Quando eu saí da cidade de Aparecida/SP para o Rio de Janeiro (minha terra natal e de onde eu acabei saindo, tentando ir para São Paulo), a rodovia Presidente Dutra estava com um pequeno congestionamento.As pessoas de outros veículos perto da gente estavam curiosas lendo os dizeres “Conselho Tutelar da infância e da juventude” Continuar lendo

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Voltando à retrospectiva…

Eu tinha permanecido numa delegacia, na cidade de Aparecida, Estado de São Paulo, onde passei o ano novo, comi alguma coisa e dormi num colchão no chão duma salinha que tinha próximo as celas, que estavam aparentemente vazias (pelo menos a maioria).Eu tinha aparecido lá porque estava andando próximo à Basílica e tinha conversado com um dos guardas sobre a minha situação, daí, ele me deixou naquele lugar, para no dia seguinte, resolver minha situação.
Eu estava querendo ir à São Paulo, era minha pequena obsessão, mas não estava arrumando mais carona nem dinheiro para sair de lá.Do nada, um dos policiais, um mais velho (aparentando 60 anos, já com os cabelos grisalhos) veio em minha direção me xingando e falando besteira, nem entendi nada, ele deve ter pensado que eu era um dos presos.Depois de uns minutos, ele mudou totalmente seu tratamento, continuei sem entender nada.
O funcionário do Conselho Tutelar chamado Fernando Dias me tirou de lá e me levou ao local onde ele trabalhava, no centro de Aparecida.Por uns minutos, ele ficou se vangloriando de que eu era o “1ºcaso dele de 1997”.Não tinha só ele de conselheiro, tinham outras mulheres, que não me lembro o nome.Daí, eu almoçei no “Marmitex” (o que no Rio chamam de “Quentinha”), ficava o dia inteiro no Conselho e comecei a dormir em um albergue que tinha na praça do centro de Aparecida.Quem tomava conta e recebia o pessoal do albergue era um homem obeso e no outro dia era um mais magro e mais velho, de bigode.Nós entrávamos, tomávamos sopa, e nos deitávamos em colchões no chão.E fiquei fazendo isso por algumas semanas, que pareciam meses.
Quando eu enchi o saco e ameaçei ir embora, nem se importaram, mas não fui.Nos fins de semana, o Conselho Tutelar permanecia fechado e eu não tinha nada pra fazer, a não ser andar por aí, sem comer e começei a frequentar uma biblioteca pela manhã.Lia os quadrinhos da Turma da Mônica dos anos 70 e fora isso, ficava num ócio total.Não fiz amizade com as pessoas, por isso, nem conseguia ficar na casa de alguém no fim de semana, nem conseguia me alimentar direito.A sopa do albergue não era nada, todo mundo sabe que sopa não enche.
Os dias passaram, e a minha relação com o pessoal do albergue estava ficando ruim.Em um dia, em que estava aborrecido, peguei o travesseiro com força, o funcionário lá do albergue, se aborreceu comigo e me sacudiu.
Em outro dia, era quase 10 horas (quando o albergue fecha), eu estava quase dormindo, quando vi novos internos, que passaram a me questionar de onde eu vinha…falei que era do Rio.Um deles, jovem, me disse que o Rio é um péssimo lugar pra ficar, que eu não deveria voltar pra lá, etc.Nem tive pensamento pra ir embora do albergue naquela hora, não pensei que iria acontecer alguma merda, e também, eu estava com sono.
“10 horas, tô fechando”, o cara zelador do albergue disse.
Algumas horas depois, eu fui acordado pelo mesmo cara carioca.Me disse que eu deveria fingir que era NAMORADO dele, antes que o outro sujeito viesse matar a nós dois.Não entendi nada, o cara lá ficou me ameaçando, falando que iria me matar se eu não ficasse junto do outro.Daí, fomos ao banheiro.Enquanto o cara jovem disse que se eu não o masturbasse, o outro sujeito me mataria, e ele realmente estava espiando.Eu não tinha culpa de nada, era um chorão, acho que tinha uns 13 anos, ainda, nem poderia simplesmente fugir dali (porque tava trancado, e eu torcia pro zelador lá acordar e perceber isso) nem dar porrada nos dois caras.Daí, eu masturbei o cara, e ele tava falando na mulher dele.O outro estava me vigiando, de lá de fora.Quando o jovem saiu, o mais velho, (que supostamente me mataria) estava querendo que eu tomasse banho.
“toma banho, aí”, disse ele.Eu estava temendo que ele fizesse algo, só molhei a cabeça.Só masturbei o cara porque pensei que o mais velho iria me matar.E nem sabia o motivo que ele queria me matar.Eu nunca tive e não tenho tendências homossexuais.Ainda bem que não me pediram pra ter relações homossexuais com ninguém, pois aí, eu não faria, mesmo, e morreria.
O cara que eu fiquei masturbando ficou me chamando de “meu viado” umas 3 vezes, e eu não pude fazer porra nenhuma, estava numa situação de impotência naquele dia.E eu queria sair dali, dar porrada dos caras, e não pude.
O mais velho ficou me perguntando se eu era gay.Eu perguntei (muito relutantemente) que sim.
“tu gosta de um pau, né?”…eu fiz positivo com o polegar.Humilhante.
Depois disso, o mais novo me pediu pra que dormisse atrás de mim.Eu não quis.”mas, você está de calça”.Nem encostamos direito, felizmente.Daí, ele disse que se não dormíssemos juntos, o outro se encarregaria de mim e me mataria.Daí, dormimos.

De manhã cedo, eu acordei primeiro que ele, um dos internos viu que ele estava atrás de mim, eu levantei rapidamente, peguei minhas coisas e saí fora….nem tomei café.
Depois daquela, nunca mais entrei no albergue.

Essa foi uma das situações mais humilhantes que sofri na vida.Tive que bater punheta prum cara, sofrendo com supostas ameaças de morte sem motivo algum, e ainda deixar que um HOMEM dormisse atrás de mim…

Há alguns dias depois, eu fui com o Fernando Dias para o Rio em uma Kombi, escrito bem grande, em letras garrafais, que era um Conselho Tutelar, etc. e tal, e todo mundo ficava olhando, no congestionamento que tinha na Via Dutra.


Era fim de 1996 e a situação de morar com a minha tia estava insuportável.

Não pelo fato de eu não aturar coisas que quase qualquer um pode fazer, como carregar entulho enquanto o primo mais novo, Thiago, ficava sem fazer nada e tirando onda e meu primo mais velho, Cleilton, dizendo que era “exploração” da minha tia fazer aquilo com a gente…enquanto isso, o carro de carregar entulho passava do nosso lado.

A minha tia começou a se tornar mais agressiva, mas era assim sempre em nossa família, e novamente eu digo: 1º, eles te acolhem e são todo sorrisos e te tratam bem.2º, depois, quando começam a se acostumar com sua presença, te tratam mal, gritam e o caralho à quatro.Eu não era um cagão a ponto de chorar por qualquer coisa, mas eu odiava ser tratado dessa forma.

Nos fins de semana, eu e meus primos ficávamos jogando fliperama (mas a máquina era por minuto) próximo ao CIEP.Depois da decepção do meu início de amizade com a Ticiane, eu deixei de falar com o pessoal lá de cima, pouco a pouco.

Um dia, eu disse que iria embora da casa da minha tia.Ela me disse que eu não poderia ir embora, eu disse que iria porque já estava de saco cheio.Daí, começou a gritar comigo, etc e tal, e a minha prima Daniele vendo.Não me lembro o por quê, mas eu começei a chorar.Daí, minha tia se aborreceu e: “cala a boca, senão eu piso no seu pescoço!Tá me dando nos nervos, essa porra!”.E a Daniele olhando pra minha cara e rindo.Depois, eu subi para o quarto, fiquei olhando pra minha cara de choro, pensando que aquele momento era a gota d’água.

No dia 30 de dezembro, eu tinha pego as minhas coisas e ido embora, a minha tia não estava em casa.Peguei o trem e fui para o município de Japeri.De lá, fiz uma baldeação para Paracambi.Lá, conversei com umas mulheres sobre a minha situação.Eu simplesmente menti falando que eu morava na cidade de Barra Mansa (interior do Rio, na região do Vale do Paraíba)Era noite, então eu precisava arrumar um modo de me distanciar cada vez mais do Rio de Janeiro.Elas ficavam falando que se eu mentisse, iria acontecer algo de ruim comigo, falaram que tinham “bola de cristal” e etc.Como elas não poderiam me levar para a casa delas, me deram um dinheiro para comer, e para pagar a passagem do ônibus da viação Normandy, que passaria por ali ao amanhecer.Daí, fiquei dormindo na praça.Lembro-me que o filme “O Máskara” passava na Globo, pela 1ªvez.

De manhã cedo, peguei o ônibus, e foi uma viagem “longa” até Barra Mansa.Passamos por Piraí, Barra do Piraí, Volta Redonda e chegamos na rodoviária de Barra Mansa.Eu disse ao motorista se chegamos, e ele: “Cê não tá de mentira, não, né?”.Não.^^

Eu não tinha passagem para ir adiante e eu começei a abordar as pessoas na rua, tentando contar uma história inventada para eu arrumar dinheiro.Claro, todo mundo me ignorou, ainda mais que eu sou gago.Quando eu penso que falei “Ó, vou te contar a minha história” e a mulher falou “já ouvi muita história por hoje”, eu caio na risada.Consegui arrumar uma grana com alguém e peguei um ônibus para Resende, indo para o Estado de São Paulo.De lá, foi o mesmo esquema…daí, consegui pegar um ônibus para Itatiaia.

Itatiaia é uma cidadezinha, em que a atração mais famosa é o Parque Nacional de Itatiaia, que tem o Pico das Agulhas Negras, fazendo divisa com o Estado de Minas Gerais.

Eu nunca fui de andar maltrapilho pela rua, talvez, quando criança.Mas na minha pré-adolescência e adolescência, só andava arrumado.Era com uma bolsa ou mochila, blusa de manga curta e calça jeans.Tênis ou sapato.De vez em quando, ia de boné, mas hoje em dia, não uso mais.

Em Itatiaia, eu tinha arrumado uma carona de carro, eles iam pro Estado de São Paulo, para a cidade de Aparecida (tem gente que insiste em chamar de “Aparecida do Norte”).Eu estava com fome, com sede e cansado de vagar por ali.E fui.Foi a primeira vez que eu tinha saído do Estado do Rio.

Queluz, Lorena, Guaratinguetá…chegamos em Aparecida, Vale do Paraíba do Estado de São Paulo.Dia 31 de dezembro.Eu nem pensava em Ano Novo, ou alguma coisa assim.E nem me importava com a Basílica, eu nunca fui católico, na verdade.Mas era um local bonito.Desnecessário dizer que a cidade de Aparecida só era conhecida por causa da Basílica, dããã.Fiquei andando pra lá e pra cá.Chegou a noite, todo mundo começou a se recolher pros seus lares, outros ficavam festejando em outros lugares, esperando a chegada do ano novo.E outros na igreja.Eu fiquei perto da guarita próximo à Basílica, não tinha nada que eu podia fazer.E nem estava arrumando carona para ir à São Paulo.Começei a contar a minha situação pro guarda, falei que estava na rua e ele me levou para dormir…na delegacia.

Feliz 1997.

Depois que eu fiquei por uns dias no abrigo FEEM de Araruama (no bairro do Outeiro), eu tive que dar um jeito de ir embora de lá.Eu ficava andando o dia inteiro na área, me masturbava na cama e um dia roubei algumas revistas do Conan dentro de outro alojamento, que servia de colégio para as criancinhas da comunidade.Acabei ficando com a foto de uma estudante, tinha mais ou menos uns 12 anos de idade, na época.Nem sei porque eu fiquei com ela.

Então, no dia seguinte a educadora que trabalhava no alojamento quis saber quem invadiu o local e veio direto em minha direção.Eu desmenti várias coisas, disse que não tinha entrado e pego as revistas do Conan, mas ela roube que eu estava com as revistas, embora eu tenha chiado o quanto quisesse sobre isso.E isso não teria acabado, porque discutimos novamente envolvendo outro fato de furtos de revistas em quadrinhos.
Daí, eu tive uma ânsia tremenda em ir embora de lá.Eu tinha conversado com a assistente social sobre meu retorno ao Rio de Janeiro.Daí, fomos de carro até a casa da minha avó no bairro de Engenho Grande, conversamos um pouco, e peguei minhas coisas.

E eu acabei indo para o Cemasi Ayrton Senna, mesmo.

Naquela hora, a minha tia já sabia das minhas presepadas e decidiu ficar comigo.

Eu ensaiava um flerte com uma das mães adolescentes que moravam no abrigo, chamada Mônica.Ela era clara, olhos verdes e cabelos tingidos de preto, até o ombro.Em um dia, eu acabei decepcionando ela por cometer uma série de furtos IMBECIS dentro do abrigo.Os objetos que furei: um pote de maionese e um relógio de parede.E não sei porque, ia para uma sala fechada nas dependências do lugar (utilizada para reuniões) e ficava assistindo “O mundo de Beakman” me empanturrando de maionese, sem saber que me enjoaria rapidamente.E me enjoou.Seguidamente, eu ficava de castigo, não saía e Mônica ameaçou me dar um soco na cara, um dia.Naquela época, eu era peidão, mesmo.A menina também tinha uns 17, 18 anos, visivelmente mais forte que eu.Provavelmente, ela não sabia que eu gostava dela.

Por causa destes furtos e de outras presepadas, eu fui começando a ser zoado pelos internos e quase briguei com alguns..num dia, quase entrei na porrada porque eu não ajudei a lavar o quarto, logo que eu retornei ao abrigo.Um moleque lá rapidamente ficou com raiva de mim e me deu uma braçada nas costas.Eu, vergonhosamente era muito fraco, naquela época, 1996.

Aí, eu fui transferido para outro lugar, o Cemasi Sol Garçon Passi, próximo ao Ayrton Senna, em Vila Isabel, na rua Oito de Dezembro, próximo ao Corpo de Bombeiros do bairro.Eu fui junto com um outro usuário chamado Leandro (não o da família Gomes).Já de início, não tinha gostado do pessoal, fora uma peituda que estava namorando com um magrelo lá chamado Macarrão.Este Cemasi era um sobradão com um pátio na frente, uma garagem lá atrás e um alojamento lá atrás, também.Eu nem quis me acostumar com este pessoal: fugi do abrigo e fiquei vagando uns dias pela rua.Minha tia resolveu ficar comigo, em sua casa na favela da Palmeirinha, em Honório Gurgel.

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A minha tia não tinha ficado aborrecida com a minha saída da casa da minha avó, talvez estava acostumada com minhas idas e vindas de abrigos, casa de parentes, etc.Até hoje, eu raramente falo com os meus outros tios…eles andam totalmente sumidos.Pra se ter uma idéia a minha tia Emília, eu não vejo há mais de 10 anos.O tio Manuel, irmão do meu pai, mora na Rocinha, mas provavelmene deve ter se mudado.Não o vejo há quase 5 anos.Meu outro tio José Carlos, eu vi há 3 anos, ele trabalhando de motorista da Central de Triagem, um centro de recepção para futuros usuários de abrigo, em sua maioria oriundos de outros estados.Disse que iria morar comigo em Araruama e etc, mas pelo jeito, era só balela.
Então, é isso.

No fim de 1996, a minha tia morava com meus dois primos (o mais velho Cleilton e o mais novo Thiago), o companheiro dela, que me esqueci o nome e os dois filhos dele com outra mulher.A minha prima mais velha, Daniele, tinha ficado lá por pouco tempo, até ser despachada para Araruama, ficando com o namorado dela.A Palmeirinha é uma favela bem pequena, o Comando Vermelho não fazia muitos estragos (pelo menos, era o que eu via) e todo mundo vivia feliz.

Eu tinha passado por um momento de profunda tristeza dentro de casa.Até cumpria as exigências de minha tia para estudar, ela era amiga de uma família que morava em um CIEP.Essa família tinha 2 filhas lindíssimas, e eu tinha me apaixonado por uma delas, a mais velha chamada Ticiane.Mas todo mundo queria namorá-la, sem sucesso.O Cleilton trabalhava em um trailer em frente ao colégio, custeado pela minha tia.Vendia doces, balas, cachaça.Eu ajudava a tomar conta, mas sempre ficava faltando algumas balas, por minha causa (eu que pegava).
Acabei fazendo uma prova para passar para a quarta série no CIEP e passei, mas não cheguei a cursar o ano letivo.Os meus fins de semana naquele lugar eram totalmente sem graça e depressivos.Eu só gostava de ver desenhos, como os “Cavaleiros do Zodíaco” na finada Manchete, e “Doug” no SBT.Começei a imitar os trejeitos do personagem principal, junto com um amigo que eu fiz, que morava na casa dentro do CIEP, também, junto com a família.Fui repreendido pela minha tia. Insistia em dizer que seria racista, por só namorar mulheres aparentemente morenas e brancas.

Daí, ela começou a ficar mais agressiva comigo dia após dia.Não pelo assunto de raça (e convenhamos, é um assunto espinhoso), mas por sua personalidade, mesmo.A música “sozinho” do compositor Peninha me fazia ficar triste e depressivo, me fazendo ir ficar na frente do CIEP e olhar aquela paisagem da favela e dos outros bairros do Subúrbio atrás dela.Na época, essa música tinha sido regravada pela Sandra de Sá, numa interpretação mais decente que a de Caetano Veloso, que o fez há alguns anos atrás.E a música “sozinho”, eu pensava na voz da Sandra de Sá, mesmo.Eu ficava olhando para aquilo tudo e pensando em como a minha vida era uma merda e em como eu não iria prosperar permanecendo com a minha tia.

Casa da minha avó

A casa da minha avó ficava em um pequeno sítio, na divisa de Araruama com Saquarema chamada Engenho Grande.Até hoje, guardo (em sua maioria) boas lembranças do local.Lá que eu passava as férias, o Natal e Ano Novo, quando meu pai estava vivo (na verdade, sempre quis que eu ele ficasse lá na Cidade de Deus, mesmo, ao invés de encher o saco lá na minha vó também, heheheh).

Daí, a minha tia Emília foi comigo e depois retornou ao Rio.Fazia um tempo que eu não ficava com a minha avó, achava que lá era melhor que o abrigo, melhor que qualquer lugar do Rio.Lá tinha a serenidade que aquela capital não tinha, iria arrumar menos brigas, e menos estresse.

O “companheiro” dela chamado Zé ainda estava frequentando a casa, ajudando ela na capina e entre outras coisas.A casa era pequena, tinha 2 quartos, 1 banheiro, cozinha, sala de estar e varanda.Eu assistia muita tv (aliás, não tinha muita coisa pra fazer lá), e ficava rondando no mato, corria do cachorro da vizinha e…assistia tv.
Eu já começava a discutir com a minha avó.Ela fazia pouco caso de mim, eu, idem e ameaçava me bater com o cabo de vassoura quando eu não chamava ela de “senhora” e sim de “você”.Naquele ano tinha eleições e quando o deputado Miro Teixeira falava na tv, eu mandava ele calar a boca.Minha avó (no quarto) pensava que eu estava falando dela e me xingava, mesmo ela não falando nada.

Meus primos Luis Carlos e Carlinhos moravam lá no Engenho Grande, também, mas do outro lado, perto da Lagoa de Araruama.A mãe deles era mulher do meu tio José Carlos, irmão do meu pai.Na primeira vez que eu fui na casa deles, fiquei meio tímido, filei um bom almoço (peixe frito, salada de alface e arroz e feijão, pelo que me lembro).Ela era evangélica (da “Deus é Amor”) e um dia fui lhe falar sobre o que aconteceria com a alma do meu pai, já que ele morreu.

– Ele gostava de pagode, bebia…então, provavelmente o seu pai foi pro Inferno – disse ela, num tom triste.

Daí, de vez em quando eu ia na casa dela jogar no videogame do meu primo Carlinhos.Sonic 2.Quando eu perdia, xingava, me aborrecia muito.A minha tia reclamava do meu vocabulário, eu a respondia mal.E ela acabou perdendo a confiança em mim, pouco a pouco.Fiquei uns dias dormindo lá e só discutia com ela, mesmo ela estando certa.

A minha avó começou a me tratar mal.Um dia, ela me deu uma surra na frente do Zé.Relembrando hoje, as porradas que ela dava eram fraquíssimas, o mal é que eu não percebia isso, antigamente.Num dia, ela tinha feito pirão e peixe assado para o almoço.Ela me deu a cabeça do peixe para comer.Eu já odeio pirão, quanto mais cabeça de peixe, não importa se estiver assada, frita ou o caralho à quatro.Ela viu que eu não comi, e pegou os papéis do dicionário da Língua Portuguesa que eu lia e rasgou.Ela não sabia que era da minha tia e eu ri da atitude dela.Quando ela me obrigou novamente a comer, eu comi um pouco e disse “ah, é bom, hein?” com uma cara forçadamente alegre, para convencê-la a não me perturbar mais com aquilo.Daí, eu corri pra casa da minha tia e falei de outras coisas que ela fez comigo, como me xingar e me bater.Na minha família, sempre é dessa forma, eles te recepcionam bem nos primeiros dias, mas quando começa a estagnar te tratam mal.Aliás, acho que isso ocorre em qualquer família, a paciência é que varia.

Um dia, eu fui embora, até avisei para a minha avó.Andei a pé até um pouco mais do Centro de Araruama.Depois de chegar na localidade da Praia do Barbudo, e desandei a chorar, me lembrando de uma música bem triste (era uma música romântica da Bela e a Fera, aquele longa da Disney).Chorei pra caramba, andando pelo acostamento da estrada.Chorei de arrependimento e de tristeza.Raramente acontece isso, até hoje.Voltei pra casa.

Na outra vez que eu fui, eu andei a pé de Engenho Grande até o município de Iguaba Grande, que ficava há uns 15 ou 20 km da casa da minha avó.Saí de lá pela manhã, cheguei em Iguaba com os pés doendo MUITO, na base de 7 da noite.Consegui arrumar a passagem e voltar pra casa.

Da outra vez (a última), eu tinha ido de vez, fui até Cabo Frio (não fui à pé).Eu me lembro que tinha ficado no CRIAM, mas me disseram que só abrigavam menores, desde o começo da década de 90 (e isso valia para todos os CRIAMs).Fui diretamente a um abrigo que tinha antes de chegar no Centro, eu já tinha permanecido lá, antes.Depois de tanto insistir, fui acolhido ao abrigo.

As implicâncias começaram.O menino lá pensou que eu tinha chamado ele de “viado”, antes, mas não tinha chamado.O outro amiguinho dele ficou batendo na minha perna, torcendo pra que eu me emputecesse e que eu brigasse.Acabei pedindo “desculpas” por uma coisa que eu não fiz.Eu era cagão na época, quase nunca encarava os outros.A educadora que me elogiou dizendo que eu tinha “olhos grandes”, me deu uma bronca e a outra disse que “não se comovia”com a minha história.Como se eu me importasse pra isso.

Daí, eu nem queria sair de Cabo Frio, nem voltar pro Rio, nem ir pra casa da minha avó.Acabei falando que eu tinha pais adotivos em Nova Friburgo com os nomes de Hermes Barolli e Letícia Quinto.Estes são dois dubladores paulistanos, irmãos.Eu gostava de “Cavaleiros do Zodíaco” (um desenho japonês que passava na Manchete) e estes eram os nomes dos dois personagens principais.Não dei o (falso) endereço.Daí, eu fui de carro para Friburgo, nem havia pensado no que fazer quando chegássemos.Fomos eu, o motorista (claro) e um educador, que o nome era Vanderlei, eu acho.

Daí, na altura de São Pedro da Aldeia, o motorista reclama que está sentindo um “quente” na perna devido alguma coisa perto da mesma que estava queimando.Eu não entendo porra nenhuma de carro, fiquei preocupado de não poder seguir viagem.E ele ficava enfatizando essa “quentura” toda hora, como se fosse pra chamar minha atenção.O Vanderlei só ficava olhando e comentando.Resolveram de me deixar em um abrigo da antiga FEEM em Araruama, no bairro do Outeiro.Eu já tinha ficado lá, antes, me lembro de ter fugido nos primeiros dias de permanência.Daí, eles disseram que iriam voltar a Cabo Frio verificar o carro.Até perdi um jornal regional pra ler, eles me disseram que iriam me trazer, que iriam retornar no mesmo dia.

O abrigo era grande, tinha um alojamento grande, tinha uma quadra de futebol, outro alojamento onde funcionava secretaria e direção, outro pra refeitório, etc.O pessoal de lá era meio violento, tinha doente mental no meio, e gente que não tinha nada a perder.Tudo adolescente.Daí, fiquei aflito, porque eles tavam demorando muito.Acabei dormindo lá.

Dia seguinte, conversei com uma educadora sobre isso.Ela me disse que eles tinham me enganado.Viram que eu estava mentindo, me deixaram na FEEM e deram no pé.

Eu mereci isso.

A minha tia (irmã de meu pai) chamada Emília tinha conseguido entrar em contato comigo, depois da morte do meu pai.Como eu previa, a minha outra tia (irmã dela e do meu pai) chamada Eliane sumiu.Até hoje, eu não sei onde ela mora.Daí, ela resolveu que eu ficasse na casa dela, já estava na segunda metade do ano.Eu topei, e tudo mais, e ela vivia me incitando para que eu saísse daquele abrigo e que eu morasse com ela.

– …tem o Tiaguinho, o Cleilton…

Estes eram os meus primos.O Cleilton era mais velho que ele, e ainda tinha a minha outra prima chamada Daniele, a mais velha (e com uma personalidade bem parecida com a da minha tia).A minha tia era uma pessoa explosiva, que fala o que pensa e que se bobear, discute com você ganhando no grito…mas ela era inteligente (sinceramente, a maioria do pessoal da minha família não era muito bom nesse sentido).Então, eu acabei indo visitar.

Tinha ido antes, com a minha mãe.Minha tia morava na favela da Palmeirinha, em Honório Gurgel, então dominada pela organização criminosa Comando Vermelho, mas a favela era bem pacífica, se comparando com Cidade de Deus, Rocinha e outras demais.Morador de “comunidade” costuma ser passivo até o talo, o bom é que a minha tia não era assim.Tinha um espírito bem mais batalhador que a maioria do pessoal.
Antigamente ela morava com a família em um apartamento no Méier (bairro da Zona Norte do Rio), mas a situação financeira começou a decair e inevitavelmente tiveram que se mudar.Eu sempre achei a idéia de viver em apartamento meio tola, pior em condomínio.O problema do apartamento é que fica difícil de você se comunicar com outra pessoa ao lado (só se for pra discutir, hehehe).Quanto ao condomínio, a pessoa prefere viver num local que ela acha “distante do mundo ruim”, como se fosse uma fortaleza, ou algo parecido.E dá mais esta impressão nestes mega-condomínios que estão sendo criados no bairro da Barra da Tijuca (classe média-alta).O próprio bairro já não tem esquinas.Eu NUNCA conseguiria viver num local como aquele, em que todo mundo vive enclausurado…

Daí, eu revi meus primos (a última vez que tinha visto eles foi na casa da minha avó, em Araruama, 1990/91), minha madrasta Elizabeth apareceu por lá (junto com meu irmão de criação Bruno e a minhas irmãs Daiane e Bianca), e eu comecei a frequentar a casa por 2, 3 vezes.

Minha situação no CEMASI Ayrton Senna não estava boa (tinha evadido e voltado), estava brigando com alguns internos, pedido educadora de 31 anos em namoro e tomado um “não” (claaro), me apaixonado por outra mais velha (embora ela tenha tido um namorado – que era motorista – e eu não ia com a cara dele, justamente por ele ter me mandado “à merda”, um dia) e rejeitando uma menina “feia” que poderia ter sido minha namorada.
Eu tinha gostado de uma das duas irmãs que vieram do Espírito Santo, a mais nova.Ficamos naquele chove não molha por um bom tempo, ela sabia que eu gostava dela, mas ninguém tomava a porra da iniciativa.O outro moleque que implicava comigo dizia que eu era “papa-anjo”, porque ela tinha 10 anos e eu tinha 13.O caso ficou mal-resolvido quando ela foi embora.

No meio do ano, eu tive que ir morar com a minha avó em Araruama.

Era só o começo da merda.

Naquele tempo, a música que fazia mais sucesso era “Garota Nacional”, do Skank.Eu achava que indo para a casa da minha avó, a vida seria mais fácil (gostava do ambiente roçeiro de Araruama), e ainda tinha a TV Lagos (subsidiária da Rede Globo na Região dos Lagos) que eu adorava, também.

Daí, eu saí do abrigo e fui com a minha tia até Araruama, na casa da minha vó.Boa recepção e tal (bem diferente de 1990, onde minha tia estava passando mal e vomitando logo na chegada).Minha tia foi embora.

Ida ao programa da Xuxa:

Eu tinha começado a entrar em contato com alguns de meus parentes.

Depois que meu pai morreu, eu só quis ficar no abrigo até melhorar minha situação.Digo, não tinha nada planejado a não ser terminar os estudos.Mas eu só formava inimigos, lá dentro.Desde os educadores aos internos.As discussões, implicâncias e brigas estavam ficando insuportáveis, mas eu não fugia.Fins de semana eram horríveis: Eu ficava ou no quarto dormindo ou andava pela área (enorme) do abrigo, pegando mangas, ou utilizando a minha criatividade para praticar “aventuras” (andava pela colina, adentrava ao mato), para escapar do ócio.Nos domingos, era pior.E eu subia mais no telhado do que nunca, quando souberam, eu fui proibido de participar de vários passeios.

“Quem sobe em cima do telhado é bichinha”, o “tio” Genilson falou para mim.Ok.

Neste ano, o pessoal tinha recebido um convite para ir ao Programa Xuxa Park, no Jardim Botânico, no Rio.Eu gostava da Xuxa (não muito), tinha boas lembranças dela no final da década de 80 (com o Xou da Xuxa) e quando o programa dela retornou à Globo (em 94), eu esperava por um revival perfeito.E me ferrei, pois as coisas, embora ainda voltadas para o ramo infanfil, estivessem mais amadurecidas.Tá, esse não foi o termo apropriado.:P

Além do pessoal do abrigo, tinham outros menores que iam para lá fazer cursos (padaria, bijuteria, etc.), mas eles acabaram não indo.Não me lembro se quem arrumou o passeio foi a Sra. Márcia Julião, provavelmente sim.Um ônibus, o pessoal zoando (como de praxe).Dessa vez eu não tinha aprontado, mas acho que todo mundo iria do mesmo jeito.

Chegando na Rua Lineu de Paula Machado (Jardim Botânico), chegamos ao Teatro Fênix, com uma fila enorme, dando voltas.Nós éramos os únicos vindos de um abrigo, os outros eram nada mais do que adolescentes classe média-alta da Zona Sul/Norte, maioria morena clara/branca, esbanjando futilidade.Com a zoação do pessoal do abrigo , os demais adolescentes mauricinhos e patricinhas fizeram cara de nojo, repulsa.Que previsíveis.Mas a maioria dos que estavam zoando nem se importavam com o que pensariam sobre eles.Eu só observava.
Entramos no portão e ficamos na extremidade da pequena arquibancada, à esquerda.Da arquibancada dava para ver o palco, claro, que parecia bem pequeno.Um dos educadores que tinham ido conosco era um altão, branco, cara de americano (inclusive eu até tinha perguntado isso para ele, eu queria saber de muita coisa, naquele tempo).Daí, chegou a Xuxa, as Paquitas (era umas das últimas formações das paquitas, chamadas na época de “New Generation”) e algumas crianças permaneciam lá no palco, brincando e nas pequenas bancadas que tinham em frente aos brinquedos, para acomodar os que disputariam nos times formados (“acomodar” porra nenhuma, os participantes da brincadeira e os torcedores ficavam em pé a maior parte do tempo).Chamaram algumas crianças e pré-adolescentes para permanecer perto dessas bancadas, torcendo com o pessoal.Eu fui, mas já era bem alto para pensarem que eu era um pré-adolescente (e tinha uns 13 anos na época).Eu fui tocar no ombro da Xuxa, e o segurança me repreendeu, dizendo que ela sofria de pequenas dores no local.Fiquei junto do pessoal, lá embaixo.

Daí, eu estava “apaixonado” por uma das Paquitas, chamada Diane Dantas (que até hoje tem fama de que era “enjoada e chata” na época de Paquita).Sempre percebi que ela era uma das preferidas da Xuxa.Nos especiais de Natal e em algumas apresentações das Paquitas, ela sempre tomava a frente.Eu estava com um boné vermelho, pedi vários autógrafos.Quando eu pedi para a Diane autografar novamente, recebi uma bronca dela falando que não assinaria de novo.Uma das outras paquitas louras chamada Giselle (que eu sempre imaginei ser doce e delicada) me atendeu.E o que eu pensava sobre ela, tinha se confirmado, ou então ela estava fingindo.Eu também imaginava que a minha também preferia Diane fosse como a Giselle, mas as coisas não são assim, exatamente como a gente pensa.Não foi nem um caso de frustração, apenas “baqueou” os meus sentimentos…uh, que coisa mais triste.Hhehehe…

Me lembro que eu sempre tive um amor platônico por pelo menos duas das Paquitas, de 1995/ a 1996.Como disse, eu gostava da Diane.Uma que me interessava era a Vanessa, uma morena de cabelos cacheados e Andrezza (também chamada de “Chaveirinho”), moradora de Duque de Caxias, e que tinha lindos olhos claros, mas fazia uma espécie de parte cômica do grupo.Tinha a Karen, que mais ou menos eu imaginava que seria chata (uma baixinha que tinha cabelos negros longos e franja).Eu tinha pedido algo para esta última:

– Karen, me dá um beijo?
– Não.
– Mas é no rosto.

O programa estava rolando.Sempre havia um erro, então começavam a rodar a cena de novo.Quando a Xuxa falava “esse é o nosso sábado”, todo mundo comentava, porque aquele dia era quinta-feira.Foda-se.Uma das coisas mais ridículas que eu fiz naquela época foi pedir os outros para serem minhas amigas.Coisa patética, que só refletia a minha carência (era apenas o começo).Haviam algumas pré-adolescentes bem bonitas.E como a minha gagueira atrapalhava, umas nem ligavam ou pensavam merdas a meu respeito.Eu tocava na cintura das meninas (ou nos ombros) e perguntava: “oi, podemos ser amigos?” e na maioria das vezes eu era ignorado.Uma das meninas, lourinha, comentou com a outra que eu viria a ser gay.Fui em direção dela, a xinguei e a ameacei.Ela não olhou diretamente para mim, mas estava ouvindo.Não falou nada.Alguns minutos depois, uma menina tinha ouvido e começado a se entrosar comigo, chamada Mariana.Ela morava na Zona Sul e estudava em uma escola particular chamada Fundação Osório (que existe até hoje).Eu nem participei das brincadeiras (até ficaria meio complicado de participar, pois o público e os telespectadores poderiam pensar:”ele não é meio grandinho para participar?”.Só fiquei conversando com ela e brincando.Ela não riu da minha gagueira (na verdade, de 100 pessoas, somente 15 riem), e conversamos quase até o fim.Quando o programa tinha terminado, os educadores chamaram o pessoal para ir embora, e eu quis beijar a Mariana, como uma despedida (mas queria me encontrar com ela novamente).Ela ficou querendo saber o que eu queria dar a ela, e eu fiquei embromando por uns 3 minutos.Daí, eu dei o meu BONÉ autografado para ela.Patético.Ela agradeceu e nos despedimos lá fora, quando ela estava na fila dos alunos da Fundação Osório.Mas quando eu me despedi dela, ela não deu muita importância.Já pode-se imaginar que ela não sentia a mesma coisa que eu.Claro que não.
O pessoal lanchou e fomos embora.Eu, com meu amor platônico por algumas paquitas totalmente desfeito, e a sensação de que eu deveria ter mais coragem quanto à beijar alguém…mas eu só tinha 13 anos, o que pode ser bobo demais de minha parte, já que existem gente que inauguram sua vida sexual aos 11, 12…

Eu me lembrei do nome da escola da Mariana (Fundação Osório) e do nome dela, hehehe.Daí, eu fui bobo o suficiente para ir na PRAÇA GENERAL OSÓRIO, ao invés da Fundação Osório, que era o nome da instituição.É a mesma coisa de ir na Rua General Polidoro querendo ir ao Colégio Municipal General Polidoro, com este estando em outro endereço, óbvio.A Praça General Osório fica no bairro de Ipanema, na Zona Sul do Rio.Fui lá à toa.Alguns dias depois, soube que a Fundação Osório fica no bairro de Rio Comprido, Zona Norte do Rio (próximo a Tijuca, Estácio e Praça da Bandeira).
Fui lá e acabei me ferrando, porque a única coisa que eu tinha da Mariana para achá-la era…o seu primeiro nome.

Mariana.