Jack Kerouac – King of the Beats (Barry Miles)

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Kerouac (1922-1969) sempre rejeitou o rótulo de Rei dos Beats. Nascido na industrial Lowell, em Massachusetts, sofreu com a morte do irmão mais novo, intercalava a dependência da mãe com vida entre os amigos boêmios de Nova York (entre eles Allen Ginsberg, William Burroughs, Neal Cassidy), sofreu com a própria inveja, a indecisão, o medo de não fazer sucesso como escritor, a rejeição da filha e a angústia que o fez afundar-se na bebida até tornar-se vítima da cirrose, aos 47 anos. Este é o básico a se saber do autor, porém, o britânico Barry Miles foca o “lado B” de Kerouac mais que qualquer outro biógrafo do astro beat, desconstruindo a glória que o autor de On The Road continua cultivando, 50 anos após sua morte.

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KEROUAC (POR TOM PALUMBO – 1956)

Miles, que também biografou Ginsberg e Burroughs, age diferente do que se espera de um biógrafo: pisa em cima duma possibilidade “chapa branca”, cujo pensamento pode vir de quem vem “de fora”, e praticamente se imbuiu dum prazer incontido em desfiar os podres do biografado;se esmera em esmiuçar a raiva e inveja de Kerouac em relação a outro escritor, John Clellon Holmes, e seu romance Go (retratando o movimento beat), as aventuras homossexuais de Kerouac (o famoso capítulo com Gore Vidal, por exemplo, exposto sem tantos detalhes na novela The Subterraneans, as feitas com Ginsberg, um posterior defensor aberto da pedofilia). Porém, parte do texto enfocando esse traço específico de Kerouac fora mais baseado nas palavras do autor que por fontes. Passa pela também famosa negligência de Kerouac em relação à paternidade da filha, Janet (que na vida adulta drogou-se e prostituiu-se), o suposto incesto com a própria mãe, Gabrielle Levesque, a relação obsessiva com o vagabundo Cassady, a dificuldades de se adequar às regras das editoras e a publicar os demais romances pós On the Road até o pós-sucesso, cada vez mais entregando-se à bebida e à posição conservadora que o acompanhou até a morte.

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KEROUAC BÊBADO E ACABADO

A biografia só reforça a idéia de sujeito atormentado, inquieto e nervoso, que não conseguia parar em canto algum, era por si mesmo impossibilitado de formar família, e que apesar do conforto eterno da casa da mãe, vivia no limite. Não sobreviveu as relações sérias com as mulheres que teve (Edie Parker, Joan Haverty, mãe de Janet) e não ajudou as que necessitavam (como a prostituta mexicana e drogada que inspirou a novela Tristessa, além de Bea Franco, a camponesa Terry de On The Road e Ailene Lee, a musa Mardou Fox em The Subterraneans). De seu último casamento, com Stella (irmã de seu amigo de infância Sebastian Sampas), Miles afirma que fora realizado por conveniência, para ter alguém que cuidasse da mãe. A relação com os melhores amigos também se esfacelou. Contudo, algo que eu não notei foi a deficiência narrativa de Kerouac no protagonismo: em quase todos os seus romances auto-biográficos ele agiu como narrador, o papel secundário para que os protagonistas brilhassem, além das dificuldades em elaborar uma narrativa original, sem que pusesse sua vivência no meio. Da sua revolta de fachada, pois o sujeito rebelde que corria os Estados Unidos de ponta a ponta sempre tinha o dinheiro e a casa de Gabrielle para recorrer na hora do aperto. Findando toda essa informação, qualquer leitor captaria da biografia uma desilusão escancarada do velho Barry Miles.

É um fato de que Kerouac e sua Legend of Duluoz sempre será lembrada, com On The Road encabeçando. A quantidade de jovens maravilhados pelos textos rápidos e incansáveis não cessou, pois sempre há alguém disposto a descobrir um “monstro sagrado”, como até poucos anos descobri Bukowski e reconheço seus prós e contras. Mas, previsivelmente, uma parte destes mesmos jovens e admiradores rejeitaram, rejeitam e rejeitarão este lado negro do Rei dos Beats, do escritor que deixou sua marca pra sempre entre os autores mundiais do século XX. Descobrir e guardar os podres de Kerouac é nada mais que uma OBRIGAÇÃO por parte de quem realmente se diz fã do homem. Ou vocês acham que rejeitei as merdas feitas pelo Bukowski, alguém com todos os defeitos no mundo que seria ridículo tachar-lhe quaisquer noções de perfeição ou/e messianismo? Só mesmo filhos da classe-média, rasos e que dificilmente levaram porrada da vida, como Clara Averbuck, cairiam nessa.

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