Um vômito chamado "Amor à Vida"

Era pra eu ter feito este texto logo no fim desta extensa novela (iniciada em maio/13, concluída no fim de janeiro/14), mas estava ocupado na revisão do meu livro, além da preguiça em ter de tocar no assunto. O tão esperado beijo gay em uma telenovela da Rede Globo suscitou de comentários nas redes sociais até notas e artigos em jornais, de qualquer forma cutucando um brasileiro naturalmente bem-informado. Já não há motivos para ler tanto jornais quanto revistas, a internet também embarcou de vez num sem-número de “desinformações”, o Jornalismo em si virou uma piada completa, reforçada pela popularidade do Facebook e de sites com o propósito de vasculhar a vida dos famosos. Daqui a pouco não se terá mais para onde correr, e vale tanto para a mídia nacional quanto a estrangeira – a mídia britânica não é tão diferente daqui, por exemplo. Pois bem…

… acompanhei esta novela por pura falta do que fazer no horário (21h/22h30),o autor Walcyr Carrasco, por enquanto, estava em alta conta em relação a bons trabalhos em novelas mais simples, como “O Cravo e a Rosa”, sucesso no horário das 18h, posteriormente “Caras & Bocas” (horário das 19h) e mais para trás, “Xica da Silva”, da finada Rede Manchete. Misturava bem o humor com drama, o seu soap opera funcionava para quem vasculhava uma opção às séries baixadas na internet ou vistas na TV à cabo, era uma opção intermediária aos autores mais antigos e repetitivos (Manoel Carlos, Benedito Ruy Barbosa) e os novos, um pouco mais inovadores (João Emanuel Carneiro). Contudo, “Amor à Vida”, que mostrou seu teor a partir da cena de abertura , deixou claro desde o início que trataria do tema “gays”. Talvez a Globo em si fosse da opinião de que devia uma abordagem mais séria ao assunto, até para situar-se aos novos tempos, estes de um partido da extrema-esquerda levando a sério um candidato imerso em galhofa (ex-participante de reality show, visivelmente beneficiado na edição do programa), casando com a proposta persistente do partido de esquerda governista em implementar leis criminalizando a “homofobia” (palavra por si só errônea à aversão a gays e lésbicas) e doutrinando as futuras gerações com o chamado “Kit Gay”, este veementemente vetado pela presidente. É um fato que os militantes homossexuais estão há muito lutando por seus direitos, contudo, alçar estes direitos em detrimento do que já está estabelecido na sociedade e pela sociedade desde muito tempo é bastante temerário, sedimentando terrível injustiça a um povo conservador – pois não obstante nossa “sensualidade” o brasileiro, médio ou não, é conservador no que tange a esta “manutenção”. Ele não deseja esta transformação social empreendida pelos partidos governistas, reforçada pelos movimentos gay e negro e seguida por meios de comunicação, emissoras de alcance nacional e amplamente consumidas, como a Rede Globo de Televisão, a terceira maior emissora de TV do planeta.
A Rede Globo flerta com o assunto há mais de 20 anos. Calcada em uma política pop , entabula merchandising social em suas telenovelas, focando assuntos que estão na “crista da onda” do momento, injetando-se nas idéias das classes mais baixas, faixa mais ignorante e geradora de audiência. Portanto, vez ou outra novelas do horário das 21h, as de tramas mais densas e (supostamente) inteligentes transmitem modismos que caem na boca do povão. “Quem matou Salomão Ayala?” “Quem matou Lineu?”, estas dúvidas geram conversas intrincadas entre as faxineiras e donas de casa até quem espera semanas por uma cirurgia na fila daquele hospital público. Quanto menos instruído, quanto mais fodido , mais o cidadão se deixa levar por estes modismos. E não podia ser diferente com “Amor à Vida”.

A novela relata as desventuras de uma fica família paulistana, os Khoury, proprietários de um hospital em que uma parcela expressiva de seus profissionais são um exemplo de “normalidade” como bem conhecemos. Há o cirurgião-chefe com mãos trêmulas e que continua ativo no cargo, há o casal que passa o expediente inteiro se agarrando pelas paredes, há a gordinha frustrada que explana de sua virgindade até o tipo de corte do cabelo de sua vagina para todos, há o casal sadomasoquista e por aí vai. O presidente, César, consiste em um homem obsessivo com o cargo, traidor contumaz da esposa que se deixa levar pela sedução da secretária – secretária esta que, como vingança por uma maldade passada do sujeito, engravida dele e o cega com uma substância consistida em ACHOCOLATADO – e odeia o filho, o gay Félix. Este, 10 anos atrás, temeroso com a perda da possível presidência do hospital, joga a filha da irmã Paloma, que na época engravidou de um hippie vagabundo, numa caçamba de lixo. Contudo, até hoje Félix prosseguia sendo odiado, e devidamente respondia com suas maldades para adquirir o tão desejado posto, tem um filho com uma mulher, Edith, que o pai empurrou para ele, filho este que no decorrer da série é revelado como filho de César com Edith. Por fora, Paloma, ciente de ser amada por tudo e todos, se enrosca com um corretor de classe média-baixa, Bruno, mesmo homem que encontra a recém-nascida de Paloma na caçamba.

MARIA CASADEVALL. AO MENOS ALGO QUE PRESTA NESSE LODO
 

Este é o núcleo principal, e claro que existem outros, como a da vendedora de cachorro-quente que foi ex-dançarina e ex-garota de programa e que incumbe a filha, Valdirene, de uma tarefa, de um modo extremamente decente e justo de crescer na vida: engravidar de um famoso. Esta mesma vendedora, Márcia, se envolve com um executivo do hospital, Atílio, quando este surge à sua frente, desmemoriado em decorrência de uma porrada dada pelo motorista cupincha de Félix, este último temeroso em ser denunciado por superfaturar uns contratos do hospital. Porém, perdemos as contas das tantas vezes em que Atílio é posto para dormir à base de porrada, revezando o intérprete (Luis Melo, até bom ator) no compenetrado Atílio e em sua contraparte mais relaxada e simples, Alfredo Gentil. E claro, Atílio/Gentil e Márcia se apaixonam.

Mais tarde a trama recebe um casal gay assumido, Niko e Eron, prontamente assediado por Amarilys, dermatologista do hospital, a fim de ser “barriga solidária” de ambos. O segundo é um espalhafatoso de bom coração, porém, altamente crédulo. O segundo é o reservado, certinho, metido sempre em ternos impecáveis, sugerindo uma postura firme, que, devido ao roteiro espetacular, resume a isto… sugerir. E o ator já não é aquelas coisas.

Os 8 meses de “Amor à Vida” pairaram mais maçantes do que se podia esperar. O cansaço se refletia desde os primeiros meses, com certos núcleos já entrando em desgaste insuportável. Momentos que por si só deveriam calcar na seriedade (como o julgamento de Atílio por bigamia) correm à contramão por textos de humor forçado. Walcyr Carrasco mescla real ao imaginário matando a personagem duma intérprete que recusou-se a cortar o cabelo, além de imprimir “conversinhas” a atores insatisfeitos com os rumos da novela. Ocorre um sem-número de contradições e fantasias no ramo jurídico, que também é constante na trama, em diagnósticos médicos, mais especificamente no que concerne ao autismo de uma personagem, Linda (Bruna Linzmeyer), cujo grau de autismo é visivelmente muito mais acentuado ao que um Asperger, por exemplo. E ainda assim enfiam uma pretensão amorosa à moça (o advogado Rafael, papel de Rainier Cadete), com beijo, que, desnecessário dizer, evoluiria ao sexo. Nos momentos finais, a evolução ao tratamento casual ministrado por Rafael é tão significativo que Linda explicita sua opinião em relação aos pais e à vida que levava. “– Eu via vocês dentro de uma caixa de vidro…”  Impossível ser mais original que isto.

herói. O Félix vilão é coisa do passado, nada como ser enxotado pela família – em que assumiu por A + B ter jogado a pobre filha de Paloma na caçamba -, penar para arrumar emprego – já que o pai conseguiu contar para TODAS AS EMPRESAS DE SÃO PAULO, uma metrópole com mais de 10 milhões de habitantes e centenas de multinacionais e milhares de empresas de médio porte, as falcatruas do filho, e amargar o singelo emprego de vendedor de cachorro-quente na famosa e comercial rua 25 de Março, tornando-se exímio vendedor, fazendo SUCESSO portando florzinha na cabeça, com a borda da blusa amarrada acima do umbigo e shortinho colante. Pois o importante é comer cachorro-quente, amigos, não me importo com a estampa do vendedor, compreende?

MAIS MARIA, PORQUE NUNCA É DEMAIS
 

Félix acaba por si só abraçando o posto de protagonista isolado da novela. Fora muito bem trabalhado por um dos atores brasileiros mais competentes na faixa dos 30/40 anos (Mateus Solano) e será lembrado, mais por ser o que foi do que pela trajetória escrita até o último episódio, em que, por vias OBVIAMENTE IMPARCIAIS torna-se, por posse e por direito, um

Eu não lembro de telenovela mais peçonhenta que esta. “Ah, mas todas as novelas são peçonhentas!” Depende. Tomo novelas no mesmo status de séries, com a diferença que as últimas são mais inventivas, não vivem ao sabor do que está em voga na cultura atual. Até fiquei surpreso por não existir um personagem cantor de sertanejo universitário, pois ninguém se importaria se tivesse. O tão aguardado beijo gay agiu como um bálsamo na mente crítica de donas de casa à blogs chapa-branca aos homossexuais (em que há gays escrevendo, mas mulheres também são favoráveis a eles), como tudo de ridículo ocorrido em “Amor à Vida” fosse café-pequeno. Como, para pegar um exemplo meio cretino, a exaltação do “bom” desempenho de David Luiz na final da Copa das Confederações, em detrimento às suas cagadas cometidas no decorrer da competição. Até nisto a Globo está metida. Os comentários de gays e mulheres festejando, os tão oprimidos gays aplaudindo o beijo era algo esperado, pois no frigir dos ovos, foi este ato que importou. Tio Walcyr, ciente de sua mediocridade e de seu novo apequenamento como escritor, implementou esta medida TÃO esperta (de fato é) que sua famigerada “Amor à Vida” será lembrada ad eternum como “A novela em que ocorreu o primeiro beijo gay da Globo” ou “A novela em que teve o primeiro beijo gay da televisão” (esquecendo-se de que “Amor & Revolução”, do SBT, foi a primeira, entre duas mulheres). Tinha de sair por cima de todo este lodo, não?

Agora temos a mais nova novela das 21h, “Em Família”, empurrando goela abaixo mais um romance gay (desta vez, lésbico).

Você, leitor (a), que como eu, perdeu tempo assistindo a esta novela, talvez até pensando que “essa porra vai melhorar, vai melhorar”, você sabia que o tio Walcyr te chamou de otário. Te chamou de babaca, de pústula, NA SUA CARA. Foram milhares de televisões ligadas nestes últimos 8 meses, do apartamento luxuoso na Barra da Tijuca até um barraco na Favela do Lixão (essa favela existe mesmo, na cidade de Duque de Caxias) engolindo a mesma patacoada, as mesmas piadas sem-graça, as mesmas desumanizações. Você se escravizou. Você vendeu mal o seu tempo. Nós nos escravizamos independente se estivéssemos sem fazer nada ou por motivo de força maior, ociosos, adquirimos a (des)capacidade mental de seguir esta produção purulenta como se segue um gibi, um jogo do seu time numa competição ou o costume de fazer café ou acessar a internet em tal hora. Mas você compreendeu que certos vícios podem ser benéficos e maléficos. E agora você está vendo “Em Família”? Sob os mesmos pretextos?

Sendo inteligente, com a certeza de que a Rede Globo de Televisão, cujas idéias já mostrei que são totalmente de situação, nunca mudará a sua tática mesmo se milhões de cabeças pensantes rejeitassem-na,você tem o DEVER de não testar sua paciência, sua sanidade, acompanhando estas coisas. A República Federativa do Brasil é dominada pela Globo, pelos motivos citados nos primeiros parágrafos. Atinge uma amplitude cultural que nem o governo consegue obter. Manda e desmanda na mente alheia. Você não consegue tirar absolutamente nada de bom em um órgão que mal paga imposto, deve mais de 700 milhões à Receita Federal e ao mesmo tempo em que se diz mantenedora (com o dinheiro dos outros) de projetos sociais, mantém há mais de 14 anos o Big Brother Brasil (eu também assisti parcialmente a duas edições, não a ponto de levar a sério estas merdas). O jornalismo é um dos piores possíveis, especialmente na parte esportiva, onde os apresentadores dignam-se a entoar poemas e muito humor de quinta série enquanto passam os gols e matérias. O fato do pai do “menino-de-ouro” Neymar, amplamente festejado pela emissora, ter fraudado 120 milhões na venda do jogador não impedirá a Globo e os veículos de publicidade de continuar assediando o moleque, até porque faltam poucos meses para a Copa do Mundo. A briga da emissora contra a Rede Record, produto da Igreja Universal do Reino de Deus, não há vencedores, pois ambas são iguais. A Record arremeda a Globo desde as produções até os atores, e prega uma postura politicamente correta quando seus donos vivem de arrancar dinheiro dos fiéis, estes tão ignorantes quanto quem passa assistindo as novelas globais. Como quem quer saber a quantas anda a separação de Cauã Reymond com Grazi Massafera.

É ruim quando se sabe de tudo isso e ainda assim continua se fustigando. Quando você tem ciência disso, você se torna pior que os ignorantes. Logo, abandona essa merda. Não tem só a Globo na sua TV, não tem só notícia sobre o Big Brother e Domingão do Faustão no seu computador. É claro que vão tentar te rotular, achando que só anarquistinhas fãs de rock, obrigatoriamente jovens, revoltadinhos de prédio são os únicos que odeiam a Globo. As muitas outras opções também são ruins. Então, abandone sua televisão e ainda assim tenha ressalvas ao que é escrito na internet – se quer colocar meu texto no balaio, tudo bem. Mas eu tive que escrever isso porque “Amor à Vida” gerou um estupro mental que muita gente engoliu. Dos muitos estupros mentais ocorridos todos os dias. Contudo, não pense que, livre disto, você irá transcender a qualquer coisa que seja.Você apenas estará SE respeitando e respeitando SUA inteligência.

E isto é o normal que se deve fazer.

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Publicado em: TV

2 comentários sobre “Um vômito chamado "Amor à Vida"

  1. Anônimo disse:

    Olá.

    Concordo com tudo que você disse. E digo mais: essa ênfase no relacionamento homoafetivo que a novela deu tem um quê de pensamento ideológico mais do que uma quebra de tabus.

    Amor a Vida foi uma novela chata, clichê e facilmente esquecida. Só teve este ápice porque agradou certas “minorias influentes” (Jean Willis e Cia). Não que seja contra relacionamentos homossexuais e que os mesmos sejam retratados em obras de ficção, mas da maneira que foi meio que forçada e tanta propaganda feita disso em detrimento a esforço de melhorar a qualidade do folhetim pra mim foi o pior que eu já vi em uma novela. E teve gente que caiu (principalmente minha senhora).

    Agora virou moda achar que todo Homossexual é coitadinho e discriminado. Nada como um folhetim Global para ajudar a reforçar uma mentira, não é verdade?

  2. David disse:

    Sim, não tenho nada contra fazer algo pretensiosamente, mas óbvio que a intenção de Walcyr Carrasco casa com a mesma intenção de mudança de comportamento social implementada pelo Jean Willys e pelos partidos governistas. Aliás, o PSOL por si só errou em levá-lo a sério, quando primeiro, o Brasil tem coisas mais importantes para lidar. Segundo, não se pode forçar a “manutenção” do comportamento social sob estes parâmetros “sexuais”, ou seja, mandar pra cadeia quem chama uma bicha de “bicha” é por demais abusivo e equivocado.

    Isto pode constituir no mesmo rol de ofensas, compreendo. Mas “diferenciar” isto como chamar um negro de “macaco” é abusivo demais. BURRO demais. E a coisa piora quanto os próprios gays se põem na mesma esfera preconceituosa que os negros, quando o gay em si é diferenciado SEXUALMENTE, não pela cor.

    Reitero, há coisas muito mais importantes para resolver que dar bola para isto, ainda mais em detrimento de uma MAIORIA.

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