[Filme] Elis – O Filme, O Desastre

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Elis Regina Carvalho Costa é um dos ícones indiscutíveis da música brasileira. Nascida em 1945, em Porto Alegre, deixou pra trás o desejo de ser professora pela música, e rapidamente cresceu artisticamente, do programa de rádio local Clube do Guri, passando por uma vida de bossa carioca, conhecendo novas e carismáticas caras (Ronaldo Bôscoli, Luis Carlos Miele), passando por uma reviravolta pessoal e artística em São Paulo (onde entrou de vez o pianista Cesar Camargo Mariano), findando na complicação decorrente de uma combinação demoníaca de cocaína com Cinzano, em janeiro de 1982, na mesma cidade. 

Sou admirador, conheço uma parte da sua vida lendo várias de suas biografias; cheguei a acompanhar a visão de outros fãs por meio das comunidades dedicadas à cantora no Face, e estes mesmos fãs, em sua maioria bitolados quanto à sua suposta preferência política (prefiro acreditar que ela não tenha sido de fato de esquerda, visto tanto sua declarada insegurança, as reviravoltas mentais e as declarações de que “não seria mais usada por mais ninguém”, no fim da carreira), e já fui escorraçado de duas comunidades em defender essa ambiguidade elisiana (eles sempre recorrem a’O Bêbado e a Equilibrista para etiquetá-la), ou seja, mais uma vez não seguem o que pregam, que é a “tolerância”. Beleza. Um pouco antes disso, já sabia da existência da produção do filme.

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ELIS NUNCA FOI TÃO GOSTOSA ASSIM

A mineira Andréia Horta, que foi escolhida antecipadamente, mas que precisou fazer um teste, é uma atriz esforçada, mas péssima. Divulgaram que ela passou três meses se preparando pro papel, mas creio que este tempo se resumiu a dublar as canções de Elis, além de emular os maneirismos, e ainda assim errou – Elis troca de sotaque umas duas vezes durante a carreira; o filme começa e finda com Andréia Horta jogando seu sotaquezinho de sempre… Só pra eu ser chato nessa questão. Interpretação forçada, com flexões de rosto, frases inaturais, como as muitas do confuso roteiro escrito a seis mãos (o diretor Hugo Prata, Vera Egito e Luis Bolognesi). Aliás, o roteiro consegue ser o grande vilão do filme, passando uma história chapa-branquíssima, o que é um soco na cara de uma personalidade tão controversa e insegura quanto Elis. Era de se esperar que não retratassem as perseguições da Pimentinha a rivais na música (Nara Leão, Elizeth Cardoso, Nana Caymmi, Maysa) e todas as parcerias, mas até nisso deixaram de lado as mais importantes, como os duetos com Tom Jobim (na fase da vida que particularmente não curto, com Cesar Camargo Mariano, bem defendido pelo Caco Ciocler).

O dar-de-ombros se confunde com a covardia e com a produção ser uma espécie de “esquenta” para uma vindoura mini-série da Globo; falando nisso, não obstante a excelente fotografia, o formato “global” está tatuado no filme, e quem acompanha filmes nacionais de uns 15 anos pra cá consegue captar. Tira a visão de longa-metragem feito para os cinemas e substitui-se como um especial exibido na emissora. Lamentável de tal forma que as atuações excelentes de Júlio Andrade (como o bailarino Lennie Dale) e de Lúcio Mauro Filho (o produtor e apresentador Luis Carlos Miele) não seguraram a avalanche de equívocos.

Por mais que boa parte dos fãs de Elis seja um bando de descerebrados, nem eles mereciam engolir este desastre sem qualquer resquício de alma.

Carecia?

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Leia a crítica de Julio Maria, um dos biógrafos da cantora.

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6 comentários sobre “[Filme] Elis – O Filme, O Desastre

  1. Anonimo disse:

    Essa resenha toca no ponto crucial:

    Pra mim o grande problema do filme é o roteiro, que segue a estrutura clichê da maioria das cinebiografias. E o problema não é nem o fato de ser um clichê, e sim o fato de ser uma estrutura previsível, tediosa, sem imaginação. Começamos com ela jovem, determinada, antes da fama, acompanhamos sua escalada ao sucesso, ouvimos seus maiores hits, vemos seus dramas pessoais, sua decadência, e o filme termina em morte. É uma abordagem jornalística, não cinematográfica. Quando o filme termina, até o espectador mais casual se pergunta: E daí? Qual o sentido da história? Que mensagem levamos pra casa? Nenhuma. Fica uma sensação de vazio. O filme é apenas um belo registro da vida de Elis e uma forma de apresentá-la pras novas gerações. Nesse ponto, ele é bem sucedido (eu não gosto de MPB mas saí com uma impressão melhor da artista do que entrei; no filme do Tim Maia, por outro lado, eu saí com uma impressão pior do artista, sendo que gostava da música dele).

    http://profissaocinefilo.blogspot.com.br/2016/12/elis.html

  2. Anonimo disse:

    Sou admirador, conheço uma parte da sua vida lendo várias de suas biografias; cheguei a acompanhar a visão de outros fãs por meio das comunidades dedicadas à cantora no Face, e estes mesmos fãs, em sua maioria bitolados quanto à sua suposta preferência política (prefiro acreditar que ela não tenha sido de fato de esquerda, visto tanto sua declarada insegurança, as reviravoltas mentais e as declarações de que “não seria mais usada por mais ninguém”, no fim da carreira), e já fui escorraçado de duas comunidades em defender essa ambiguidade elisiana (eles sempre recorrem a’O Bêbado e a Equilibrista para etiquetá-la), ou seja, mais uma vez não seguem o que pregam, que é a “tolerância”. Beleza.

    Artistas são românticos, sonhadores.

    A esquerda consegue ser romântica porque não tem pudores em mentir.
    Defende que todos podemos viver em uma comunidade riponga mesmo sabendo que isso satisfaz a poucos.

    Conheci uma pessoa que trabalhou em uma casa de prostituição e as meninas pelo regulamento não podiam sair fora da boate em horário de expediente, até para proteção delas.
    Se despediam dos clientes na portaria onde eu fazia a segurança.

    Elas olhavam bem nos olhos do camarada e diziam o quanto ele foi especial.
    Era uma cena tão romântica.
    Eu decorei a fala de algumas porque era sempre a mesma na primeira vez de um cliente com elas.
    Uma dizia algo assim:

    “Foi bom demais, se eu tivesse conhecido alguém como você não teria entrado para essa vida.”

    Alguns homens acreditavam, elas eram muito boa nisso.
    Outros sabiam que era mentira, mas ERA TÃO BOM OUVIR AQUILO…

    Lembro quando a Xuxa falava: “Beijinho, beijinho e tchau, tchau.”

    Ela olhava diretamente para câmera, parecia que era só com a gente que ela estava falando, era bom ouvir aquilo de uma mulher tão bonita.

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