Confissões de Adolescente

Primeira vez que ouvi falar sobre “Confissões de Adolescente” (não as confissões dos adolescentes, e sim o nome da série e o nome da peça originária do livro, no começo dos anos 90, quando o mundo ainda não era uma merda sem salvação), eu era totalmente alheio a qualquer coisa relacionada aos jovens, naquela época era difícil encontrar qualquer programa relacionado aos jovens – a TV Cultura, um dos canais menos assistidos da TV Aberta –, a lenda “Confissões” em si foi criada antes de “Malhação” – a série global com quase 20 anos de duração – então é quase óbvio que essa geração Youtube não sabe nada sobre isso, a não ser consultando no Wikipedia. Ou dando uma busca no Google, como normalmente fazem. A verdade é que ninguém se importa.

                                                                  PRIMÓRDIOS

Porém, com a situação totalmente diferente de 20 anos atrás, quando o que mais temos na internet e na televisão são séries de adolescente – mentira, ao menos o que mais temos na internet é pornografia –, tanto boas (“Freeks and Geeks”), antes boas que viraram uma merda (“Skins”) e as ruins (“Malhação”). A impressão, não, a impressão, não. A CERTEZA foi que a psique da sociedade, especialmente dos adolescentes, atrofiou com nesses 20 anos, e com isso a criatividade dos roteiristas dessas séries. Roteiro ruim que os adolescentes hoje engolem, as temporadas recentes de “Malhação” não foram abandonadas pelo público, é muito difícil a Globo não adquirir ao menos a pontuação básica de sua audiência, exemplo, 15 pontos é pouco para eles, gerando aborrecimentos (1 ponto equivale a 60 mil domicílios ligados), o que para os demais canais, especialmente os de terceiro escalão, é muito. Na TV aberta, a Globo não tem concorrentes.
Não que há décadas atrás fosse diferente e hoje, com a internet, nossa “obrigação” em assistir a Globo diminuiu drasticamente. O “Confissões” enquanto série foi dirigido por Daniel Filho, um dos diretores atrelados à Globo Filmes mais produtivos – quantidade não é sinônimo de qualidade – destes mesmos últimos 20 anos. Aliás, o que não faltam hoje são filmes brasileiros nos cinemas, geralmente comédias bem ao estilo dos famigerados programas “Zorra Total” – de novo, um produto da Globo perdurante no ar por anos e anos a fio –, que até as pedras de Marte sabem que é uma merda. Mas tá lá, sempre arrecadando um pedação de audiência. Acaba que para muitos é um “mal necessário”. A série “Confissões” não era assim, muito pelo contrário. Com atuações realistas e tocando em tabus da época, que hoje não significam nada, foi uma das melhores séries exibidas na televisão brasileira.

A SÉRIE. A VERSÃO QUE VALE.

          Eu sempre achei que música e culturalmente falando o Brasil virou uma verdadeira merda a partir do sucesso de “Garota Nacional”. Tu não?
E de ser visto e apreciado por poucos, “Confissões” tornou-se cult, além de aproveitada posteriormente em 2010, com uma nova versão teatral escrita por Matheus Souza e Clarice Falcão. O fato de Daniel Filho ter voltado à direção da marca em uma versão TARDIA para cinema deu a impressão de que seria uma produção legal, obrigatoriamente atrelada às dúvidas atuais da adolescência – que, do primeiro beijo e da perda da virgindade pulou para o aborto e os prós e contras da exposição nas redes sociais –, mas não. Basicamente faltou coragem pro cidadão.

CONFISSÕES NO TEATRO EM 2010. UM COLÍRIO SÓ.

De volta com o drama das quatro adolescentes e o pai solteiro, o universo de “Confissões”, como disse, faz questão em mostrar-se atualizado. E dá-lhe amostragens de páginas e ícones do Facebook, das baladinhas adolescentes – sim, existem noitadas próprias para os mais jovens – de idas e vindas em relacionamentos… Ontem, as personagens de Deborah Secco, Daniele Valente, Maria Mariana e Georgiana Góes eram envoltas em dilemas e situações que, vistas pelos jovens de hoje, seriam tomadas como piada. Na versão atual, Daniel Filho e Cris D’Amato perdem tempo enfocando um assunto detrimento de outro, embora as quatro personagens (interpretadas por Malu Rodrigues, Sophia Abrahão, Bella Camero e Clara Tiezzi) sejam justamente inseridas na história. Ou seja, você tem peitinhos, mas você não tem a solução de tal assunto que te perturba a porra do filme inteiro. Você tem humor, algumas vezes até bem explorado – como a zoação para cima de “Crepúsculo” –, mas tem diversas demonstrações de roteiro preguiçoso e resoluções politicamente corretas, especialmente na seqüência final.

CINEMA, COM A GALERA ANTIGA E ATUAL. DIFERENTES EM TUDO

          Logo, ante um tratamento vagabundo mas tecnicamente bonito, é difícil não dizer que trataria-se de uma “Malhação” mais liberal, já que aqui não temos ninguém pagando uma rodada de suco pra galera.

As atuações das quatro meninas vai do razoável (Sophia Abrahão, insossa mas gostosa) ao ótimo (Clara Tiezzi, uma das melhores da nova geração), sobrando até pros terciários, como a Bruna Griphao, a melhor deles. Clara e Bruna estão no ar nesta temporada atual de “Malhação”. O até esforçado Cássio Gabus Mendes, no papel de pai das meninas, nem de longe se aproxima de qualquer resquício do bom fracassado interpretado pelo Luiz Gustavo na série. Tanto Sophia quanto Bella Carmero participaram da última versão teatral junto com Carla Diaz e Clarice Falcão. E é óbvio que as atrizes antigas fazem uma ponta, mas fora Deborah Secco, a Maria Mariana, Giorgiana Góes e Daniele Valente são mal aproveitadas em papéis toscos e dispensáveis. Exemplo: apesar de ter feito não sei quantos episódios da série antiga, vou ser presenteada com um papel de professora de educação física, e com apenas 2 minutos de aparição. Ou seja, vá tomar no cu, Daniel Filho. 

No fim das contas, valeu a tentativa. Tem seus méritos, mas em razão da lenda que se gerou há quase 20 anos, poderia ser um filme muito melhor, não sendo corrido, tampouco reprimido. Joga na sua cara a futilidade adolescente atual, que se reflete na futilidade do próprio tratamento dado ao filme. Só resta aguardar a próxima versão, longe das mãos de um profissional que tornou-se, com orgulho, o diretor mais “oba-oba” do cinema nacional.
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