Livro Nirvana

Essa MARAVILHA seria a versão do livro “Nirvana”, o primeiro capítulo, mas desisti porque estava um lixo. Sabe como é, você trabalha a semana inteira, armazena um monte de idéias e, no fim de semana, trata de despejar tudo isso no papel, digo, computador.
 
Só fiz este trechinho, leiam esta coisa magnífica.

A conclusão das férias

ROBSON não dormia há uma semana. Fim de sua condicional. Chegava o dia da libertação, e como qualquer pessoa em sua situação ele estava tenso. Em contrapartida esta última semana foi a mais calma possível. Não dá para comparar estes poucos dias com os oito enclausurado. Achou que a condicional chegara tarde, mas sua trajetória como preso não foi tão traumática quanto pensava que fosse, no começo. Conquistou simpatias, usou de sua fama para espremer suas regalias até cansar. Não que “regalias” fossem tão abusivas e revoltantes para quem tinha a situação como mais da mesma. Para alguns Robson merecia por ter feito muitos escoceses felizes. Uma celebridade, alguém que boa parte solicitava uma recomendação, um conselho, a palavra final. Em muitas ocasiões ele pouco se lixava, mas tinha a ciência de que seria difícil eles engolirem seu desejo em querer estar sozinho, e sozinho a maior parte do tempo. Era um rato de biblioteca. Quando o mau tempo não ajudava e na hora da recreação todos se metiam em suas celas Robson lia e relia os livros que devorara do começo ao fim. Mesmo sendo celebridade ele não escapava do ócio, a liberdade condicional chegou bem tarde, mas em hora oportuna para ele.

O último dia. Nenhum de seus queridos amigos pré-cadeia sabia de suas atividades lá fora, o que julgou ser bom, pois achava que, com o retorno deste pessoal em sua vida bastaria pouco para que toda a avalanche do passado viesse à tona. Não que temesse alguma coisa. Ele só queria mexer em coisas novas em sua vida. Ao mesmo tempo em que qualquer um destes antigos queridos, mesmo que soubesse de seu plano, faria ruim julgamento dele. Ponderou sobre isso.

Os primeiros dias de condicional bateram feito marreta em seu coração. Se sentia um novo milionário. Havia muita coisa a descobrir. Bola pra frente. Baseado nisso ele sequer tencionou passar em sua antiga casa, não se deu o trabalho de dar um “oizinho” para os colegas que deixou lá fora. Mas eles nem devem se lembrar de mim, faz oito anos, pensava, estou fazendo até um favor em não me meter nas suas vidas, quem gostaria de lidar com uma presença inconveniente como a minha? Ele mentia para si mesmo, pois normalmente não teria problema algum em falar com eles e agir como o amigo de antes. Jessica podia pensar: “além de não querer dar satisfações, ele teme as nossas preocupações”. Mas é claro. Quer queira, quer não, foi arrumar outros pra se preocupar com ele!

Segunda-feira, três de dezembro de 2011. Como Robson não dormira na última semana seus colegas de trabalho viam a diferença de desempenho em seu trabalho. Basicamente um Robson ou qualquer outro bem dormido e bem alimentado produzia mais, e nem a excitação conseguia mascarar seu abatimento, o cansaço acumulando e os passos vivos dando lugar a pisões arrastados, corpo curvado e cabisbaixo, ou seja, dava de bandeja motivos para que se preocupassem. Mas tratava-se de “gente nova”. Porém, o que faria quando enjoasse ou passasse por mudança tão significativa quanto a prisão e a obrigação de manter-se preso – excluindo sua participação na vida dos entes queridos? Arrumaria novos substitutos? Deu um tempo no ritmo, tirou o gorro de cozinheiro e foi para o refeitório. Me dêem só um tempinho, disse, em forte sotaque inglês. Não era hora do almoço, o relógio marcava 5:17pm, quase ao término do expediente. Dois colegas o fitavam da porta de plástico transparente e cochichavam. Viu-se numa situação embaraçosa, meio idiota. Lembrou que o Super-Homem escrito pelo Grant Morrison, que é escocês, teve de soterrar literalmente o perfil de Clark Kent para ressurgir como Johnny Clark, e isso para não ser descoberto, tampouco machucar seus entes queridos. Robson julgava-se mais um egoísta que qualquer outra coisa.

– Rob – disse um ruivo, que se aproximou timidamente. – Tudo bem com você, cara?
– Não, não estou bem. Devo ter comido algo estragado – respondeu Robson. –, vai ser difícil esperar sair o pagamento pra comprar algum remédio.
– Não seja por isso, não sabia que isso também era o problema – disse o ruivo, tirando umas libras do bolso da calça branca. Entregou a Rob, que teatralmente hesitou em pegar. – Ah, deixa de manha, você sabe que a gente sempre se ajuda aqui. Você já me ajudou um dia, temos que ser unidos, né? Vai, pega.
– Tô te devendo essa, então – pegou as libras.
– Que devendo, o que, não se preocupa – disse o ruivo, sorrindo. – Eu vou voltar, porque tenho que terminar a coisa lá, pode deixar que eu faço a sua parte, certo?
– Certo, e obrigado – desvencilhou os olhos do ruivo antes mesmo que este abrisse a porta de plástico. Tinha o seu próprio dinheiro, não carecia do dinheiro dos outros, mas achou que ganhar mais dinheiro era sempre bom. Ele não tinha uma amizade sólida com o ruivo, que, de alguma forma interessado nele, sempre tomava a iniciativa em convites para sair com o grupo de funcionários, entre outras coisas, enquanto Robson quase sempre queria manter-se destacado dos demais. Acostumou-se a apenas o pessoal da HMP Addiewell, a unidade prisional situada na vila Addiewell, não tão distante do centro de Edimburgo. E nem tão distante do primeiro lugar em que viveu, logo após pôr os pés na Escócia.

Foi difícil ele não rir do ruivo. Este devia estar tão carente de amizade que, caso Robson abraçasse a relação amigável que o ruivo jogava nele, bem podia se aproveitar das “benesses”: conhecer família, seu dia-a-dia e os demais amigos, de fato arrumando mais gente para se preocupar. E os benefícios que isto traria. Pois sempre existiam os benefícios. Alguém para “inteirar” o seu dinheiro de passagem, alguém para te ajudar com conselhos, mesmo que estes soem inadequados. Alguém para te apresentar a sua futura namorada. Alguém para te convidar para tomar uma cerveja na Leith Walk. Alguém para custear seu funeral. Pensando bem, ter novos conhecidos conferia mais benefícios que malefícios. Porém, isso ia de encontro à renúncia aos antigos amigos. Robson podia tanto continuar seu coleguismo com o pessoal da fábrica quanto retomar a amizade com os antigos. O temor da preocupação não significava nada perante… aos benefícios, como visto, não necessariamente materiais. Caso quisesse continuar sozinho não havia problema algum com isso. Mas ele não queria. Não “sozinho” da maneira mais seca e veemente possível.

A fábrica de sobremesas situava-se na comunidade Deans, em Livingston, cidade há 13 milhas (21 km) de Edimburgo. Na Hounston road, próximo à estação Livingston North. Trabalhava das 9am às 6pm. Todos os seus momentos de descanso eram feitos do lado de fora, após a comida, evitando conversas longas, tanto por reclamar tranqüilidade no descanso quanto por se achar um imbecil ao falar muito. Cada vez mais ao se questionar sobre a decisão de colocar gente nova em sua vida, acrescia aquela vontade em querer saber sobre seus antigos amigos. Curiosidade. Como eles viviam? Certo que se voltasse ele seria castigado. Um sermão por se deixar sumir nestes últimos e cruciais anos. Por ter recusado as visitas de Jessica, justamente ela, alguém que o amava até demais, e baseado na busca de novos conhecidos. Ela podia matá-lo e ele compreenderia isso. Daí ela desistiu. Missão cumprida? Uma pessoa tão forte quanto ela, desistir? Devia estar armando uma emboscada para ele.

Ao invés do tal remédio, compraria pastilhas sabor laranja. Caso o ruivo reclamasse – de forma mais gentil possível – a compra do remédio Robson podia dizer que ingeriu o comprimido e jogou fora a embalagem. Não, o ruivo estava tão embebido em seu dever de ser um amigão que sua mente não tinha espaço para desconfianças. E comprou as pastilhas. Ele dormiria naquela noite, não queria afastar até quem quisesse perto. Voltando para a fábrica não voltou mais à labuta, e como o expediente estava terminando ele aproveitou para tomar um banho e enrolar um pouco no vestiário. Pouco a pouco os demais funcionários deram o ar de sua graça, incluindo o ruivo, que como Rob previa, foi direto a ele, perguntando “você está bem agora?”

– Estou melhorando, remédio não age assim tão rápido – respondeu Robson.
– Ah, que bom – disse o ruivo, desferindo tapinhas no ombro. Rob odiava ser tocado por muito tempo. – No próximo fim de semana vamos para Glasgow, a Ginny vai tocar no Salão de La Patrie. Convidou a gente, você topa…
– Se esqueceu que só saio da prisão para trabalhar?
– Mas hoje foi seu último dia, certo? Amanhã você vai ser liberto, então, se você quiser… não sei se vai permanecer nesse trabalho.
– Você é uma bicha?
– O-o que? – perguntou para o ruivo, e este estremeceu. Robson estava sério e suas palavras ecoaram no vestiário, chamando atenção alheia.
– Você ouviu o que eu perguntei – ergueu-se Robson, abrindo o seu armário. – Falo isso porque não quero bichas querendo minha atenção. Se fosse mulher, tudo bem, eu agradeço a sua ajuda, mas não pense que só porque aceitei seu dinheiro pra comprar o remédio que eu quero algo com você além de coleguismo. Não espere nada de mim, tá sabendo?
– Espere um pouco, eu te ajudei porque te vi… você estava passando mal – logo o colega de trabalho que falava com o ruivo (enquanto viam Rob estafado no refeitório) interveio. – Me desculpe, me desculpe mesmo se fui inconveniente contigo.
– Ele só queria te ajudar, da Silva, por favor – disse o outro, tocando em seu ombro. – Não seja grosso.
– Tá certo, tá certo – Rob pegou sua roupa e foi se trocar num canto, destacado dos demais. – Só preciso de um espaço, tá legal? – vestiu-se, pôs o uniforme no armário e o trancou. Saiu sem dizer mais uma palavra.

Carecia de uma cerveja. Estava cansado que o chamassem de “Da Silva”, mas era seu sobrenome. Ele não estava no Brasil, para que o chamassem pelo primeiro nome tão facilmente. Também, sequer era amigo deles. Tratava-se de alguém arredio, e que cumpria sua jornada para ter uma grana quando saísse da cadeia, certo? Sua atitude há poucos minutos fechava as portas da paciência alheia, contudo, tinha jeito de mudar. Cumpria um bom comportamento na prisão, fez com que todos passassem a esperar o melhor dele, não podia pôr tudo a perder. Saiu da fábrica e antes de parar num bar lembrou que uma das condições de desfrutar da condicional é não beber. Havia diversas outras opções. Chegou próximo à estação de Livingston North e pediu suco de laranja bem geladinho.

Não perdeu tanto tempo e rumou ao ponto onde pegaria o ônibus da linha 26 (Livingston Deans – Fauldhouse), levando uma hora de viagem até chegar na Station Road. Dormiu na maior parte da viagem, os motoristas já se acostumaram com ele. Caminhou do mesmo modo arrastado até a HMP Addiewell, o presídio, e ao chegar passou por revista e jantou até finalmente ser conduzido à cela, onde deu uma olhada na beliche. Dormia na cama de cima, há muito a cama de baixo estava vazia. Não se deu o trabalho de subir a escadinha de ferro, desabou na cama de baixo e dormiu.

Robson não acreditava que sonhos pudessem dizer algo, prever o futuro ou qualquer coisa do tipo, mas nestes últimos dias ele esperava ser surpreendido. Queria saber o que enfrentaria, já que parte dos acontecimentos futuros dariam o ar de sua graça pelo o que ele deixou plantado antes de ser preso. Não que houvesse muito o que resolver, que tivesse aborrecido tanta gente além da família de sua vítima. Deles ele já esperaria algo. Só não tiraria a prova, não procuraria sarna para de coçar. Almejava a mudança e o desapego total ao passado. Isso não queria dizer que tanto seus antigos amigos quanto desafetos respeitariam sua decisão.

Não conseguiu se despedir de todos. Não sonhou. Não obstante as sete noites passadas em claro seu sono estava leve, como sempre acordava com qualquer coisa, e quando acordou foi por causa do frio, que se intensificava hora a hora. Avistou flocos de neve caindo da janela. Já não adorava mais a neve, que revestia Edimburgo com uma beleza que Robson julgava ser maior que um Rio de Janeiro ensolarado, uma contraparte perfeita, não por ter enjoado desta visão, é porque se combinava mais com o frio. Por isso houve o empenho em se acostumar com a atmosfera escocesa. E o sonho, que não mostrou nada, sequer apareceu.

– Da Silva! – gritaram. Robson saltou da cama. Havia um guarda na porta da cela, girando um molho de chaves. – É hora de sair, jogador. Tá tudo pronto.

Rob sorriu. Deu uma espreguiçada e juntou as coisas. Girou a torneira e lavou o rosto, trajou suas roupas comuns e foi acompanhado ao refeitório, onde tomou um café da manhã rápido antes de se apresentar para assinar um documento. Não se encontrou com o diretor, um dos funcionários, Eric Anderson, cumprimentou-o e disse “espero que você se aprume e tenha uma vida melhor que antes, meu caro. Que não volte aqui tão cedo. Pretende voltar a jogar?” Não sei, respondeu Rob. Mande um abraço pro Wolfe, se bem que ele não está mais aqui. “Tenho toda a certeza que ele detestaria isso”, disse Eric, rindo. Robson ajeitou sua bolsa de viagem no ombro direito e se foi. Não havia tempo de se despedir sentimentalmente. Culpa da condicional.

Enquanto saía dos limites do presídio, deu uma boa olhada no prédio azul – contrastando com a pintura branca predominante – gravado na fachada em vertical HMP ADDIEWELL. Não nevava tanto, o que não queria dizer que não fazia tanto frio. Robson vestia duas blusas de manga comprida sob um casaco de lã vermelho, e ainda assim estremecia feito bambu. Luvas de lã e botinas de couro. O pinto encolhia de igual maneira, os dentes tiritavam, e foi inevitável não passar pela cabeça o desejo de voltar à prisão para se esquentar. Agora já era. Bom comportamento, liberdade condicional, prisioneiro exemplar, nem mesmo um assassino como o alemão Günter Wolfe quebrou o bom andamento das coisas. Wolfe, nos últimos meses, queria porque queria estuprá-lo, mas após levar tremenda surra de quem seria sua vítima, tratou de se vingar, e muniu-se de faca artesanal. E foi subjugado mais uma vez, no pátio, e mandado à solitária. Depois foi transferido. Agora um pouco de ação esquentaria as coisas. Rob riu só de pensar em se engalfinhar com alguém mais uma vez.

Pegando a Station Road riu mais por confirmar-se a hipótese de não ter ninguém esperando por ele, a Station Road estava branca e aparentemente vazia.  Já liberto, ao nervosismo se dissipou, mas por pouco tempo. Por hora, estava tão tranqüilo que sequer virou a cabeça, à procura dum conhecido, dum fotógrafo, alguém que baseado em seu passado iria arrancar uma lasca sua. Eles cansaram, só que não se surpreenderia se voltassem, até que gritaram o seu nome.

– Da Silva! – o guarda de novo?, pensou ele. Claro que não, é uma voz feminina. – Ei, Da Silva!

Então, virou-se.

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