[Conto] Uma Coisa de Cada Vez

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Panorama da praça da matriz de São João de Meriti (RJ)

Igor sempre foi o problemático da turma e o que mais tomava decisões infundadas, fazia merda atrás de merda, mas não bebia, não usava drogas e ninguém se ferrava nessas merdas dele além do próprio. Aí vazou do Rio na década passada, passando todo esse tempo em São Paulo e, de volta à Baixada Fluminense, voltou a dormir no quartinho mal iluminado em São Mateus, bairro de São João de Meriti, mas ao menos essa trajetória não fora de toda perdida: estava devidamente formado em Direito, apesar de no momento segurar as pontas como cobrador no São João x Caxias, da viação Beira Mar.

Soube que ele morava lá pela irmã dele, pastora duma igrejinha em Mesquita. Minha conhecida de anos. Depois ela apareceu em casa no último domingo, quando eu abrira a lan house – no lugar da minha mulher, que não tava passando muito bem. Ronda estava mais desconfortável que o normal na plena gravidez.

– Quê que foi que cê tá assim? – indaguei, ligando a televisão antes de me sentar no sofá. Ronda era clara, tinha 1,60m, olhos castanho-escuros e longos cabelos louros tingidos. – Aconteceu mais alguma coisa no papo?
– Ai… – se sentou no braço esquerdo do sofá, e alisei sua coxa. – cê tinha que ver como ela falava do Igor…
– Como? Que merda ele fez agora?
– Ele tá hospitalizado.
– Por que?
– Ele fez outra besteira.
– Mais uma, das muitas. Até demorou pra ele sentir na pele o resultado.
– Deram uma surra nele.

Como disse, “até demorou pra ele sentir na pele o resultado”.

– Hum. Vai falando.
– A Mirtes disse que isso aconteceu na segunda passada: o Igor desceu de trem pra Central, tinha que resolver as pendências com o Bradesco, ele tava negativado há uns dois anos. Ele tinha bebido um pouco, segundo ele mesmo disse pra irmã.
– Ele bebendo? São Paulo realmente mudou o cara.
– Er, ele acabou mexendo com uma mulher dentro do vagão; ficou… mexendo o saco pra ela.
– Hehehe! Aí o marido, namorado, parceiro dela arrebentou ele.
– Arrebentou, e muito. Eu fui no hospital onde ele tá, em Marechal Hermes. Tá todo enfaixado, quebrado.
– Caramba…

Até onde eu sabia, Igor não sabia brigar.

– Jogaram ele na linha férrea!
– Puta que pariu…
– Ele já saiu na estação de Honório Gurgel tomando porrada!

Comecei a imaginar a cena. Igor era alto e magrelo, mas até um baixinho que sabia brigar podia deitar o camarada.

– E eu vou fazer alguma coisa pra isso não passar batido!
– Tipo o que? Vai pensar em procurar o cara pra dar porrada? Hahaha.
– Não que eu vá fazer, mas por que eu não poderia?
– Ahn, porque você tá grávida? Porque você é minha esposa e eu não quero você envolvida em roubada dos outros, mesmo que “os outros” seja meu amigo de infância? Ou você quer fazer isso pra dar uma sacudida no seu dia a dia?
– Fábio, eu vi ele todo fodido! A gente saiu daqui e foi visitar ele no hospital. Ele corre o risco de ficar cego de um olho e além do mais, teve uma perna esmagada pelo trem!

Putz.

– É justo o filho da puta que fez isso com ele andar por aí como se nada tivesse acontecido?
– Não, não é. Se ficassem mexendo o saco pra ti, eu daria uma porrada, mas não chegaria a esse ponto que o cara aí fez. Porém, eu não te quero se sacrificando pelos outros, ainda mais que cê tá esperando a Gina.
– Eu sei – tinha se erguido e voltaria a se sentar no braço do sofá caso não a fizesse ficar no meu colo. – Como eu disse, eu não far–
– O que cê faria, então? Reclamaria com a Supertrilhos? Eles já devem saber disso aí. Devem ter custeado–
– A Mirtes que custeou, ele tá num hospital particular por causa dela.
– Tá, então o máximo que se poderia fazer seria processar a Supertrilhos.
– O Igor me fez um retrato falado, pera um pouco – saiu do meu colo, e em dois minutos trouxe uma pasta azul, onde tirou um desenho do que seria a cara do agressor: orelhudo, claro, nariz aquilino e papada. Gordo, de qualquer forma. – Falou que ele tem mais ou menos 1,90m e usava uma camisa de basquete amarela e azul.
– Deve ser dos Lakers, enfim: esquece isso. Ainda sou da opinião que, por mais que isso soe insensível, o Igor mereceu a porrada, digo, em parte, como eu quis dizer.
– Tá. Você não vai fazer nada, eu sei, mas eu vou.

Peguei seu braço. Não entendia o tamanho desse repentino arroubo solidário pra cima do Igor. Não que estivesse apaixonada por ele ou algo assim, era apenas vontade de ajudá-lo, mas… desse jeito? A desgraçada não levava em conta o risco que correria, o risco que eu e sua filha correríamos, caralho?

– Você não vai fazer POR-RA-NE-NHU-MA! – ditei. – Cê não tem obrigação alguma de ajudar ele.
– Cê ainda tá achando que eu vou persegu–
– Pô, então me diz o que cê vai fazer. Se a Mirtes não tá fazendo muita coisa, por que você, que nem parente ou amiga do Igor é, tem que fazer?
– Porque eu quero ajudar, de algum modo! Ela não falou contigo porque–
– Ela tinha que ter falado COMIGO, não contigo! Você nem conhecia o cara!
– Eu… achei que você ia ficar feliz se eu fizesse alguma coisa pra ele!
– Hah! Me diz se eu tô feliz agora, antes mesmo de você fazer alguma coisa pra ele? Tô feliz?

Amainou; baixou seus lindos olhos no chão.

– Não.
– Então. Deixa essa batata quente deles pra eles mesmos. A gente nem devia ter essa conversa. Eu vou creditar essa sua despreocupação com a nossa filha porque cê vai ser mãe de primeira viagem, também.
– Cê me subestima mesmo…
– Não, tua burrice nunca é subestimada porque você sempre me brinda com ela, mas agora foi demais, né? Por favor. A Mirtes te deu o celular dela?
– Deu, claro – sacou o seu e me passou os números.
– Agora, viva sua vida. Deixa que eu resolvo isso.
– Tá – em seguida, liguei pra Mirtes.
– Oi, Mirtes.
– Fábio, tudo bem com você? A Ronda te disse–
– Me disse tudo sobre o Igor. Tem como eu ver ele semana que vem?
– Tem, claro. Ele também tá querendo te ver! – como se tudo isso fosse armado. – Onde você tá, agora?
– Tô em casa, parece que não tem como eu ver ele hoje, já é noite. Não sei se as visitas tão abertas durante a semana…
– Não, só sábado e domingo. Sábado de manhã você pode ver ele.
– Certo, eu vou aproveitar pra dizer algo: minha esposa quer porque quer ajudar seu irmão por ter ouvido tudo o que aconteceu com ele – Ronda olhava apreensiva pra mim. – Você sabe que ela tá grávida de sete meses, que tem uma vida comigo e ainda assim–
– Fábio – Ronda tentou pegar meu celular. -, pára, ela não sabe que eu quero ajudar ele!
– E-ela tá aí? – Mirtes disse.
– Me diz, ela manifestou algum desejo em ajudar o Igor?
– Bom, não que eu lembre.
– Sim ou não?
– Pára com isso, Fábio!
– Parece que ela tá aí perto…
– Quero que diga sem mentir, Mirtes. Ela manifestou algum–
– Sim, sim, mas eu não enchi a cabeça dela, eu fui dizendo o que aconteceu e só, até pra ela passar pra você, já que você não ligava mais pra gente tem muito tempo, mas eu lembrava da sua casa. Vai dizer que ela quer fazer justiça com as próprias mãos, ou coisa do tipo? Porque, nossa, não é pra ela cometer uma loucura dessas.
– E ela queria cometer – fitei-a de novo, de esguelha. – Eu acho muito bonita essa solidariedade, essa coisa de se pôr no lugar do ferrado, mas, como eu disse, minha mulher tá grávida e está comigo, ou seja, nem em um milhão de anos ela sairia no braço com quem quer que seja ou até mesmo procuraria uma pessoa como esse cara que arrebentou teu irmão. Nem eu posso fazer isso porque, convenhamos, o Igor não tinha nada que mexer com mulher dos outros, né?
– Claro, eu concordo. Mas o sujeito exagerou, não é mesmo?
– Sim, exagerou pacas. Bom, como você diz que não encheu a cabeça da Ronda, esqueçamos isso. Sexta que vem eu te ligo.
– OK.

Ronda não disse nada, quando terminei, apenas preparou um omelete e quis dormir cedo. Novamente, entrou na minha cabeça a hipótese dela tá apaixonada pelo cara…

Entrando no quarto, não tinha como não reparar nos troféus que ela ganhou no boxe – o último foi conquistado há apenas cinco anos atrás. Depois “desinchou”, seus gominhos no abdome desapareceram logo no primeiro ano de casamento, os bíceps perderam a moldura dos tempos do ringue; tornou-se uma mulher normal. Com duas Olimpíadas disputadas, eu achava que quem a via no auge não esperava que uma mulher daquelas transmutasse “pra pior”. Mas uma hora ela tinha que parar e seguir seu coração. Afinal, tratava-se dum indivíduo feminino, certo?

Ouvia-a roncar baixinho quando me enfiei no cobertor. Começou a chover lá fora e, embalado no desejo do toque aliado à gostosura que é ficar todo juntinho ouvindo o barulho da chuva, abracei-a de lado, de conchinha. Ronda respondeu firmando sua bunda no meu sexo, a beijei no rosto e ela deu uma risadinha. Apagamos rapidamente.

Sábado de manhã eu estava lá no hospital, pasmo pela sensualidade da Mirtes numa saia jeans bem justa e uma camisa marrom de manga comprida que exibia as formas dos mamilos. Tinha olhos e cabelos negríssimos, vira até com uma marmitinha, enquanto eu, mal ajambrado numa pólo preta do Flamengo, calça jeans preta e um Asics Gel Noosa Tri 9 azul e branco; desapropriadaço pra ocasião. Me deu um abraço cauteloso.

– Fábio!
– Essa comida é pra mim? É que eu já almocei…
– Hehe, é pro Igor, ele já tá podendo comer.
– “Ele já tá podendo comer”… Então, a peia foi tanta que ele não conseguiu comer?
– É. Ele tava com a boca toda ferida. E ainda perdeu três dentes.
– Putz… – só piorava. – Vamos lá?

Fomos guiados por um médico até o leito e subimos dois lances de escada. Havia uma gritaria infantil insuportável no corredor, fora dois moleques ouvindo funk sem fones. “Bem, é aqui”, disse o médico, e abriu a porta.

O estirado Igor ainda tinha a cabeça toda enfaixada, uma proteção no olho direito e curativos na boca e queixo; descendo mais um pouco, havia um toco embaixo do joelho direito; o que sobrou de sua perna. Pude imaginar a roda do trem passando nela… ARGH.

Ao invés de eu chorar, ele que chorou, ao me ver.

– Cara… – grunhiu. Mirtes soluçou às minhas costas. Me aproximei e toquei o ombro dele.
– Que coisa você se meteu, hein?
– Me fodi, cara. Me fodi completamente.
– Cê nem tinha que ter bebido. Aliás, eu nunca te vi bebendo. Cê achou que, só porque tava bêbado as pessoas iam levar tua brincadeira na esportiva?
– Hum…
– Se fosse mulher a fazer isso, vá lá, mas você é um homem. Mexer com mulher do outro homem, ainda mais no Rio, é pedir pra se foder!
– Fábio – Mirtes sussurrou, mas eu tava à toda.
– E isso fez a minha mulher quase ter que procurar o cara pra sair no braço com ele, por mais que ela fale “não, não, eu não vou procurar, não vou”… Por tua causa, claro. Ela tá grávida de sete meses, filhão, já pensou ela morrer porque resolveu fazer justiça com as próprias mãos?
– E-eu nem sabia que ela ia–
– Faria, se eu não metesse na cabeça dela que esse assunto nem remete a ela em porra nenhuma. Cê ia acabar com a vida dela!
– Pára, Fábio – Mirtes pegou meus braços. -, ele não tem culpa de nada, eu te disse que foi a Ronda que tinha tomado essa decisão por conta própria! Eu disse que não convenci ela a tomar parte do sofrimento do meu irmão!
– E eu não fiz nada, cara – ele acrescentou. -, te juro isso. Tua esposa que quis me ajudar, e eu soube disso pela Mirtes, depois que você ligou pra ela domingo. Não culpa a gente, mano.
– Tá legal, tá legal – me afastei um pouco. Igor não merecia uma dura dessas, mas eu precisava saber da parada da boca dele, também. Ainda assim eu não deixei de me sentir sujo em, tipo, “abusar” de alguém na sua situação.
– Ahn – prosseguiu. -, eu taria tão aflito quanto você, se estivesse no seu lugar. Bom, com tudo esclarecido, você não precisa mais acabar de me matar, haha!
– Hehe. Desculpa, Igor – apertei a mão dele. – Desculpa mesmo por essa agressividade toda. E – virei-me à irmã. -, me desculpa, Mirtes.
– Tudo bem – deu-me um abraço.
– Er… eu queria muito te ver, mas agora, depois do mau entendido eu meio que tô sem chão. Cê sabe que eu nunca fui tão bom com os sentimentos, difícil eu demonstrar alguma coisa que não fosse numa situação “de risco”, sabe?
– Relaxa, é bom que cê esteja aqui. Agora que fiquei perneta, posso me dedicar à advocacia sem problema, hehe. Não vou precisar fazer tanto esforço. Só ficar sentadinho no meu escritório defendendo as piores peças da nossa cidade.
– Hehehe. Em qual faculdade você se formou?
– Na Drummond de Andrade, conhece? Lá no bairro do Carrão, em Sampa. Fiquei quatro anos estudando. O engraçado é que, do vestibular social pra cá, tipo 75% dos aprovados caíram fora.
– Você é um vencedor. Eu não sei se agüentaria.
– Por que não? A gente passou uma situação difícil de emprego, mas na época não tínhamos nada. Agora é diferente, você casou e vai ter uma filha… Eu ainda não arrumei mulher nenhuma, mas ao menos tenho minha irmã pra cuidar de mim.

Isso era um tanto vergonhoso…

– Cê vai arrumar uma mulher. Não cometendo os mesmos erros de, tipo, acreditar em qualquer garota de internet, já seria um avanço do caramba. Você deve tá mais adulto, pra ter que passar por essas merdas.
– Tô, nisso você pode ficar tranqüilo. Esse desespero de ir a três encontros e tomar três bolos quanto no primeiro a menina já mandou uns álibis escrotos, isso ficou pra trás.
– Heh. É isso aí – sempre se autodepreciava com maestria, esse moleque.

Dois meses depois nasceu a Gina, saudável, uma moreninha de olhos negros como os de um corvo. Acho que passei uns quatro dias chorando e tal – sabe como são essas situações “de risco”, haha. Igor vazou do hospital e não demorou tanto pra arrumar um serviço de advogado júnior em Vilar dos Teles, próximo à prefeitura de São João. Vez ou outra o visitava, e acabei me acostumando a fazer churrascos ao menos duas vezes por mês.

Felizmente, óbvio, Ronda não estava de fato atraída por ele, mas mesmo assim eu não a chamava muito ao visitá-lo.

Poucas semanas após o nascimento da Gina, eu voltava de trem pra Baixada; quando dava eu sempre pegava os primeiros vagões do trem porque eu nunca fui fã de ir todo amontoado. Tomei o ramal Japeri de boa, e, passando Nova Iguaçu, resolvi descer em Comendador Soares pra comer alguma coisa – eu morava em Japeri mesmo, mas por pouco tempo, já que nos mudaríamos pra Petrópolis, casa dos parentes da Ronda; tínhamos vendidos a lan e ela seria entregue ali há um mês.

Nunca tive o costume de encarar os outros, mas no trem quem conseguia passar quase 2h fitando o chão? Se bem que eu ainda estava na plataforma de Comendador comendo um sanduba com Coca. Daí, dentre os caras debruçados na janela, estremeci frente a um rosto.

Crânio redondo,

papada,

orelhões,

nariz aquilino,

pele clara.

E vestia uma regata larga e amarela dos Lakers. Ao lado duma loura estonteante de 1,80m mais ou menos.

Não é que era a porra do meu pai?

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