do Tietê, tomei o trem até Guaianazes, Zona Leste da capital. Fiz baldeação até a cidade de Mogi das Cruzes, onde esperei o próximo ônibus para o Rio de Janeiro. 


          Pensava em tudo isto enquanto enfiado naquela cadeira. Cliente de um restaurante da Cinelândia, chovia bastante, eu não me vestira tão bem quanto os demais clientes, tinha, como provei, a cabeça nas nuvens. Eu esperava alguém, não Natália ou a própria Emma, que não mais se dignaria a descer aqui. Natália era minha namorada, não nos vemos há quase um mês, quando ela intensificou seu treinamento na luta greco-romana a fim de ser escalada para as próximas Olimpíadas. Falando nisto, lembro-me que a primeira coisa que li em meu e-mail – assim que cheguei ao Rio e derrubei-me na cama de casa – foi um anúncio de Emma relacionado a isto, algo que, sinceramente não esperava… mas 5 anos têm seu poder, eu não podia esperar absolutamente nada de pessoa imprevisível como ela. Segue o e-mail:


“Olá, minha maior decepção do mundo. 

          Só vim te dizer que falta bem pouco para a minha estréia nas Olimpíadas, meu querido. Veja bem, você sabe que passei estes últimos anos cumprindo medidas a fim de levar uma medalha de ouro pro meu país, mas o que todo mundo não sabe é que… simplesmente não vejo mais nada de bom pra fazer nessa minha vida. Fora a medalha tem uma coisa legal pra acontecer, tipo aparecer na televisão, né? Não que eu estivesse ociosa, nada disso. É que, depois que me separei daquele banana – não falo de você, falo de OUTRO banana – e que finalmente atingi um espécie de ‘nirvana psicológico’, pois não perco mais tempo com inúteis. Se significa muito estar nas Olimpíadas? Claro que não, caso tu não sejas um passivinho sem qualquer objetivo sério. Como todos, eu quero a medalha de ouro, ou a de prata, ou a de bronze. Até bronze eu comemoraria, rsrsrs. Bom, falei tanto sobre mim, e você, como tá? Dando duro aí? Rsrs. 

          Acho que não faz sentido eu te chamar de ‘minha maior decepção do mundo’ se eu disse que não perdia mais tempo me importando com inúteis. Fica impossível deixar de falar contigo. Sei que ainda gosta de mim de alguma forma. E eu ainda te amo. Eu só não sou estúpida o bastante pra achar que você podia voltar comigo, e a questão da distância não implica em nada, nunca implicou. Bom, não vou te encher com o papinho de sempre, eu cresci, tá legal? 

          Me deseje sorte nas Olimpíadas. 
          Heptatlo, lembra? A última prova. Me lembrarei da pessoa mais importante na hora das provas. Sabe exatamente quem, né? Rs… 

Eu continuo amando MESMO você.
Emms.”

          
          Que coisa, tinha me esquecido de que ela se divorciou. Eu sabia que Emma era militar, só não fazia idéia de que treinava para as Olimpíadas. Não obstante seu status a loura sempre fez questão de estar perto de mim mesmo preso, me enchendo o saco, ocasionando a sua “dispensa”. Agora tenho duas garotas atletas, de personalidade forte, o que era bom. Não encaro meninas meigas. E quem venceria numa briga? Seria interessante… 

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Então, não fiquei satisfeito com isso. O puto saiu do Rio pra São Paulo para roubar um supermercado junto com outros miseráveis e se feriu na explosão do caixa eletrônico. Beleza. O problema é como isso e outras coisinhas mais são contadas. O personagem (Robson) tá longe de ser um piadista ou malandro, o texto em primeira pessoa mostra isso – se bem que existem diversos modos em contar uma história em primeira pessoa, partindo da personalidade do protagonista. Tem personagens que vou explorar (como no romance “Eu não estou bem”, puro tributo em cima da Amy Winehouse) que cabem perfeitamente nesses palavreados. Robson é esperto, mas não a ponto de ter o vocabulário “malandrinho” assim. E a introdução não era assim, o texto em primeira pessoa mostrava o encontro de Robson com Isabelle, uma mulher salva de abuso sexual há 5 anos atrás. Segue o texto:

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Capítulo 1.




          Aguardava Isabelle. 

          Chovia bastante no centro do Rio de Janeiro, assim como em toda a cidade. Marcamos o encontro próximo ao Cine Odeon, na Cinelândia, praça que antigamente abrigava os mais diversos cinemas. A cidade tinha muitos cinemas. Com o tempo eles faliram e os evangélicos neo-pentecostais se encarregaram de comprar os imóveis a fim de transformá-las em igrejas – a Teoria da Prosperidade estava em expansão – e cada vez mais os cinemas passaram a existir em shoppings. Atualmente quase não existiam cinemas no Rio de Janeiro fora dos shoppings. No Centro apenas o Odeon e o Cine Santa Tereza – no morro de Santa Tereza – persistiam. O último a ter seus serviços cancelados fora o Palácio, mesmo após uma mobilização de saudosistas e demais entusiastas de cinemas. Não adiantou porque ninguém quis se incumbir de injetar dinheiro em um cinema daqueles. O monopólio de duas ou três multinacionais que ganham muito com seus cinemas nos shoppings se mantém intacto, deixando claro que os bons tempos do cinema acabaram no país. 

          Apreciei pouco dos cinemas. Não nasci aqui, até pouco tempo meu português fora modificado para a atualidade. Comecei a sentir-me antiquado demais ao abrir a boca no meio desse pessoal. A cidade do Rio de Janeiro fora, por muito tempo, capital deste país e hoje carrega a pecha de Cidade Cultural do Brasil, com aquele pensamento de ser uma capital moral do país correndo por fora. Ocorreu muitas coisas de 1960 para cá, a capital federal foi transferida para Brasília, ocorreu o golpe de 1964, posteriormente passamos pela Ditadura Militar, até conseguirmos, ao menos teoricamente, passarmos a ser uma democracia no fim dos anos 80. A partir daí o brasileiro médio encontrou-se com a liberdade em todos os sentidos, e passou a fazer uso dela. De forma exacerbada, a ponto de termos – hoje em dia – tanto multidões fazendo gracinhas no meio da rua – os chamados flash mobs – quanto lutas persistentes e pretensiosas pelos diretos dos homossexuais. 

          Em minha opinião, começamos a fazer mal uso da liberdade. Importamos modismos e tentamos a todo o custo passar para nossa sociedade. Nos prostituímos, nos corrompemos, atropelamos nossas convicções. O dinheiro tornou-se a coisa mais importante do mundo, e até quem até pouco tempo não dava a mínima para ele se entrega de corpo e alma, e fica praticamente impossível não sair chamuscado de todos estes acontecimentos. Tanto li e vi sobre o país em que vivo que me aborreci e fiquei estarrecido com quão este país e este povo fora tão vilipendiado no decorrer dos séculos. Desde o Descobrimento, em que portugueses encontraram nossos outros ancestrais em condições remetidas à Idade da Pedra, passando pela escravatura indígena e negra, até hoje. É um povo que apanhou bastante, e que hoje em dia, se compraz em apanhar ainda mais – e não falo da questão física. 

          Passariam 50 anos e este país nunca mudaria. Quem sabe afundasse de vez? Não havia qualquer possibilidade de progredirmos psicologicamente, não somos a Austrália e nem o Canadá. Há um pouco de rancor em minhas palavras, sim. E muito de verdade. 

          Como disse, aguardava Isabelle. O bar começou a encher, o barulho aumentou de tal forma que o chiado da chuva não conseguiria cobrir. Bebericava guaraná enquanto tentava manter meus olhos no na praça, mas aquele vai e vem das pessoas me obrigava a piscar, a resmungar e praguejar. Também, eu não estava nos melhores dias. Depois que fiz aquela besteira na Escócia e puxei alguns anos de cadeia é bem compreensível que eu não estivesse. Da minha libertação até agora, absolutamente nada fizera-me puxar um sorriso gostoso e verdadeiro. E em busca de uma reviravolta na vida, além da posterior mudança, me fez comprar uma passagem só de ida para o Brasil. De volta à terra natal, de forma que minha mãe adoraria. “O seu país fez muito por você, o que tem na cabeça ao se mudar para a Escócia?”, perguntou. Adiantava dizer que partiria mais a fim de trabalho que de lazer? Acabou que de qualquer forma montei morada por lá e não mais voltei, por anos, até eu cometer a besteira suprema. 

          Não tinha nada em meu prato. A porção de queijo prato já estava no bucho, ao contrário do guaraná, ainda no começo da garrafa, geladinho. Passei os olhos naqueles rostos jovens e corpos bem vestidos, maioria mulheres, eram trabalhadores, eu estava no centro financeiro da cidade, do modo que a população impôs de umas décadas para cá: morando inicialmente no acidente geográfico chamado Morro do Castelo, parte da população desceu para a chamada Várzea, e lá em cima ficaram os pobres, isso por um bom tempo, até o morro ser vítima de um desmonte em que poucos se opuseram. Hoje os mais pobres moram nas mais de 500 favelas espalhadas no Rio, além das periferias. Creio que muitos estejam reiniciando o extremo aperto neste chuva provocadora de enchentes. O centro também sobre com a chuva: trânsito massacrante gera nervosismo, que não gera mais nada que isso. As pessoas gritam, gesticulam e buzinam como se resolvesse alguma coisa, quando todos estão na mesma situação do engarrafamento. Isso faz tanto sentido quanto olhar para o lado oposto de onde o trem vem… ou esfregar os talheres a fim de tirar restos de comida, quando, segundos depois, eles são novamente mergulhados no prato. Uma infinidade de peculiaridades deste meu povo.

          Por que Isabelle demorava?, perguntei. Já matei uma porção de queijo prato antes de sua vinda. Não queria encará-la com restos de comida no pratinho, então pedi que retirassem. Agora havia o refrigerante. Deixei na mesa, deixei de agitar as coxas, chequei meu cheiro. Tudo bem com o desodorante, agi como uma verdadeira puta, pondo o bastante. Eu nem estava nervoso. Se eu estivesse, seria por começar a sentir que estava mofando naquele bar. O primeiro encontro após anos. 

          Após mais um gole de guaraná, notei que o vento batia forte nas árvores. O calçamento de pedras portuguesas assemelhava-se a um rinque de patinação, algumas pessoas tinham dificuldades para andar, elas deslizavam e quase caíam. Uma velha fora ao chão violentamente, e eu não consegui deixar de rir. No momento em que ela caiu o vento encarregou-se de lançar longe o seu guarda-chuva azul. Demoraram para ajudá-la, ela tremia tanto pelo vento quanto pela dor que sentia. Senti-me um lixo por ter rido. 

          Do outro lado, em direção ao imponente Theatro Municipal, uma pessoa cambaleava, castigada e que penava até para manter-se em seu rumo – é, sabia que ela vinha para cá. Então vi quando deu um passo em falso e caiu de joelhos. Segurei a gargalhada. O povo acossado pelo tempo e tremelicando forte na marquise da igreja neo-pentecostal – aquela área era um, adivinhe, antigo cinema – nada fez, apenas comentavam, arregalavam os olhos. O guarda-chuva rosa bamboleava ao sabor do vento, o chapéu se foi, os cabelos também queriam partir. Cabelos castanho-escuros, longos e sedosos. Houve um reconhecimento imediato no ar. Captei a imagem de Isabelle. 

          Logo saí de minha cadeira de madeira, pedi licença aos convivas e retirei-me do Amarelinho. Senti na pele aquele vento gélido, molhado e cortante, como um tapa dado tanto em minha cara quanto em meu corpo à direção do vento. Isabelle devia estar sentindo-se humilhada por Deus e tudo o mais, eu agia para abreviar esta, ahn… trivialidade. Sim, pois de forma alguma era sofrimento. Escorreguei umas duas vezes antes de atingir os 180 metros que separava a lona do restaurante até ela. Peguei sua mão, ela me fitou já muito agradecida. “Robson”, sussurrou. “Vamos sair daqui?” Mas é claro! Apertei minha mão direita em seu ombro, ela envolveu minha cintura com seu braço esquerdo, apertando sua mão na minha. Quis pegar o chapéu, mas ele já estava bem longe. Adentramos ao Amarelinho. 

          “Cara, até hoje cedinho eu não sabia que choveria assim”, reclamou ao sentar-se à minha frente, esticando o cabelo para tirar a água. Sentei-me tranquilamente, uns poucos nos fitavam, como era normal. Trazia uma expressão cansada, de tanto tempo caminhando na chuva, como se do nada houvesse adquirido um peso de elefante. Respirava fundo, usou guardanapos, tentava não molhar tudo, a mesa e o chão, as pessoas… ruguinhas de preocupação, mesmo tão jovem. Eu só fazia assistir, deixava ela desabafar. “Vi do celular que previram uns 5 dias só de chuva, ou seja, será assim a semana inteira!”

– Deixa chover, o que podemos fazer? – perguntei, resignado há muito tempo. – E como vão os estudos? Me diga o que tem de bom… ou de ruim, sou todo ouvidos.
– Ah, você me pegou num péssimo dia… – engoli seco, antes dela retificar. -Um péssimo dia naquele dia, é claro, hehe. Cada vez mais estou convicta de que aquele povo não bate muito bem da cabeça. Pode-se dizer que a minha vida alcançou uma trajetória meio… vertiginosa depois daquilo que aconteceu.
– “Daquilo que aconteceu” – murmurei, até que veio-me a pior lembrança possível. Não, não a de meu crime. – Está falando daquilo que houve…
– Falo da morte do meu pai – respondeu. Isabelle fitou as mãos, que cutucavam algo embaixo da mesa, entre as coxas. Provável que sejam as unhas. – Nossa, eu… tive tudo para desistir depois disso. Mesmo um bando de gente ter dito que uma coisa nada tinha a ver com a outra, que eu tinha um futuro brilhante pela frente… agora você sabe, faço uma novela de sucesso, tenho a vida mais ou menos reestruturada… era o que eu quis antes de ter ocorrido aquilo, né? Mas tudo bem, eu não quero te chatear com esse assunto.
– Não está chateando. Confesso que não sou sempre compreensível, mas eu entendo o que está dizendo… eu até me desculpo por não estar ao seu lado quando ocorreu isto, mas você sabe, todo este encontro ocorreu…
– Por acaso, sei. E eu era bem pequenininha. 
– Nem tanto.
– Ainda assim eu sabia que estava diante de um cara muito bom. Não importa o que você fez lá na Escócia.
– Bom, para mim ainda importa muito – disse a ela, coçando a nuca.
– Vai deixar de se importar, o tempo é o rei de todas as coisas. Claro que em primeiro lugar vem Deus – Isabelle ergueu seu olhar dos dedos para mim. – Como você está?
– Estou bem. Sério, já estive melhor, toda aquela fama e tal… mas são idas e vindas, agora estou aqui realizando o seu desejo… digo, o nosso. É algo que, sinceramente, queria que acontecesse. E é bom saber que estou com alguém que deu a volta por cima.
– Você também deu a volta por cima. Não importa se menos ou mais que eu – seu sorriso complementava o teor de suas palavras. Ela realmente gostava de mim. – Como estamos assim – uniu as pontas das duas mãos – pau a pau, não é bem justo que estejamos juntos agora? E somos amigos também!
– É isso. 
– Você apenas diz “é isso”… você continua sendo tímido – disse ela, dando umas risadinhas.
– E eu achando que você tinha mudado bastante…
– Sim, mudei. Mas fui fruto do meio. Eu… nunca imaginaria que estivesse tendo uma conversa contigo, alguns anos depois, após tudo o que aconteceu, mesmo tendo dito que iríamos nos reencontrar. Teve alguns momentos em que pensei em me matar. Tomaram o meu pai, quase tomaram a mim mesma… agora, estou um pouquinho mais… solta. Está aí uma outra coisa que nunca imaginei que aconteceria.
– Relaxe. Está frio demais, está sentindo?
– Sim.
– Dê-me suas mãos – e ela as deu, apertando os lábios, com um pouquinho de vergonha. Isabelle tinha mãozinhas pálidas, tão macias que por pouco achei por bem não apertá-las, como porcelana elas quebrariam. Aumentaram as pessoas naquele bar, e o frio impunha uma maior aproximação. Talvez Isabelle já estivesse pensando nisso, até antes que eu. Só que antes eu precisava curtir o momento. Eu não sabia se ela considerava-me um irmão mais velho, um tio (não era tão velho assim) ou um candidato à namorado, como adolescentes têm o tempo inteiro. Prova de que já gozava dos tempos em que devia investir no amor, pois uma parte expressiva delas acreditava nisso. 
– Suas mãos são grossas e gélidas – disse ela, mais num sussurro. Mexeu nas palmas. – Que calos são esses?
– Muito trabalho braçal, se é que me entende – e ela soltou uma sonora gargalhada. – É sério…
– Tô gostando de apertá-las – disse, fitando minhas mãos, pressionando-as e depois alisando-as. – O que está fazendo, hoje em dia?
– Hum… – pigarro. – … trabalho braçal.
– Fale sério.
– É sério. 
– Os escoceses não te pagaram nada como jogador ou você torrou…
– Torrei tudo.
– Com o que?
– Com a trinca mulheres, jogos e “otras cositas más”. É, geralmente não sou dessas, mas foi a primeira vez em que pus as mãos numa bolada, então fui burro o bastante ao fazer o mesmo que todos estes deslumbradinhos fazem.
– Por que eu acho que você está escondendo algo de mim?
– E por que cargas d’água esconderia? – indaguei, torcendo a boca.
– Sei lá… – seus olhos reviraram o teto enquanto falava. – É que eu nunca te imaginei neste tipo, mesmo sendo apenas um gesto de felicidade… nunca te imaginei nem como esbanjador de qualquer coisa. Você sempre pareceu-me correto. Não apenas por ter me…
– A Escócia me mudou.
– Apenas isso? 
– Sim. Você sabe, passei anos lá, conheci outras pessoas, é uma nova cultura, até aprendi a gostar de usar kilt. Os Hibs foram bastante receptivos comigo, cresceram os olhos diante de um brasileiro. 
– Hibs?
– Hibernian, o nome do clube em que joguei. Gostei muito. Uma pena que tenha ocorrido o que ocorreu.
– E a sua mulher? 
– Minha ex.
– Sim, o que houve entre vocês?
– Decidi separar porque não a deixaria aguardar a minha saída da cadeia. Como sabia que ela poderia me trair enquanto eu estivesse preso, fiz com que seguisse seu caminho. Ela é jovem, embora mais velha, e justamente isto não a impediria de conseguir outro cara, as alianças nos dedos também não. Creio que fiz certo. Tão logo nos separamos, ela passou a andar com outro cara. Jared, acho que o nome é esse, um produtor de filmes de Derby. Creio que ela também já estivesse farta de falar português em alguns momentos, podia achar também que eu estivesse farto de falar em inglês na maior parte do tempo e etc. Separação amigável. 
– Hum… – ela pensava. Depois de minha ex, sim, o espaço agora é seu. Apostava que uma intensa batalha pipocava na mente e coração de Isabelle. Para ela eu era uma espécie de lenda viva de sua vida, alguém que a ajudou a detonar aquele desgraçado…
– No que está pensando tanto?
– O que você estava comendo?
– Hã? – ela apontou para os restinhos de queijo próximos à garrafa de guaraná. 
– Queijo. Ficamos conversando e nem notei que talvez você estivesse com fome…
– Garçom, por favor – chamou o homem e pedimos contra-filé para comer. 
– Vai interromper sua dieta só por hoje? – foi só perguntar isso para Isabelle comprimir o rosto com as mãos, de tanta vergonha. Dietas, cuidados extremos com o que vestir e tudo o mais consistiam em provas suficientes para concluir: mulheres foram feitas por uma argamassa diferente. – Não tem nada a perder, te juro.
– As coisas mais gostosas são as mais perigosas, claro – disse ela, pondo o cotovelo na mesa. – Mas eu estou disposta a fazer esse sacrifício. É só por hoje mesmo…
– Vi lá no teatro que seu corpo está uma beleza… com todo o respeito.
– Obrigada – Isabelle voltou a tocar minhas mãos. Acariciou-as. Tinha a boquinha entreaberta, as sobrancelhas finas relaxadas, a cabecinha curvada para a frente. Brincava com minhas mãos, talvez convicta de que aquilo também era necessário para me excitar. Evidente que sim, pois funcionava. 
– Anda assistindo a novela?
– Homens não assistem novelas, heheh – ela também riu.
– Sei que você gosta de séries. Séries são nada mais que novelas, também.
– Ok, ok. Você pretende fazer aquela coisa? 
– Ah, a entrevista? Claro que sim. Por que, não quer mais?
– Não, eu quero – e ela não disse mais nada, apenas sorriu. Devia estar gritando por dentro, porque eu estava disposto a proporcionar um bom material para o seu bico de jornalista. Atriz e jornalista, tinha a chance de fazer bonito nas duas profissões. Caso eu não estivesse ao seu lado, não tardaria para se prostituir. Hoje em dia atrizes e jornalistas quase sempre se prostituem. 

          Ninguém queria que Isabelle fosse vítima de um acontecimento tão ou mais traumatizante que antes. Ainda tinha 18 anos, podia mudar de vida e fazer o que quisesse, mas obviamente não estava em seus planos nada que pudesse fazê-la sofrer. Claro que sofrer é humano, (quase) ninguém tem uma vida fácil, mas estamos falando no ato da tortura, da agressão sexual, da quase morte, e “quase” porque na cabeça de quem fez é preciso manter a pessoa viva para recordar dos péssimos momentos. Seria o inferno em Terra. Isabelle corria sérios riscos de figurar nesse rol de traumatizados. 

          Evoluíra bastante daqueles tempos para cá, dá para ver claramente. Gostei de ver. Não precisava que eu aprovasse todos os seus atos e escolhas, o importante é que estava sã e salva e passando por uma vida relativamente boa no Rio de Janeiro. 

          E quanto a mim? O que fiz foi regredir, baseado na busca pelo meu eu interior. É um papo estúpido, mas eu tinha que me envolver em coisa parecida depois que saí da cadeia. Eu podia permanecer na Escócia e reconquistar o pouco dos amigos que fiz, convencer as pessoas de que eu tinha me reabilitado – ou não, já que era difícil deixar de ser eu mesmo –, por fim tendo a Escócia ao meu lado, como foi antes, quando fui anunciado com festa pelos Hibs. E fiz gols, e diverti a torcida com meus dribles, passes e tudo o que tinha direito, e fui ovacionado, e apreciei aquela torcida, que não ficava nada a dever aos flamenguistas e corithianos em matéria de adoração ao time. Não havia o por quê de decepcioná-los. Até porque me pagavam muito bem e eu fazia as vezes de bom-moço, entrando na linha, embora fizesse umas gracinhas no campo vez ou outra. Um dos maiores craques da temporada 2001 da Scottish League Cup, culpado por homicídio, agora recém-saído da prisão após 8 anos, resolvendo mudar de vida e de alma no Brasil, mais especificamente na Cidade-Que-Já-Foi-Maravilhosa, São Sebastião do Rio de Janeiro. Não se sabe por quê, mas o antes atacante do Hibernian F.C. sente-se como o Ronald Biggs dos novos tempos, com a diferença de que fora devidamente condenado e solto, pronto para ter um recomeço lá fora. Vir do exterior como se fosse uma espécie de refúgio, é assim que Robson se sentia. Isso é, após ele conseguir dar um jeito na sua cabeça cheia de culpa e temores do passado. 

          Quem agora teria a pachorra de contratá-lo? 

          Atacante dos Hearts? Dos Rangers? Dos Dundee United? Do Aberdeen? 

          Ou do Flamengo? Vasquinho? Florminense? Curinthia? Parmera? 

          Nninguém. Não acreditaria que fossem me contratar? Aquele goleiro que, dizem, deu o corpo de sua ficante atriz pornô para os cães comerem continuava preso? Havia muito do mundo do futebol brasileiro que eu não sabia, ou melhor, que eu não me importava em saber. Confesso que depois de um tempo, em que depositaram todas as fichas para que eu fizesse sucesso na Escócia, eu não dei uma singela foda para o futebol brasileiro. As coisas aqui, embora movidas à emoção, ainda transitavam em moldes primitivos. Até as torcidas fazem questão de mostrar quão não passam de um bando de macacos. Certo que no Reino Unido os hooligans infernizam até hoje, mas absolutamente nada ultrapassa a macaquice bananeira. Tanto que eu deveria mais era socar um torcedor daqui que de lá. Eles até vaiam quando a bola está na posse do adversário. 

– O que você pensa tanto? – perguntou Isabelle, que retirou o casaco, pondo numa cadeira vaga. O burburinho diminuía, boa a sensação de intimidade naquele barzinho. – Passou por tantas coisas lá fora… se tivéssemos nos visto antes…
– Acho que não rolaria essa química legal, se tivéssemos nos visto antes. Eu era meio ranzinza, agora você me pegou justamente numa boa época, em que deixei quase toda a minha vida na prisão e… bom, ainda tenho pouca, porque o ser humano não é nada sem todas as suas emoções.
– Concordo contigo. Continua muito inteligente – acariciou meu rosto. 
– Tem que ser, né? – peguei sua mão de minha face e a beijei seguidamente. Isabelle corou. Ergui-me da cadeira e fui sentar próximo a ela. Notei que seu rubor aumentou, ela meio que não se aguentava. Abracei-a, ela se mexia resmugando algumas coisas, até que soltei-a. – Desculpe – disse a ela. 
– Eu te chamei de tímido… mas eu sou bem mais que você – disse, baixando os olhos. O garçom chegou e, como um autômato, pôs as primeiras porções da comida na mesa: feijão, uma bandeja oval de arroz com salada de alface e cebola, logo depois teria a carne. Voltei ao meu lugar e me desculpei.
– Pra onde iremos, quando sairmos daqui? – indaguei. Pronto, Isabelle lacrimejava. Tentava conter os tremores de seu corpo, e conseguia, o que não conseguia era disfarçar bem toda a situação. – Se quiser, vamos marcar para outro domingo, amanhã você trabalha e vejo que está meio tensa…
– Não, eu não estou meio… digo, eu estou sim. Eu estava pensando em te levar para a minha casa, ao menos hoje, aproveitando que meus pais foram viajar, eles gostam de você… só não sei se gostariam de te ver em minha casa assim, do nada, sem pedir permissão a eles.
– Como “do nada”? Você fará a minha entrevista e pelo menos eu estou um pouco desconfortável nessa chuva maldita… não é preciso estar tomando chuva e vento para se encher, até porque tomamos bastante para chegarmos aqui. Eu nem tenho carro!
– Hehe, é um bom motivo. Mesmo assim eles estranhariam.
– Veja, como você disse, eles me conhecem. Não teriam problema em trocar um papo comigo ou de finalmente me aceitarem em sua casa. Há um gesto muito bom que fiz no passado, não que eu estivesse fazendo uso da coisa que fiz para reconquistar a confiança de seus pais, mas eles simplesmente sabem que não sou um sujeito ruim.
– Mas eles sabem do que houve na Escócia. 
– Sim, sabem. A mídia daqui divulgou, também. Isso foi inevitável. Mesmo assim creio que estou em alta conta com eles – cortei o contra-filé enquanto Isabelle ouvia estática. – Agora é bola pra frente, e coma seu contra-filé antes que eu coma por você.
– Heheh – ela ria. Tinha uma voz pausada, tranquila e feminina. Ambos queríamos nos encher de carinho. 
– Além de arrebentar na televisão e fazer Jornalismo, tem alguma coisa boa que eu precise saber?
– Sou evangélica – fiz uma cara de interrogação. – Bom, ainda não, estou preparando-me para ser convertida. Frequento uma igreja, uma das tradicionais, há mais ou menos um ano. E me sinto muito feliz por lá.
– Isso é muito bom. Mas isso não quer dizer que vou te perder pra eles de vez, né?
– Hehehe, você é bobo… não vai mudar nada, eu sei bem o que quero, e sei que gosto muito de você, desde pequena eu pretendia te achar, de alguma forma. Quando você foi jogar bola na Escócia, eu juntava dinheiro e tentava ao mesmo tempo convencer meus pais de que valia a pena te visitar. Mas você tornou-se beeeem impenetrável, vamos dizer. 
– É verdade, eu não conseguia fazer a manutenção de meu próprio site, minha assistente quem fazia o trabalho. A Jessica, ela é do País de Gales. Fez uma seriezinha adolescente na Inglaterra e depois disso amargou um ocaso desgraçado. Então a coloquei como minha assistente. E ela ainda continua lá.
– Vocês tiveram… alguma coisa? – Isabelle enrolou a língua para falar.
– Não. Nossa relação era estritamente profissional, digo, tirando a amizade que tínhamos, ela me ajudou em muita coisa. Somos apenas amicíssimos, hehe.
– Você tem cara de que…
– Ah, cara de nada – disse a ela. 
– Onde você está morando exatamente? Eu me esqueci…
– Quer ir à minha casa? Depois do almoço?
– Quero – e corou mais uma vez. Eu ri.

          Após isto dedicamos nossa atenção à comida. Ela comia muito devagar, sabia que algumas pessoas empreendiam métodos rigorosos de mastigar de quinze a vinte vezes antes de engolir – porque não seria depois de engolir, né? -, entre outras coisas. Isabelle podia ser uma destas gurias metódicas. Quanto à sua religião, eu não sabia o que dizer e nem o que pensar. Fez uma escolha que, sabe-se lá porque considerei inusitada, ou então fora puramente baseada no que ocorreu naquela fatídica visita. Lembro que ela amava a Região Serrana, eu também, e achava que se pudéssemos viver juntos um dia, tanto Petrópolis, quando Teresópolis e Nova Friburgo seriam locais perfeitos. E eu não os conhecia como a palma de minha mão, apenas o que? 70% da região? Eu não me aventurei pelo Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Um amigo de longa data passou o diabo tentando estabelecer morada em Petrópolis. Ele já não tinha nada a fazer no Rio, a cidade não fornecia emprego, apesar de todo o bafafá e fama produzida pelo turismo, questão de morar e visitar o Rio era muito diferente. As pessoas padeciam com o desemprego, chegando ao ponto de que sim, vale mesmo engolir todos os sapos do mundo para manter a sua vaguinha. E eu ainda não sabia se Isabelle passou este perrengue antes de arriscar a carreira de atriz. A tal emissora lá paga bem, normalmente inserem os jovens promissores ao seriado do fim de tarde, para depois sedimentá-los nas novelas. Quatro horários de novelas e uma para a série, que é nada mais nada menos que uma escolinha de atores da emissora. Mas são nas quatro novelas principais onde os profissionais têm de mostrar qualé que é. E o meu maior temor, evidente, é o Lado B da emissora. A sua porção sexual exagerada, que na década de 80 envolveu tanto todos os cantos da empresa que uma atriz pediu para sair, outra morreu com AIDS e por aí vai. 

          Vi que até hoje sustentam este esquema, mesmo em menor voltagem. Não duvidaria que com o tempo, ela tivesse de vender seu corpo para algum diretor ou qualquer outro graúdo da emissora em troca de um excelente papel. Assim como era em boa parte do mundo. 

          Tocamos em mais uns poucos assuntos até que ela se calou. Eu também não gostava de falar tanto, ela sabia, Isabella naturalmente cansou e se calou, como eu pedia, mas não queria dizer, porque ela nunca me deixava falando sozinho. Terminou o prato, não deixou nada, raspou tudo. Fiquei feliz por ela, eu ainda acabava o pedaço de meu contra-filé e mais um pouquinho de arroz e feijão. Só faltou dizer-me que terminaria por mim, algo que ela nunca faria, não importaria se fôssemos tão íntimos – e chegaríamos lá! Pediu mais um copo de suco, enquanto eu bebericava o refrigerante. Bebia, olhava para mim e descia os olhos no prato vazio. Também fitava o copo de suco. Não fique tão pensativa, disse a ela, acariciando sua mão, subindo para seu pulso e o antebraço. 

– Provavelmente, seus pais devem ter voltado para casa, não pode dar uma ligada para eles? – indaguei, e Isabelle pegou o celular. Estava com a capa meio molhada, Isabelle ligou e rapidamente fora atendida. “Oi, mãe! Ah, eu estou falando com um conhecido muito especial. Não ‘especial’ no sentido de… advinha quem é? Tá, depois eu digo, quero fazer uma surpresinha… a senhora está em casa? Ah, tá voltando? Vai voltar amanhã? Tá, amanhã então a gente se fala! Não! Não, não pretendo fazer arte nenhuma, por favor… a gente conversa amanhã, te falarei tudo sobre ele! Brigada, tá bom, tá bom. Tchau.”
– Moro em Niterói. Tem problema pra você ir comigo até lá nesta chuva?
– Problema nenhum, por enquanto não tenho pendência alguma, hehe – disse a ela, sorrindo. Devia estar surpresa com minha prontidão em adentrar a sua casa. Sim, estava. Não que quisesse me ver fora de lá, talvez imaginasse que não fosse tão fácil assim chegar nesta proximidade em me ter. Ela estava com o dia ganho. 

          Pagamos a conta, ela tomou a iniciativa de pegar minhas mãos, e de mãos dadas saímos. 

          Como não tínhamos veículo algum, decidimos usar o maldito do transporte público. A chuva não cessara um instante, já pensei em como estaria o trânsito da Ponte Rio-Niterói, não lembrei que devia perguntar sobre isso para ela. Perguntaria “por que você não veio de metrô?”, o que seria uma pequena gafe – já que não tem metrô Rio-Niterói, além de ser domingo, em que podemos passar tranquilos na ponte sentido Niterói. E depois de tanto tempo a encontrei aqui na capital, queimando fosfato com seu teatro, querendo a todo o custo se encontrar, algo assim. Visionária da própria vida. 

          Isabelle recomendou que fôssemos a pé até a Praça XV de Novembro, mas naquela chuva nós teríamos problemas até chegar lá: passando pela Biblioteca Nacional, atravessando a avenida Presidente Antônio Carlos – que até a década de 20 existia o Morro do Castelo –, e descendo encontraríamos a praça, terminal de ônibus municipais e intermunicipais. Chegaríamos ainda mais detonados. Isabelle estava excitada, brincava pulando as poças d’água comigo, até se aquietar quando fomos atingidos por um jato de água suja enquanto passava um ônibus em alta velocidade. Ri, ela não riu, mas quis rir. Tentei convencê-la de que podíamos caminhar toda a avenida Rio Branco até a Presidente Vargas, de qualquer forma o ônibus para Niterói passaria por ali, mas não, ela não quis. Sendo domingo, o centro do Rio assemelhava-se a uma metrópole fantasma, deserta, com poucos veículos – ônibus predominando – e pouquíssimas pessoas. Isabelle disse que caminhar até a Praça XV seria melhor, mais perto. 

– Não acha que vai demorar demais? Acho que você não mora próximo à rodoviária, sem contar que provavelmente teremos de pegar outra condução – disse, e Isabelle sentiu como se ofendida. Estava tudo certinho, atravessávamos a Antônio Carlos, demorou para que eu dissesse isso, hein? – Não se preocupe que eu moro aqui na Lapa, é bem melhor fazermos o caminho de volta e andar mais um pouquinho ao invés de fazer toda aquela viagem.
– Não sei se mamãe permitiria que eu dormisse com você – e quando disse “dormisse” não se referia a sexo. – Apesar de tudo o que aconteceu…
– Não fique se lembrando do que aconteceu – tomei-a em meus braços. Tinha uma respiração bem quente. – Bom, você pode logo conhecer minha casa, não tem praticamente nada, mas é um lugar acolhedor – eu gostaria de dizer “tenho uma cama macia e cobertor quentinho”, mas estaria descarado demais para o meu gosto. Acabou que a menina concordou comigo, e saímos dali em direção à Lapa. 

          Lapa carioca, ao contrário da Lapa paulista, figurava como favorita na lista dos boêmios. Afinal, muitos dos músicos e malandros famosos do Rio de Janeiro fizeram sua “iniciação” ali. Da Lapa para o Brasil inteiro, para o mundo. O point perfeito para zoar nas noites do fim de semana, boa cerveja, uma diversidade cultural e musical que gerava muita fama e grana. Eu costumava achar que ali viviam os últimos esquerdistas de raiz além das pessoas que já não dão mais a mínima para a vida, anarquistas de quarto e gente que trocou os altos salários para viver numa boa, fumando um e se divertindo ao seu modo. Lapa era encrustada na parte antiga do Centro, tendo como ponto principal os Arcos da Lapa, antigo Aqueduto. Porém, por mais que tentem reviver os bons tempos, estes terminaram. 

          Passamos o Passeio Público e o finado cinema Palácio. Chegamos à Lapa, foi atravessarmos o largo e percorrermos a rua da Lapa que Isabelle não tirou os olhos de cima, contemplando as construções antigas, sobrados datados do começo do século XX/fim do XIX caindo os pedaços. A rua da Lapa rumava em direção a Glória e os bairros da Zona Sul, local de pessoas com maior poder aquisitivo. O centro da cidade era totalmente classe média-baixa. Sobrados antigos consistiam no básico para abrigar pessoas de empregos médios. Eu vivia em um. Subimos a Joaquim Silva e fizemos a curva. Minha casa situava-se ao lado de uma igreja evangélica. 

          Isabelle estava nervosa. Peguei minha chave, meti na fechadura e girei. O sobrado na péssima cor salmão, construído em 1901, quando até mesmos os moradores de rua trajavam ternos e chapéus. Enquanto capital do Brasil. Subimos o lance íngreme de escadas, Isabelle segurou-se nos meus braços. Lá embaixo o primeiro andar resumia-se em uma sala vazia com uma poltrona velha, além do banheiro que nunca era usado. O segundo andar tinha uma sala com dois sofás igualmente velhos, televisão, uma cozinha pequena dotada de fogão, geladeira e uma pia espremida na parede, além do banheiro. Um laptop no quarto. Ela notou que havia bastante espaço para pôr as coisas, como se eu estivesse chegado à pouco e estivesse executando uma mudança. Nada melhor que reconquistar o que perdi. Fique à vontade, disse a ela, rapidamente partindo para a janela. Deparou-se com a estreita rua sendo banhada pela chuva. À frente da casa havia um hotel, além de um paredão de pedra à direita e na curva em direção a Glória. 

– Eu gostaria de morar aqui – disse. Mesmo? Não achava aquele lugar grandes coisas. – Quem usa o andar de baixo?
– Ninguém. Este lugar era ocupado por uma rádio comunitária, eles se mudaram e a casa ficou para aluguel. Daí estou pagando. Melhor que viver na rua, pois no Rio quase não existem abrigos para maiores de idade. 
– E em Niterói, você sabe?
– Existe um no Centro, mas eles preferem quem é da cidade. Recebem gente demais de outras praças, se encheram disto, também é um abrigo pequeno. Dão apenas 3 dias para você tomar seu rumo. O mesmo em Petrópolis. Já lá, recebem pessoas de Juiz de Fora. Não sei qual a relação entre estas duas cidades.
– Na Região dos Lagos…
– Não existe nada por lá. Já deu o que tinha que dar, em todos os sentidos – respondi, recostado na parede. 
– Vem cá… não seria melhor ter permanecido na Escócia? Provável que eles podiam te dar assistência, como no Canadá. 
– Agora já era, combinei com minha assistente que não perderia mais tempo. Eu também… tinha saudades daqui. É esquisito dizer isso, já que não gosto do Rio. Mais uma cidade que também já dera o que tinha que dar. Os cariocas votam mal…
– Como em quase todo lugar – aproximou-se, tocando meus ombros. 
– Eles também implicam com quem não conhece, isso não tem em todos os lugares.
– Mas isso se contorna. Eu te disse, te visitaria na Escócia.
– Concorda comigo que este país é um lixo, não é?
– Não, é que lá você tinha tido. Se bem que resolveu torrar seu dinheiro… eu ainda acho isso meio mal contado, sempre achei que você fosse…
– Esqueça, aconteceu. 

          Beijei-a na boca. Isabelle não se moveu para trás, aceitou quando tinha que aceitar. Bateu um vento gélido, e me descolei dela para fechar a janela, voltou a chover com força. Pedi que retirasse seu casaco encharcado e que se acomodasse, pois eu ligaria a televisão e ela podia sentir-se em casa. Falou que estava preocupada com sua mamãe, mas rebati dizendo que estaria tudo bem com ela, e Isabelle já tinha 18 anos, não carecia da mamãe todo o tempo. Estava mais que habituada à convivência familiar, lembro de que era mimada, o que configurava uma pior adaptação às coisas lá fora, à casa dos outros. Como se carecesse de um novo aprendizado, desligando-se pouco a pouco da família para viver sua vida sozinha, ou com outro alguém. Depois voltei atrás, concluí que demandaria muito mais tempo para Isabelle sair da barra da saia da mamãe. Apenas 18 anos, uma vida inteira sob o jugo dos parentes, e quando o pai morreu naquele assalto me deu a certeza de que os laços se estreitaram ao ponto mais insuportável. Não obstante ter amizade com eles, por que deixariam tomar aquela linda princesinha deles tão cedo? Manifestar na imprensa o desejo de ter cinco filhos não quer dizer nada. Se eu não agisse podia passar como mais um homem em sua vida, ela podia chegar ao cúmulo de falar que estávamos apenas ficando, que seu coração bateria por outro, pois não sentia amor verdadeiro por mim. 

          Mas não, não havia chances de ocorrer esta decepção. Ou havia?

          Neste caso, mulheres são mais imprevisíveis. Podíamos ter a melhor química possível, que na hora H ela mudaria de idéia. Como quando você quer aquela garota que há pouco reclamara do ex-namorado, aquele que mostrava o pinto para ela na WebCam. E quando finalmente você a chama para sair, ela assume que ainda gosta do exibicionista. 

          “Ah, a gente não manda no coração!”

          Agarrei Isabelle por trás. Ela tinha uma bundinha e coxas longas, porém não tão grossas. Aproveitei para acariciar sua barriguinha e perder meu rosto em seus cabelos, beijar sua nuca. Há quanto tempo ela não sentia este tipo de carinho? Podia ser muito pior se eu não chegasse a tempo. Eu sei o que traumas fazem com as pessoas, ninguém gostaria de ter sua mente corroída a ponto do péssimo acontecimento mudar por completo seu comportamento, sua vida. Independente de quão a garota é uma gracinha ou feia pra caramba, ter toda a sua vida sexual mudada, seus objetivos e desejos jogados por terra ou para adquirir as vezes de outra pessoa ou para enclausurar-se completamente no pesadelo em Terra. Tornar-se ninguém. A mídia sabe que o pai de Isa morreu em um assalto, mas não sabem que ela estava prestes a ser abusada sexualmente. Haveria o maior cuidado para que, em sua cabeça, eu não emulasse – sem querer – o físico do sujeito que a subjugava naquela tarde de chuva. Caso bobeasse, não importaria se eu fosse diferente daquele cara, de qualquer jeito sua mente travaria. Beijei seu pescoço devagarinho enquanto alisava seu ventre. Peguei-a no colo e carreguei-a até minha cama. 

          Pus Isa para sentar enquanto tirava seu salto alto. Ela nada dizia, eu também não, não queria arrumar motivo para ela declinar. Chovia cada vez mais forte, e um pouquinho de frio invadira a casa hermética, calor não fazia de modo algum, o banheiro não fedia, tampouco a cozinha. Tudo nos conformes. Um tanto hesitante, tirou sua calça, alisei suas coxas, ela estremeceu com minhas mãos frias. Sua pele macia dava mais carga para minha excitação. Cheguei junto e nos beijamos, Isa ficou só de calcinha e sutiã brancos, longilínea Isabelle, linda e de pele reluzente até mesmo naquele escuro – que ela pouco se lixava. Tirei minha camisa e a calça, ela fitava meu membro com os lábios comprimidos, a mente fervilhando, talvez em dúvida. Está certa disso? 

          Isa deitou sobre mim. Seus cabelos derramaram-se no meu rosto, cobrindo meus olhos, vez ou outra via os seus, sua boca beijava a minha, colada, arriscou meter a língua, eu adorava aquele peso leve e macio, abracei-a, meu membro cresceu – e eu não tinha tirado a cueca –, querendo a todo o custo sair para fora, roçando na frente da calcinha da mulher. Sou o homem certo para a sua primeira transa. Ela deve ter rachado a cuca para chegar a esta conclusão.

– Você ainda é virgem? – indaguei.
– Sim… mas você é a pessoa certa. Eu estava te esperando – respondeu. 

          Tá aí. Algo que eu não esperava de ninguém – se bem que ela não pulou fora quando disse que torrei minha grana. Também deixou claro que suas palavras não envolviam o menor resquício de arroubo juvenil. Para a minha alegria, Isa cresceu antes do tempo. Pôs a língua em minha boca e me apertava, pondo todo o peso de seu corpo sobre mim, abriu as pernas e deixou sentir meu pênis. 

– Vou pegar um preservativo – disse a ela. Estava em ponto de bala, eu não demoraria muito. Saí da cama e corri até a mesa onde estavam minhas poucas coisas. Vasculhei tudo freneticamente à cata da camisinha, espumava com a pressa, desarrumava tudo, acabei não achando. Tomei um susto quando Isa brotou em minha frente, tendo uma camisinha entre os dedos indicador e médio, dando aquele sorrisinho maroto. Peguei, retirei a embalagem e pus em meu membro ereto. Isa estava na cama, engoliu seco quando viu meu pênis endurecido, sequer tirou o sutiã, e tive de tirar para ela. Imersa em timidez, moveu sua mão até meu pênis, e primeiramente tocou a cabeça, para depois descer no tronco. Estava curiosa. Não perdi tempo: enquanto ela brincava com ele fui tirando seu sutiã, e no que tirei deparei-me com seus peitos pequenos para médios. De lado, beijei e chupei os mamilos, ela tentava se desvencilhar do meu dito cujo, mas não conseguia, tinha de ter algo para fazer. Até que nos colamos para iniciar a penetração: olhos nos olhos, corpo sobre o seu corpo, boca a boca.

          Pus o cobertor em minhas costas. Penetrei com carinho e calma. Isa ficou tensa, do nada almejava espaço, mas eu não a tirava debaixo de mim. Com o tempo se acostumaria, eu não gosto de separar tanto os corpos na hora do sexo. Isabelle tremia como vara de bambu, tentei obter maior controle sobre seu corpo, mas naquele momento era mais forte que eu. Estava querendo explodir, mas como? Estava tão gostoso, ela gemia baixinho, suas mãozinhas pendiam para a superfície, suas pernas tentavam manter-se estáticas, e não conseguiam, ora seus joelhos dobravam, ora desciam, eu me concentrava, olhava-a a bem nos olhos, beijava a sua boca, sua língua perseguia a minha, mas não como antes. 

– Eu não quero mais…

          Faltou pouco para eu gelar de frustração. Previa que Isa desistisse, e sussurrei “vai passar, já vai passar, só mais um pouquinho”, fiz um chiado apagizuador, mas não parei de penetrar. Ela envolveu-me com suas pernas – como que reabilitada do medo – e já chegávamos ao final. Seus gemidos tornaram-se maiores, pressionei mais rápido e… bingo! O bendito do orgasmo. Juntos. 

          Isabelle desmanchou-se, engoliu seco e suava um pouquinho. Beijei seu rosto e enxuguei sua testa redonda, olhava para mim com uma ternura esforçada, algo semelhante a ter saído de uma maratona ou de uma batalha. Sua tensão amainava, disse “ai, você tá jogando todo seu peso em mim…” e abri as pernas, pondo o joelho na cama e apoiando o resto do corpo. Alisou minha face, passou uns minutos olhando-me sem dizer palavra. Ela pensava bastante sobre o que seria de nós a partir dali. Seu peito ia e vinha, toquei ali, beijei-o, me abraçou, enganchou-me mais uma vez com suas pernas. Daí começou a chorar. Isto eu não previa. Por que chora, amor?

– Adoro você.
– Você me ama? – perguntou, séria. Desta vez eu quem engoliu seco. 
– Sim, amo você. 
– Vamos ficar juntos até o fim. Para sempre.
– Isso mesmo, ficaremos juntos para sempre – e beijou-me mais uma vez. 

          Isabelle permaneceu unida comigo por uns quarenta minutos, antes de eu me cansar e levantar-me. Não fez objeções, sequer moveu-se por completo, apenas moveu o braço para juntar mais o cobertor para si. Não fiz aquele ato de sentar-me à beira da cama, pensando nas juras de amor que esta garota obrigou-me a fazer. Num momento tão importante – para ambos – como este, melhor seria fazer tudo o que aconteceu, sem frustrá-la, para que no futuro o golpe gerasse menor dano. Mas eu gostava dela, e muito. Estar a sério com Isabelle e de quebra receber o aval de sua mãe seria o passaporte sem volta para a estabilidade financeira – ela não sabia, mas eu tinha muito dinheiro – e sua mãe já praticaram sua própria absolvição, pondo seu julgamento no mesmo patamar que do Júri. Não que realmente eu precisava delas, caso fosse verdadeiramente um pobretão debruçaria-me sobre as duas dizendo sim a – quase – todos os seus ditos. Tendo Isabelle e com a iminência da grana na mão, todos ficariam felizes. 

          Chegara em um estágio de fazer inveja a qualquer babão ou fã. Sabia que Isabelle namorou um tempo com um moleque daqueles de cabelo lambido, boné estiloso, bermuda, dotado de uma intelectualidade desprezível. Anos depois adquiriu conhecimento e adquiriria mais estando comigo. 

          O problema é que não estava em meus planos ficar com ela até o fim – por isso o “… para que no futuro o golpe gerasse menor dano”. 

          E por que não investir nesse relacionamento? Eu ajudaria com minha presença, meu… amor, Isa sempre teria-me em sua cama, mas minha ajuda passaria disto. Quanto a ela, estava certo de que depositaria – até demais – todo o seu amor, seu carinho e etc. “Quero ter cinco filhos”. Sim, eu também quero ter cinco filhos. 

          Tomei um banho. Levei um susto quando Isa brotou da cortina de plástico. Nuazinha, apesar disso devia estar morrendo de constrangimento por dentro. Conseguiu se segurar, disse “posso me juntar?”, e por que eu faria objeções? Ela entrou, exclamou “que aguinha quente!”, rindo abertamente, abraçou-me, criticou minhas parcas escolhas para xampus, tentou deixar o clima o mais descontraído possível no box do banheiro. Eu gostei desta mudança, mas de olho na conta d’água, deixei o chuveiro desligado a maior parte do tempo, em especial quando nos ensaboávamos. Sentia vergonha quando eu ensaboava seu corpo. Desandou a tagarelar, eu não dizia muita coisa. Contava nos dedos para que me achasse chato naquela hora tão oportuna para ela. 

          Eu só tinha uma toalha, ela secou-se primeiro. Depois tinha fome, antes já tinha dado uma verificada em minha geladeira, viu que não tinha muita coisa. “Sem galho, quer que eu compre algo pra gente?”, perguntou. 

– Nessa chuva? Eu tenho alguns biscoitos aqui – abri o armário instalado em cima da pia. Os biscoitos ainda estavam na validade. 
– Não se preocupe, eu vou num pé e volto no outro – respondeu rindo. E foi.

          ISABELLE CONTA QUE ESTÁ SOLTEIRA
          ISABELLE VIVE UMA FAXINEIRA EM NOVELA

          Ao contrário da maior parte destas atrizes-mirins, Isabelle não tornou-se uma gostosona com fotos figurando sites e blogs sobre a fachada de “ELA CRESCEU!”, algo assim. Seu corpo não permitiu, muito menos sua vida pessoal, combinada a personalidade bastante reservada. Não seria uma novela das sete que ela seria “aberta”, ou seria? Relacionando-se com as demais atrizes não custaria muito para ser… desmanchada com o tempo. Chegaria o dia em que, caso realmente ficássemos a sério, de eu implementar um ultimato. Será que ela teria coragem de encerrar sua carreira de atriz por minha causa? Desta vez não seria apenas um teste, envolvia decisões que tocariam o resto da vida, e como estava apaixonada por mim minha proposta teria grandes chances de vingar. Teria muito a perder com isso. Faria amizade com outros caras, se encantaria com demais personalidades, eu podia contar os dias para ser rejeitado. Umas discussões, coisas como “você não entende”, “ou isso ou eu”, previsibilidades sempre utilizadas. Por mais que acatasse minha decisão Isa daria para trás mais cedo ou mais tarde. Não queria me perder, me prenderia por uns tempos até se encher. Eu também não teria sangue de barata para aceitar tudo o que me pedem, perdendo todas as boas oportunidades profissionais em troca. Seu primeiro gesto de confiança fora transar comigo. Encontrou mesmo o cara certo, porém, sem a certeza de que manteríamos esta união até o fim. Tanto eu quanto ela podíamos declinar e cair, consequentemente levando o outro junto. E a relação estaria alquebrada e depois gangrenada. Destruída. E Isa era delícia demais – no conjunto  – para ser fustigada por mais um trauma. 

          Sentado na cama, abri o laptop. Abri meu e-mail. Antes que recarregasse escutei um grito, semelhante a um balido de cortar os tímpanos, vindo de fora. Deixei o laptop de lado e corri até a janela, abrindo-a. A chuva cessava, houve um freio doloroso dum carro, e ao esticar o pescoço para ver o que houve justo onde o carro parou, meu sangue gelou: Isabelle estava estirada numa poça d’água, de bruços, estática, o guarda-chuva rolando à ação do vento, homens saindo do carro para socorrê-la. 

          Havia um poste ao lado dela. EI, NÃO CHEGUEM PERTO, NÃO CHEGUEM PERTO!, gritei. Desci as escadas e abri a porta, Isa mal saíra da casa. ELA TOMOU UMA DESCARGA ELÉTRICA, ME DÁ O CELULAR, VOU CHAMAR A AMBULÂNCIA, um dos homens me passou e liguei para a emergência, comunicando o local onde ocorreu o acidente, observando Isa todo o tempo. Dera umas tremidas, os olhos tentavam orbitar, mas não saíam do mesmo lugar, fitando o chão. Obviamente ninguém chegou perto. 

          Isabelle morria e eu não conseguia chorar. 

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Isso eu achei legal, mudaria uma coisinha aqui e ali, sem contar que o clima não tá tão forçado quanto o do primeiro texto. Não obstante eu tô num impasse e não sei exatamente o que fazer. Cheguei num ponto da história em que ele briga com o sujeito que se correspondeu por 8 anos dentro da cadeia (lá na Escócia, a HMP Addiewell, que realmente existe, podem pesquisar), e o maluco se revela um fanboy dos beats, além de um protoescritor que odeia críticas. Tem uma filha de 12 anos, a Isabelle (a história acima se passa 5 anos depois), a mesma Isabelle que o reencontra nessa praça do Rio de Janeiro, a Cinelândia (que obviamente, conheço de cabo a rabo).

Tenho anos para resolver isso, mas quero publicar “Nirvana” em 2013, antes de resolver minhas questões com a editora do “Homem de Lata”. Verei se tomo a decisão certa quanto a estes textos acima, se eu boto o Robson já no Rio, ferido pela bomba, encontrando-se com Isabelle e se esforçando para não vomitar na mesa do Amarelinho, etc.

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