[Livro] Crime, de Irvine Welsh

Irvine Welsh é um escritor de meia-idade com uma mentalidade relativamente jovem, que até pouco tempo era tachado (e provavelmente tachado a si mesmo) de preso em um estilo até apreciável a jovens entusiastas duma literatura mais marginal ou que enfocavam situações marginais. Como deixou bem claro, Welsh é filho do proletariado escocês (de Edimburgo), ex-morador daqueles blocos de apartamentos que se assemelham aos paulistanos CDHU, abrigando tipos “problemáticos” à burguesia local. A meu ver, o pobre em si é mais interessante que o rico, especialmente em matéria de contar histórias, qualquer um pode medir o conhecimento de vida e os percalços que o pobre e o rico passam no dia-a-dia e veríamos quem encheria um romance ao menos instigante. E abordando, como disse, situações marginais Welsh criou sua carreira na literatura.

Este também diretor de curta-metragens e dramaturgo é um dos inúmeros filhos “ilegítimos” de Dostoievsky e Louis-Ferdinand Céline, o careca de olhos azuis ganhou reconhecimento a partir de seu romance “Trainspotting” e mais especialmente, do filme que se seguiu, dirigido por Danny Boyle (ainda um dos diretores mais interessantes da atualidade). Forneceu mais romances e coletâneas de contos até que, particularmente devia ter se cansado de bater a todo o momento nas mesmas teclas, a expandir um tema na qual é mestre em abordar para julgar-se mais sério tanto para quem o acompanhava desde muito tempo a quem o conhecia agora.

Este “Crime” toca num dos assuntos do momento da época em que foi publicado (2008), a pedofilia. Ray Lennox, também personagem do romance “Filth” (cuja versão em filme foi lançada) sai da Escócia e tira férias em Miami junto com sua esposa fútil, Trudy. Contudo, as coisas não saem bem quando ele se envolve com as mulheres erradas, uma delas mãe de Tianna, uma garota aliciada por uma rede de pedófilos. Logo se torna difícil Lennox confiar em qualquer pessoa…

No posfácio da versão brasileira, Welsh diz que fez um trabalho extenso de pesquisa e entrevistas (algo que de fato torna a obra mais verossímil), como tratando-se de um assunto relativamente novo (“relativamente” porque nunca li algo dele sobre o assunto), pondo-se sério. O resultado final foi um romance com Welsh em voltagem baixa, aquém das atrocidades de “Filth”, ainda inédito no Brasil, o “Crime” é contido em um assunto em que não necessariamente deveria ser chocante, contudo, no frigir dos ovos pecou pela falta de estofo real. E o que entendemos por real, nessa parada?

TÁ BUNITO!

Talvez o Welsh, de verdade, tivesse medo em afundar um pouco mais o dedo na ferida, tornando a história mais particular para si que expansiva, para outrem – certo que devia achar o oposto, para não cair no lugar-comum de sua típica abordagem nos vários romances e contos que criou. Não há atrocidades propriamente ditas, algo que até mesmo em seu romance cozinheiro de humor-negro “The Bedroom Secrets of the Master Chefs” existem, a história com grande potencial limita-se a um DRAMA simplista, focando em sua totalidade um pouco de road movie besuntado de um suspense insosso. Reviravoltas previsíveis entre quase 400 páginas que podiam ser muito mais aproveitáveis. “Ok, ao menos o Welsh mostrou a diferença de Miami pra Miami Beach”.

É… achei que era tudo junto, hehe.

Então, ele se conteve.

“Mas por que você acha que a obra ficaria melhor com detalhes de abuso contra criança? Tu é tarado! Tu quer bater punheta vendo criança levando rola!”

Não, meu caro. É que a mensagem que o Welsh quer passar seria bem mais incisiva e verdadeira – visto que ele não é autor que choca por chocar, apesar de tudo – ambientando a porra no bistrô. “Ain, mas até pra alguém ‘depravado’ como ele, certas coisas têm limite!” Certo, mas na minha opinião o livro está quase insosso. É a mesma coisa de você tomar um suco de limão aguado. Abordando de forma realisticamente violenta nos encontraríamos com um autor deveras corajoso e sério, pois é um fato de que crianças abusadas de fato SOFREM e em muitas vezes se é preciso enfiar esta realidade na cabeça das pessoas.

Omitindo isto você até pode virar um realizador cujos culhões foram espremidos, como o alemão Werner Herzog em “Grizzly Man“, em que a afirmação da existência duma fita cassete retratando as vozes desesperadas do ativista Timothy Treadwell e sua namorada enquanto eram destroçados por ursos é enfiada goela abaixo do espectador o tempo inteiro, e no fim das contas, o áudio não é exibido. Fica difícil defender a hipótese de que queriam se resguardar ou respeitar quem quer que seja quando, na sua cara, duas ou três vezes mostram pessoas, parentes e conhecidos de Treadwell, ouvindo e se horrorizando com o áudio do massacre.

CAPA ESTRANGEIRA

Não obstante, valeu a pena ler “Crime”. Valeu a pena deparar-se com um Welsh mais sério, distante da zona de conforto, algo que raramente ou nunca vemos em autores como Bukowski ou Chuck Palahniuk, só para citar dois exploradores de ficção transgressiva, estilo este que sempre achei prolífico em temas, e interessante. Quando se tem diversos romances publicados e uma certa fama, é também necessário mudar um pouco a toada.

(agora diga, “não se mexe em time que está ganhando” que eu te dou uma porrada…)

Livro: CRIME
Autor: Irvine Welsh 
Tradução:Paulo Reis e Sérgio Moraes Rego
ISBN:978-85-325-2673-1
Páginas:416
Formato : 14×21
Preço : R$ 54,00

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