A Mesmice dos Jovens Escritores Brasileiros

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Dediquei os últimos seis meses debruçado sobre obras de jovens autores brasileiros, dessa geração nova que está sendo constantemente laureada de Prêmio São Paulo de Literatura a Jabutis, têm um séquito de fãs que, se não é extenso, é bastante fiel, além da aprovação da crítica, deslocando-os totalmente de escritores famosos mas “dados”, como Eduardo Spohr e Thalita Rebouças. Minha escrita se aproxima mais destes autores indies que destes dois últimos, então fiz até um esforço pra encontrar identificação maior, além do tema. Daí, descobri que a identificação mesmo era só uma brisa, ou melhor, fogo de palha. Algo tão concreto quanto uma gelatina.

Daniel Galera encabeça, em fama e reconhecimento, o antigo grupo de autores gaúchos que começou a publicar no fanzine eletrônico Cardosonline, em 98-2001. Alguns deles, como Daniel Pellizzari, fundaram a editora Livros do Mal, lançando as primeiras obras “a sério”, como a primeira edição de Até o Dia em que o Cão Morreu, do Galera, romances e coletâneas de contos. Do Cardoso também saiu Clara Averbuck, conhecida na esfera indie paulistana, e que como Galera teve uma obra adaptada para cinema. Pellizzari não abraçou a onda da fama, ainda mais sendo um escritor pouco prolífico, Paulo Scott e Joca Reiners Terron se solidificaram no mesmo tipo de fama literária da Averbuck, embora ainda pouco conhecidos, e os demais colaboradores da Livros do Mal (Paulo Bullar, Cristiano Baldi e Marcelo Benvenutti) não emergiram uma grama quanto aos colegas. Benvenutti, então, virou o indie do indie, publicando em fanzines sem visibilização.

Li os quatro romances do Galera, o Até o dia…, Cordilheira (da série Amores Expressos, formada pela Companhia das Letras através de Lei Rouanet), Mãos de Cavalo e Barba Ensopada de Sangue. Todos os livros foram elogiados pela maior parte dos leitores nos sites especializados em livros, como o Skoob; ganharam prêmios. Mas o que não entendia é que o fato de contar histórias num certo estilo próprio deste tipo de autor consegue ser tão bem mastigado, caindo num outro extremo da literatura brasileira que ficou claro no primeiro parágrafo: de um lado, você tem os escritores de “fantasia medieval”, emulando J.R.R. Tolkien, C.S. Lewis e o Role Playing Game propriamente dito, e os de “romance sobrenatural”, à la Twilight Saga. Haveria um terceiro componente a ser explorado pelo autor brasileiro e que está em voga mundialmente, que é a ficção distópica frouxa popularizada por The Hunger Games e Divergent, mas até hoje não vi nada parecido aqui. O extremo dito aqui é desse pessoal que fala sobre o difícil-dia-a-dia-na-cidade-grande, seja sob um viés bukowskiano (como faz a Clara Averbuck) ou ainda mais apático, como o Galera.

O problema dos autores indies nacionais e que enveredam por estas histórias de gente comum é a falta de vivência deles mesmos em situações distantes da do burguesinho que se forma em Letras (ha!) mas não sabe o que fazer da vida e vive o dia inteiro num andar superior de um apartamento (plot de Até o dia…), da burguesinha que vive altas loucuras com drogadinhos e tenta fazer coisas chocantes para adicionar um sentido à sua existência (plot de Máquina de Pinball); quando dá uma tacada onírico-sobrenatural, falha (caso de Digam a Satã que o Recado foi Entendido, do Pellizzari). Patenteando que sim, A MAIORIA DOS AUTORES INDIES NACIONAIS NÃO TEM O QUE FALAR! E ESTÃO GANHANDO ESTES PRÊMIOS A RODO PORQUE FALTA ALGUÉM QUE REALMENTE TENHA O QUE FALAR!

Então, jovem autor nacional ou entra no ramo puramente por dinheiro, caso óbvio das Thalitas, Eduardos, Raphael Draccons da vida, ou por ego. Não é questão de apenas “ser lido”, é questão de ser conhecido e bem repassado nas comunidades por aí, mesmo não tendo o que dizer. Todos os indies escrevem rigorosamente do mesmo jeito, tanto que no Cordilheira achei que a Clara quem tinha escrito o livro do Galera, onde ele tenta “incorporar”, em primeira pessoa, uma escritora que cai para Buenos Aires num lançamento da versão local de seu livro, quer ter um filho e lida com um grupo de escritores bizarros, no qual, tal como a própria protagonista, não imprimiu qualquer carisma.

Mãos de Cavalo padece da mesma deficiência presente desde o primeiro romance; personagens desinteressantes, sem vida, blocados na atmosfera apática que talvez seja reflexo da própria personalidade do Galera – não duvido que seja, pois indies são MUITO apáticos. Já o esperado Barba Ensopada de Sangue se certificou de que os prêmios recebidos ao autor são completamente injustificados: muita enrolação, muitas descrições de coisas e pessoas, uma falta de trato em explorar personagens femininas (outro erro perdurável) um “mormaço” que me afastou até antes da metade do romance. Como nem todo mundo é burro e manja quando algo ou alguém se revela uma farsa, foram feitas algumas críticas até na Grande Mídia, que em quantidade não se compararam com as favoráveis, é claro.

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BELA CAPA, HEIN?

Grandessíssimos parágrafos, sinopses incrementadas com aquele humor indie peculiar, pra deixar claro que é uma obra “para poucos”… Numa sub-divisão, temos o Ferrèz, escritor-da-periferia e que só fala de temas inseridos na periferia. E dá-lhe um mimimi vitimista à la Racionais MCs (“vida de favelado é difícil, mais um pretinho na prisão” e etc), e dá-lhe um encarceramento nessa sua “literatura marginal”. Esquerdista, também, como se podia esperar. Numa outra sub-divisão, temos Lourenço Mutarelli, o mais famoso de todos, mas que ainda não se desligou do estereótipo.

Veja bem, eu não estou dizendo que eu vá revolucionar alguma coisa com a minha literatura, até porque não me acho um escritor foda, mas sim que eu tenho algo a dizer. Então, já é um passo diferente, não me primar na mesmice. Evidente que teci opiniões minhas acerca do trabalho deles, mas sei que não estou sozinho, porque críticos. Há quem não gostou e há quem ache o Galera não um escritor ruim, mas pior, um escritor insosso. Um qualquer.

Tanto tenho algo a dizer que passei o cronograma com as sinopses do livro de contos, das novelas, romances e histórias em quadrinhos, que julgo e talvez muitos de vocês julguem histórias interessantes para abordar. Alguns deles eu já terminei, inclusive devia trabalhar na publicação deles, em primeiro lugar; o “problema” é que cada vez mais vou tendo novas idéias. Agora estou em 3/4 do Atomização – História de um Acompanhante, depois terei de retornar ao Caixa Preta e fazer umas adiçõezinhas safadas, uma editora aceitou publicar o Juntos na Noite por um precinho bacana que seria só pra custear produção de capa e ISBN e blablabla… No que depender de mim e da aprovação das editoras, VAI SAIR TUDO. “AAAIIN, MAS POR QUE VOCÊ NÃO LANÇA POR E-PUB, KINDLE E AFINS?” Primeiro, que é preferível, e isso é uma opção pessoal, ter o livro impresso na mão. Pra quem é autor, é nada mais nada menos que muito boa a sensação de ter os exemplares empilhados numa caixa mandada pela editora e, melhor ainda, a obra na sua mão.

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Tive essa sensação desgraçada de boa quando vi a caixa de O Homem de Lata. Segundo, que editoras estão optando simultaneamente por estes dois tipos de publicação.

Posso dizer sinceramente que não há autor brasileiro que aborde temas como os meus; eu não li todos nem mesmo em atrocidades, como as coisas do André de Leones e do Marcelo Mirisola, por exemplo. Então, é mais que necessária a minha entrada nessa merda. Falei no post do cronograma que deixaria minha marca; estamos aí para isso mesmo, pra autores com histórias legais serem revelados. Pra expandir um pouco essa panelinha, se possível, rompê-la.

Precisamos de mais opções pro povo, de gente que de fato tenha o que dizer.

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