Diário do Escritor (Parte 2 – "Depois do Carnaval")

          Como disse no post anterior, eu estou trabalhando um livro de contos de nome “Seleção Sobrenatural”. Achei o nome imbecil, talvez eu mude. Nele constará dois contos – tá mais para duas novelas, visto que simplesmente não consigo trabalhar com contos, pois são bem curtos -, o conto futurista em que um espião de um país radical rouba um artefato valioso numa base espacial localizada na Lua, e desce aqui com ele, mas não consegue se desfazer de seu disfarce feminino, e o “Depois do Carnaval”, que considero mais importante, sobre um homem que sai do Rio e vai morar em São Paulo até que o chamam para cuidar da filha, pois haveria indícios de que sua esposa estaria louca.

Parece fácil mexer numa parada dessas, mas não, porque é preciso se mexer e pesquisar em certos livros quando se quer ter um cuidado em passar veracidade na história. Ao contrário do que escrevi no post anterior, a ação de passa no final da década de 20 (1929), uns sete anos depois da trama de “Eu Não Estou Bem”, que também tem um conteúdo histórico forte, tratando da boemia carioca até a derrubada do Morro do Castelo, acidente geográfico que realmente existiu, servindo como primeira moradia de fato dos “novos” habitantes do Rio de Janeiro. E escrevi tanto este “Eu Não Estou Bem” sabendo apenas do básico, quando havia mais a estudar, ou seja, mais um motivo para eu dar um tempo. Se eu estivesse inventando a coisa toda, dane-se a história real, certo? Mas eu sempre quis calcar a maioria de minhas histórias num ponto de vista real.

O “Depois do Carnaval” começa com Walter Franco – achei um nome chinfrim, mas está melhor que… Josef Lopilato – desembarcando com os amigos, cariocas como ele, descendo na estação do Norte, antigo nome da estação Brás, hoje 2 em 1, pois antes de ser tachada de “Roosevelt” na década de 1950 haviam duas estações ao lado. Braz, menor, e a do Norte. Enquanto a do Braz atendia a São Paulo Railway, linha fazendo o trajeto Santos-Jundiaí, a do Norte descia para o Rio de Janeiro. Descendente de portugueses e escravos angolanos, Walter acaba dando falta de sua mala, e enquanto a procura os seus amigos, já unidos a um capataz que os esperava a fim de direcioná-los ao posto de trabalho, alojamento e o escambau, se “esqueciam” dele. Por fim, eles vão embora e ele fica na estação, desolado, tentando se explicar para os funcionários da estação, essas coisas, e ainda assim é desacreditado, pois seus documentos e bilhete de passagem também sumiram, estavam postos na mala. O sujeito passa um tempo zanzando no bairro do Braz, temendo ser preso por vadiagem, crime este que NUNCA DEIXOU DE VIGORAR NO BRASIL, não conhecendo a cidade, não tendo conhecidos, é complicado mesmo. E nesta época São Paulo já crescia, nos anos 1930 estava com mais de 1 milhão de habitantes, isto antes do boom migratório nordestino. Mais tarde, achando seus documentos, Walter tem segurança o bastante para galgar seus passos na cidade, enquanto que no Rio de Janeiro sua esposa, Maria Eduarda Monteiro de Carvalho, membra de uma decadente família aristocrata, o procura desesperadamente, mas sem qualquer conhecimento dos contatos do sujeito. A filha, Melissa (Mel) não tira da cabeça a idéia de que Walter a odeia, até que Maria contrata um detetive para empreender uma viagem até o fujão. E claro que nada vai rolar fácil.

 ESTAÇÃO DO NORTE E PORTEIRA NA AVENIDA RANGEL PESTANA
                                                                AUTOR DESCONHECIDO

          Fiz uso de um clichê aí, do sujeito pobre casado com mulher rica, provavelmente algo inusitado e até ofensivo nos tempos de República Velha. A diferença aumenta quando ele diz: “Nunca me dei bem com os amigos dela”, obviamente todos do mesmo nível, porém, isto em nada contribuiu para a derrocada da família. Walter odiava crianças e embora tivesse se casado, nunca levou seus compromissos a sério, num momento em que a família Carvalho carecia de um homem para pôr ordem no coreto, pois não havia mais homem na família – o pai e o avô de Maria morreram -, Maria Eduarda não era levada a sério por mais determinada e gritalhona que fosse. No meio político-burguês, dominado por homens, era sumariamente desacreditada e tratada com indiferença. Era a única de suas amigas que se metia a intrometer-se num ambiente masculino.

ESTAÇÃO DO NORTE – ANOS 1930
                                                                Foto: Sebastião de Assis Pereira

          Fora isto, Maria queria ser contida. Queria um homem na casa, na cama, um pai para a sua filha, e achou que Walter daria conta do recado, mas frustrou-a nos 10 anos de casamento, tratou a filha ora mal ora com indiferença nestes 10 anos, logo nada mais normal da pequenina ter a certeza de que ele a odiava, certo?

Enfim, é freqüente na história citações usuais a bondes, trens e carruagens. Até mesmo a grafia da época, aquela em que “Telefone e Hipódromo” era “Telephone e Hyppodromo”, além de passagens a bairros mais distantes (e outros nem tanto) do Centro como Vila Prudente, Ipiranga e Santo Amaro, que em 1929 era município próprio. Óbvio que conheço estes locais (os dois primeiros, na palma da minha mão), passei por eles, e os prezo muito por sua história. Aliás, São Paulo, que é uma merda de cidade, o Rio de Janeiro também é, que fique claro, vale muito por sua história, a primeira coisa a fazer quando vim para cá foi justamente isto, saber mais sobre sua história, embora não pensasse em metê-la num romance, novela ou conto um dia.

Hoje, o bairro do Hipódromo é desconhecido da maioria dos paulistanos, mesclado à Moóca, mas hoje o hipódromo em si não existe mais. No mapa da cidade abaixo, de 1924 (o mapa de ano mais aproximado à história da novela/conto que achei)ele surge, e também o bairro do “Marco” do outro lado da Estrada de Ferro Central do Brasil, com destino do Rio. Porém, não há nada nos sites de busca sobre tal localidade. Será este Marco de rua Maria Marcolina?

         Note quão pequena era a cidade. São Paulo resumia-se mais ao Centro, compreendido do Bom Retiro ao Braz, da Vila Mariana a Perdizes, praticamente. Os bairros aos arredores, mais afastados deste meio, tinham um aspecto rural, como o Ipiranga, que basicamente “vingou” por causa da construção do Museu da Independência, em 1822. Até hoje os terrenos ao entorno do Museu, ainda permeados por casarões antigos, continuam bem valorizados.
         Já do outro lado da linha férrea para Santos, a Vila Prudente, um “tranqüilo” bairro residencial da Zona Leste (Ipiranga é Zona Sul), com alguns imigrantes russos e do Leste Europeu, que à época deste mapa era apenas um terreno à mercê dos irmãos italianos Falchi, que criaram a Fábrica de Chocolates Falchi, a primeira indústria do bairro, e lotearam os terrenos.
Eu não posso adiantar (“ui, tô morrendo de curiosidade!”) se o Walter passa um tempo em São Paulo e depois volta pro Rio, ou se ele fica lá, ou se fica lá depois que conhece uma pobre bonitinha, dando aquele triângulo amoroso, essas coisas. Como ocorrerão mais desdobramentos do que um conto poderia sustentar, será uma novela mesmo. A porção mais interessante do “Seleção Sobrenatural” (vou mudar essa porra de nome). “Depois do Carnaval” é ambicioso, sim. Isso também explica os estudos e as pesquisas, não tô a fim de passar vergonha, mas não faço forçadamente, é porque eu gosto do tema mesmo, de época. Sempre fui um entusiasta da História. Veja como é difícil alguém na faixa dos 30-40 anos aficionado pelo morro do Castelo, porra! Hah!
Selecionei uns livros para estudar mais o assunto nestas próximas duas semanas, forçando a interromper a escrita da novela:
Ipiranga: suas ruas – nossa história
Autor: Luiz Antonio Grieco
Editora: Ottoni -2003
 
Brás: sotaques e desmemória
Autor: Lourenço Diaféria
Editora: Boitempo – 2004
 
Bonde: saudoso paulistano
Autor: Fernando Portela
Editora: Terceiro Nome – 2006
 
Continua…
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s