Kill Your Darlings segundo Harry Potter

Creio que você já ouviu falar na Geração Beat, certo? Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs e os outros bichonas escritores e poetas que foram precursores dos hippies…

É que finalmente saiu o filme baseado num dos pontos dramáticos do grupo antes mesmo do sucesso universal de Kerouac, com seu “On the Road”. Neste livro, todo mundo já ouviu falar, tanto que há poucos anos ocorreu um novo boom com a publicação de quinqüagésimo aniversário, do manuscrito original e do romance no qual baseia o filme “Kill Your Darlings”, dirigido por John Krokidas e estrelado pelo ainda queridinho das adolescentes, Daniel Radcliffe, determinado em afastar de uma vez por todas o fantasma Harry Potter.

[COMEÇANDO DO COMEÇO]

Jack Kerouac é o nome beat, não tem outra. Filho de franco-canadenses, foi o mais famoso, era um escritor curioso, com um estilo original que sinalizava uma hiperatividade, mas na real o sujeito era tímido, tanto que não agüentou a pressão do feedback do “On the Road”. Tinha vontade de aprender e levava a sério seu ofício, porém, era um escritor bambeando à futilidade, se apegando às modas do momento. Não à toa seu “The Dharma Bums” foi mal recebido pelos entendidos de budismo. Trabalhava em vários romances simultaneamente, escrevia diários com o processo de criação até tomado, como era habitual no começo do século XX, pelo drama composto pela criação, envio à editora, espera e publicação de seus livros. Vários escritores da época, inclusive, relatavam esta experiência. Kerouac queria fazer uma diferença. O que seria seu primeiro romance,  “The Sea is my Brother“, fora descartado e recentemente resgatado, considerado pela crítica um “Kerouac menor”, em contraponto ao primeiro romance a sério de sua carreira, o “The Town and the City“, inspirado em Thomas Wolfe (escritor praticamente desconhecido no Brasil, com apenas duas coletâneas de contos publicadas). O “And the Hippos Were Boiled in Their Tanks”, feito em 1945 em parceria com William S. Burroughs e engavetado por longos 60 anos, é mais um pedaço compondo as porções da vida de Kerouac, que ele posteriormente chamaria-as de “Legend of Duluoz”, incluindo, claro, “On The Road” e todos os demais livros de teor semi-autobiográfico. Era sua grande ambição.

[QUAL A PORCARIA DA HISTÓRIA?]

“And the Hippos…” enfoca a amizade do círculo original da geração beat em Nova York: Kerouac, Burroughs, Ginsberg e Lucien Carr, além de Herbert Huncke, um drogado que mais tarde seria poeta e escritor. Carr, um estudante provocativo e meio anárquico, conhece Edie Parker e esta apresenta seu namorado, Jack Kerouac, que aos 22 anos deixava a Marinha. Após Ginsberg, atraído uma música num quarto de Columbia, conhece Carr, que também apresenta aos dois a dupla William Burroughs e Dave Kammerer, amigos de infância. Kammerer, há muito conhecido de Carr, era apaixonado pelo sujeito e obstinada e descaradamente o perseguia. O romance mostra bem a angústia de Kammerer em relação a Carr e os “perdidos” que este dava no sujeito, mais velho e que chegou a ponto de minar a tentativa de Kerouac – no livro e em relatos posto como amigo quase inseparável de Carr – e Carr de viajarem para a França, justamente fugindo de Kammerer.

GINSBERG (RADCLIFFE), CARR (DEHAAN) E KEROUAC (HUSTON)

O impasse finda quando, num parque, bêbados – e segundo relatos de Carr – Kammerer tenta abusar sexualmente de Carr, e este reage desferindo facadas, e em seguida, amarrou o corpo e o jogou no Rio Hudson.

Em seguida, contou com a ajuda de Kerouac, Burroughs e Huncke para eliminar a faca e arrumar um advogado, mas no fim das contas, Carr é acusado por assassinato em segundo grau e pega dois anos de prisão. Burroughs sai sob fiança paga pelo pai, enquanto Kerouac sai da cadeia sob condição de se casar com Edie Parker (pouco tempo depois o casamento é anulado).

Em colaboração, em 1945, Kerouac e Burroughs decidem contar o acontecimento no romance “And the Hippos…”, mas Carr não permite a publicação completa. A proibição se estende até novembro de 2008, 3 anos após a morte dele.

TE DIGO QUE É MUITO MELHOR QUE O FILME

[BELEZA, QUAL A TUA IMPRESSÃO SOBRE O FILME?]

É simples: Krokidas é até bem intencionado, mas a gente sabe que de “boa intenção, o inferno tá cheio”, porque ele simplesmente coloca “Kill Your Darlings” como o filme de Allen Ginsberg, digo, Daniel Radcliffe. E por que?

“And the Hippos…” é relatado por dois personagens, Will Dennison (Burroughs) e Mike Ryko (Kerouac). Pouco ou nada é citado sobre a participação de Allen Ginsberg na história, e a mesma história em si não mostra nada sobre, ou seja, ALLEN GINSBERG NÃO ESTAVA NA HISTÓRIA. E ainda assim John Krokidas mostra o filme sob o ponto de vista de Ginsberg, suplantando o “lugar de direito” de Kerouac, aqui um coadjuvante de luxo bem interpretado por Jack Huston, cuja amizade com Carr, novamente digo, era posta no livro e em relatos como quase inseparável. Dando a impressão de que, como Radcliffe aceitou o papel e o seu nome era o maior chamariz para o êxito comercial do filme, que Krokidas mudou a situação, fugindo dos relatos do livro. Foi uma enorme e inigualável falha que por si só prejudicou o filme.

Burroughs (melhor papel do filme, de Ben Foster) também é diminuído. Tudo para Radcliffe “brilhar” em cena.

O filme deixa claro sua “contribuição” com o fato. Desde o “Baseado em uma história real” estampado em letras garrafais no começo até o fim, com as diversas fotos dos amigos reais nos créditos finais. Boa reconstituição de época, porém, não obstante os coadjuvantes estarem bem defendidos, a dupla protagonista não se sai bem. Dane DeHaan faz um Lucien Carr enfadonhamente sedutor e forçado, de uma forma que provavelmente o “objeto” de seu trabalho não fora desta forma, abdicando-se do lado mais explosivo e brincalhão de Carr – citado com mais veemência na biografia de Kerouac por Ann Charters -, que de certa forma até atingia Kerouac. Michael C. Hall, o Dexter, esteve muito bem como Dave Kammerer, com incrível semelhança física, porém, o maior objeto de fetiche de Krokidas, Radcliffe, não convence tanto como Ginsberg. Elizabeth Olsen, convincente e divertida como Edie Parker, também é diminuída.

E Krokidas reacende a dúvida (pois não passa disso até hoje, de dúvida) sobre um possível envolvimento amoroso de Carr e Ginsberg. Novamente, utilizando-a em detrimento de Kerouac. Aliás, até pouco tempo lançou-se uma biografia dizendo que Kerouac teve romances com homens e com a própria mãe, não é mesmo?

Não foi desta vez. Não obstante calcado num acontecimento histórico e mais sério que o “On the Road“, recentemente posto ao cinema por Walter Salles, perde-se uma grande oportunidade de relatar o acontecimento como ele foi escrito no livro “And the Hippos…”, sob o protagonismo dos personagens certos, os que estavam DENTRO do imbróglio.

Só restou uma ode ao talento (ainda duvidoso) de Daniel Radcliffe, e a obrigação de alguém fazer um novo filme.

KEROUAC, CARR E GINSBERG

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